Yuri da Cunha: «Eu vivo do meu trabalho»

Yuri da Cunha: «Eu vivo do meu trabalho»

 

Luanda - O panorama musical angolano tem registado um aumento quantitativo e qualitativo. Esta é a opinião do músico angolano Yuri da Cunha. Em entrevista exclusiva à Angop, o artista faz um balanço da sua carreira e aborda o actual momento da música angolana na arena nacional e internacional.

 

Angop: Que analise faz do actual momento da música angolana?

 

YC: O actual momento da música nacional, no seu geral, é saudável, tendo em conta o aparecimento e amadurecimento de novos talentos e estilos. Mais é necessário uma maior aposta no semba, estilo musical que nos caracteriza. Há poucos jovens a apostarem neste estilo musical.

 

Se nós, angolanos, não pegarmos na nossa música e trabalharmos, vamos perder a nossa identidade. Não basta só internacionalizarmos artistas, temos sim que valorizar e preservar os nossos estilos. Houve há sensivelmente quatro anos uma explosão do semba, com o aparecimento de vários intervenientes entre cantores, promotores e estúdios que estavam a apostar neste estilo, mas registamos um retrocesso e constatamos que neste momento os actores são os mesmos que já cantavam há 5, 10, 15 anos. Temos artistas com muito talento, por isso temos visto artistas como Anselmo Ralph, os B4 (Big Nelo e C4 Pedro), entre outros, que têm uma carreira internacional de sucesso.

 

O semba devia ser uma questão de Estado, como é o samba no Brasil, o fado em Portugal ou rumba em Cuba. É preciso haver um investimento forte na área da investigação e formação para que o semba seja efectivamente um símbolo a nível cultural.

 

Angop: Os músicos angolanos ganham cada vez mais espaço no mercado internacional, a que se deve esta tendência?

 

YC: Esta tendência tem muito a ver com uma maior divulgação e valorização dos novos estilos que os jovens têm estado a fazer. Constata-se que esta projecção se regista com o “buum” do Kú-duro, do afro-dance. Mais deveríamos divulgar mais os trabalhos da chamada velha guarda, daqueles que dão alma do nosso semba.

 

Os artistas tiveram a porta para a internacionalização, com  Portugal como o principal ponto de referência,mas este trabalho não foi só feito por um artista, é fruto de muitos fazedores da música nacional. Hoje estamos a colher os frutos do sucesso. É só para vermos que os artistas nacionais são convidados em palcos que há alguns anos não sonhávamos pisar, mas ainda podemos fazer muito mais. Estamos numa fase de crescimento.

 

Angop: Esta internacionalização que mais-valia traz para a matriz musical nacional?

 

YC: É sempre benéfico para os artistas e para o país o reconhecimento da nossa música no mercado internacional. É sinal de que a nossa cultura está a ganhar. Mais não devemos ficar a dormir à sombra da bananeira com este mediatismo, porque se relaxarmos vamos regredir. Deve-se fazer uma aposta séria com a formação, criar escolas especializadas, onde se possa formar e aperfeiçoar o talento dos prodígios. O sucesso é sempre efémero, devemos continuar a trabalhar, mas não da forma que tem sido, cada qual por si.

 

Angop: Na sua óptica, é satisfatório o nível de consumo da música nacional?

 

YC: Acredito que devemos trabalhar mais e melhor para que possamos ser uma referência no mercado africano, para que o consumidor ao ouvir saia satisfeito com o produto final. Somos poucos a fazer trabalhos com o nível desejado. Devemos trabalhar juntos, com consenso, porque se a classe estiver unida a música é que sairá a ganhar.

 

Angop: Depois do lançamento, em 2013, do single “Kandengue Atrevido”, onde vimos o Yuri da Cunha com outras tendências, para quando um novo produto?

 

YC: Estamos a trabalhar com muita calma e profissionalismo. Temos estado a fazer investigações, estudo com outros artistas, para termos um produto com qualidade. Digo sempre que, para mim, a música não pode ser feita as pressas, ela deve ser pensada porque é também uma ciência, está em constante desenvolvimento, devemos fazer um trabalho com qualidade, para agradar sempre os nossos admiradores. Deve haver um cuidado especial ao fazer música. Eu já não faço só música para poder ganhar dinheiro, mas sim para poder ficar satisfeito comigo mesmo, por ter feito algo que agrada as pessoas.

 

Angop: Qual é o balanço que pode fazer da sua carreira no panorama nacional e internacional?

 

YC: A minha carreira, a nível pessoal, está no bom caminho, já conquistei algum terreno, o meu espaço, mas ainda sei que tenho muito que trabalhar para ser um cantor excelente. Considero que devemos fazer mais, porque somos pouco a fazer o semba e o semba é a nossa identidade. Só tenho algum reconhecimento por ser um fazedor do semba e este estilo é uma fonte inesgotável de segredos. Posso dizer que estou em constante aprendizagem na música, em particular no semba.

 

Angop: Como e quando começou a sua carreira no mercado artístico.

 

YC: Comecei ainda na escola, no bairro Rocha Pinto, em 1993, onde tive um professor que me incentivou a participar em um concurso na escola. Depois comecei a frequentar a Escola Pió, onde aprendi muito do que faço hoje. Em 1994 gravei a música “O amigo”, que fez um sucesso tremendo entre às crianças e jovens na altura. Na altura era convidado para cantar em vários espectáculos infantis, não era como agora que estas actividades desapareceram, só vimos esporadicamente quando é uma data em alusão às crianças.

 

Angop: Perspectivas para um futuro breve.

 

YC: A maior perspectiva é fazer as coisas com amor, fazer o meu trabalho com dedicação, ser um exemplo como pai de família e dignificar sempre o meu país quando for cantar o estrangeiro.

 

Angop: Os músicos nacionais já vivem do fruto do seu trabalho?

 

YC: Eu, particularmente, vivo do meu trabalho. Com algumas dificuldades, próprias da conjuntura da vida, tenho sabido viver do rendimento do meu trabalho e agradeço à Deus por poder viver do meu trabalho, é o único dom que tenho e com humildade, profissionalismo e destreza tenho levado o “barco a bom porto”.  

 

Angop: Fala um pouco do Yuri da Cunha dentro e for dos palcos.

 

YC: É a mesma pessoa extrovertida, alegre dentro e fora dos palcos. Sou aquele que procura sempre conquistar um fã, automaticamente ganho um amigo. Sou amigo da família, tenho tempo para visitar os familiares, passeio com a família. Aprendi que a humildade e o trabalho dignificam o homem, eu procuro fazer destas o meu lema. Vim muito cedo do Sumbe (Cuanza Sul), vivi a minha infância no Rocha Pinto e não esqueço as minhas origens. Ainda tenho uma equipa de futebol e todos os domingos, sempre que tenho disponibilidade vou jogar com eles.

 

Yuri da Cunha, artista que nasceu na cidade do Sumbe, província do Cuanza Sul, começou na música como cantor pio. Lançou o primeiro CD “È tudo Amor”, em 1999, e o segundo intitulado “Eu”, em 2005. Vencedor de vários troféus nacionais e internacionais, Yuri da Cunha ganhou o prémio Rádio Luanda 2008, na categoria “Kianda do Sucesso”, pela quantidade de shows realizados ao longo do ano e valorização da cultura nacional.

 

Em 2004, com a música Makumba, venceu o Top Rádio Luanda. É também o vencedor do prémio Rádio Luanda 2008, na categoria Kianda do Sucesso pela quantidade de shows realizados e reconhecimento da cultura. Em 2010 participou numa tourné de Eros Ramazzotti, por diversos países europeus.

 

Em 2009 colocou no mercado o disco Kuma Kua Kié.

 

Fonte: Angop

(Por Tchinganeca Dias)

Rádio Jet7 Angola

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