Yuri da Cunha “O sucesso passa... chega um dia em que o auge baixa”

Yuri da Cunha “O sucesso passa... chega um dia em que o auge baixa”

Em entrevista ao NG, Yuri da Cunha fala do seu novo CD “Intérprete”, a razão de esperar tanto tempo para lançar o disco, cita os problemas que assolam os músicos angolanos (falta de apoios, desorganização e desunião no seio dos artistas) e afirma que se inspira actualmente em Paulo Flores, Bonga e Carlos Burity.

Porquê o título ‘O intérprete’?

Porque a minha principal veia musical é a interpretação e também porque queria mostrar o que é a interpretação e o que é cantar. Todos nós podemos interpretar qualquer coisa nessa vida.

É um álbum só de interpretações?

Não. Terá músicas inéditas. Mas se tivesse de interpretar apenas músicas de outros artistas não me sentiria diminuído.

Esses estilos são a descoberta de novos mundos?

Sempre fiz isso nos espectáculos. Como resulta, decidimos meter esses estilos no disco para que pudéssemos não só dar o prazer a mim mesmo, mas sobretudo unir os países de África.

Como se sentiu quando abriu o espectáculo de Eros Ramazzoti?

No princípio não acreditei. Achava que alguém estava a brincar. Mas quando as coisas começaram a funcionar, foram várias as sensações. Uma delas, que todo o mundo nesse campo da fama e do sucesso sente, é a vaidade. Podes até ter vaidade, mas tens de ter os pés no chão. O que muitos não têm e acabam se perdendo. Senti vaidade e felicidade. Só queria estar aí e nem me interessava dinheiro nenhum. Quando chegou a responsabilidade sobre o que estava a fazer e sobretudo com o país deixei a vaidade e a alegria e fui um homem responsável.

Considera-se embaixador da música angolana?

Considero-me uma voz da música angolana. Sou um fazedor de música angolana. Embaixador, se for no sentido de mostrar a nossa música, sim. Se for noutro sentido, não me vejo como embaixador. Gosto da minha música e gosto de ser um garoto. Só se é um puto quando se faz aquilo que quer. Eu faço o que quero, que é cantar e alegrar corações. Sou apenas um cantor de Angola que realmente ama a nação e que quer expandir a dimensão cultural e social do país.

Porque demora tanto a gravar um álbum?

Porque o apressado come cru. Gosto de fazer bem as coisas. É uma opção minha, gosto de fazer tudo com calma, esperar o momento certo. Normalmente gravo de cinco em cinco anos.

É fácil juntar músicos em Angola?

Nesse disco trabalhei sempre com a minha banda. Em França e EUA, trabalhámos com músicos locais, mas a banda sempre esteve lá.

É difícil gravar um disco em Angola?

É. Devido a muitos factores. Muitas vezes dizem que os músicos estão, a toda a hora a pedir. É mau e é feio. Mas há muitos factores que fazem com que o músico tenha de pedir. Se for a tocar no fundo disso vamos entrar na política e depois vamos nos ferir e acabar feridos.

Enumere um desses factores…

Nós músicos temos culpas em algumas coisas. Mas também existem outras dificuldades que são criadas pela sociedade, pelos políticos, empresários. Já falei muito para ajudar a classe e sempre saí lesado, mesmo querendo ajudar. A teoria que se usa por aí é um pouco a minha e é a que está a fazer crescer a música.

E que teoria é essa?

É sermos verdadeiros e verticais. Temos de ter um pensamento comum e não individual. Aqui todos querem ser primeiro. Todos querem ter a palavra. Todos podem falar, isso é democracia, mas no fim um núcleo pequeno define o que tem de ser feito e depois trabalhamos com as políticas criadas por esse núcleo. Vejo muita vontade de empatar os caminhos dos outros. Mas não quero entrar nesse caminho para não ferir sensibilidades.

Como avalia a música angolana?

Existem alguns músicos angolanos que estão em cima. Mas a música angolana, como tal, está muito em baixo. É importante que se defina a música angolana e a música feita por angolanos.

O que deve ser feito para melhorar?

Deve-se fazer o que se fez antigamente quando me entreguei ao semba de alma e coração e quando a Rádio Nacional definiu que passaria a tocar 90 por cento de músicas angolanas. São muitos problemas que parecem não ser nada, mas fazem com que isso não ande. Somos menos respeitados. Há muitas coisas que devem ser feitas. Já fui a várias reuniões e as minhas opiniões são levadas em conta. Quando estou a falar dizem que estou certo, mas não se implementa. Para quê estar certo e não implementar? Então vou ser individualista.

A que se refere?

À falta de organização. Não somos organizados. Se fôssemos seríamos um núcleo de artistas fortes. Aqui quando chegam ao sucesso pensam que nunca vai acabar. O sucesso passa. Podes continuar famoso, mas chega um dia em que o auge baixa. Tudo o que sobe desce e quando descer, é que se começa a pensar em lutar pela união. Só que quando sobe fere muita gente e ninguém o quer quando desce.

O que falta para que haja organização?

O Ministério da Cultura tem de criar leis ou delegar à UNAC. Os músicos têm de se organizar para obrigar o Governo a criar mais leis e mais defesa dos artistas, fazer com que os empresários apoiem, obrigar a funcionar a lei do mecenato. Deve-se criar situações onde os artistas podem ter uma vida descansada e não quando ficam doentes enviar SOS e ter de pedir donativos. Estamos habituados que o que dá graça é bom e o que é sério é chato. Por isso, é que os valores estão todos invertidos. Na música, os egos estão crescidos, todos querem ser primeiros.

Há qualidade ou quantidade na música?

Há muita quantidade. Na qualidade, comparada ao mundo, estamos a 20 por cento.

Teve alguma formação musical?

Não. Mas vou-me informando. Vou para a África do Sul fazer um curso de música. Vou lendo e conversando com pessoas que têm conhecimentos.

Considera a formação musical essencial?

Com certeza. Há quem tenha um dom nato, mas chega uma altura que é preciso lapidar. Muitos não querem fazer. Mas é normal, quando se tem sucesso, ninguém se quer formar nem se informar. Têm medo da verdade. Isso dificulta, porque quando se quer crescer tem de se crescer com verdade.

Inspira-se no Bonga?

Sim, em várias coisas. Na música, inspiro-me muito nele. Hoje inspiro-me mais no Paulo Flores, Bonga, Carlos Burity entre outros.

Ser considerado pelo Bonga como um dos melhores músicos dá-lhe responsabilidade?

Sim. Não quero ser polémico e nem arranjar confusão, mas para mim a música angolana tem dois reis: o Elias Diakimuezo e o Bonga.

Gostaria de ser o ‘rei’?

Não. Quero ser sempre cantor. Não quero ser rei de nada. Deixo os outros serem reis. Não quero ter esse peso nas minhas costas. Mas se me arranjarem condições posso pensar bem. Ser rei sem ‘massa’, só para falar que é rei? Não quero ser rei assim. Quero ser rei onde me respeitem.

É um ‘candengue’ atrevido?

Muito. Considero-me um candengue atrevido demais porque o meu atrevimento acabou por me levar longe.

‘Respeita quem pode chegar onde a malta chegou…’

É uma mensagem especial. Foi preciso muita luta. Se você chegou agora, respeita também. Isso aplica-se em todas as classes da sociedade.

Quando, aos seis anos, venceu o concurso de rua, o que pensou?

Sonhava crescer na vida. Sempre sonhei ser tipo Michael Jackson e Bonga. Era um desejo, mas nunca me vi na pele deles. Cada um tem o seu destino. Já sou feliz por estar perto do Bonga. Já atingi o que queria.

Sente-se realizado?

As realizações aparecem e as novas etapas também. Cada vez que me sinto realizado estou feliz, mas depois aparece outro sonho. Sou muito sonhador.

Em 2009, afirmou que os cantores eram pobres e que não havia incentivos. Ainda sente isso?

Descobri que a pobreza financeira não é nada ao lado da pobreza espiritual. Todo o mundo quer entrar na mesma porta e à mesma hora. É onde está a pobreza espiritual e enquanto não perdermos isso, nunca vamos perder a pobreza financeira. Conheço muita gente que tem muito dinheiro, mas continua pobre. Uma pessoa cheia de dinheiro, mas que não ajuda crianças desfavorecidas, não ajuda a sociedade a crescer. Essa pessoa é pobre.

É filho do Higino Carneiro?

Não. Os meus pais chamam-se Henriques da Cunha Sampaio e Josefa Alberto da Cunha.

Perfil
Nome: Álvaro Alberto da Cunha
Data de nascimento: 13 de Setembro de 1980
Natural: Sumbe, Kwanza-sul
Filhos: 6
Estado civil: Solteiro

Fonte: Sapo Banda

Rádio Jet7 Angola

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