Entrevista com o talentoso músico Yurí da Cunha

O músico angolano concedeu uma entrevista ao jornal "O país", na qual publicamos na íntegra.

O rapaz do bairro

Depois de experimentar o sucesso além fronteiras, Yuri da Cunha quer ser um artista de sempre para o povo angolano.

 

Yuri da Cunha, prestes a completar 29 anos, é um dos cantores angolanos a caminho da internacionalização. Com 15 anos de carreira, contados a partir do dia em que gravou a primeira música na Rádio Piô, em 1994, é um furacão em palco e um simples “rapaz do bairro Rocha Pinto” fora dele. Desde o dia em que ganhou, aos seis anos, um concurso de rua na cidade de Luanda, já passaram 22 anos. Yuri da Cunha tem como sonho ser um caso sério de longevidade no panorama musical angolano.


Saiu agora de uma maratona de três espectáculos na Casa 70. Qual o balanço que faz?

O balanço é positivo. Não só por ter a casa cheia mas por termos apresentado um espectáculo diferente, com uma vertente muito cultural. Representámos a simbologia das cores da bandeira de Angola através das roupas que utilizámos. No primeiro dia, vesti um fato vermelho que significa que o sangue derramado acabou porque tinha também o branco da Paz e do Amor. No segundo dia, o fato preto que simboliza o fim do luto. E no terceiro dia, usei um fato queimado. Significa a queimadura que o semba e toda a música angolana fizeram na minha vida, a marca que ficou. Foi um show cultural mais do que musical.


Essa associação da moda e cultura com a música, faz parte do espectáculo?

Surge da mistura de dois artistas, eu e o estilista Tekassala. Trabalhamos juntos há alguns anos. Comecei sozinho mas ao longo da minha trajectória fui encontrado pessoas que me foram guiando e ensinado, como é o caso. As pessoas pensam que vestir é só meter uns trapos no corpo. Mas não. A roupa tem de ter um significado. A nossa forma de vestir tem de provocar uma emoção, um sentimento nos outros. São dois mundos que se complementam.

Recentemente esteve no Coliseu dos Recreios de Lisboa, em Portugal. Qual a sensação de ter uma sala cheia noutro país?

Uma semana antes do show os ingressos já estavam esgotados, mas isso não teve grande efeito em mim. Só senti aquela energia e emoção quando chegou ao pé de mim um português, que trabalha no Coliseu, e disse em frente ao pessoal da produção: “Eu trabalho há 20 anos no Coliseu e nunca vi uma enchente destas. Quem é o Yuri da Cunha?” Fiquei a rir. Apontaram para mim e ele disse: “O senhor desculpe, mas trouxe a África toda para aqui esta noite”. Deu-me uma emoção muito grande, porque senti que os angolanos, outros africanos e europeus com raízes em África, estão ligados com a nossa cultura.


Tem espectáculos agendados para Cabo Verde e Estados Unidos. Sente-se embaixador da música angolana?

Sinto que a minha música chega além-fronteiras, mas para me considerar embaixador faltam apoios institucionais. Fizemos um espectáculo com aquela dimensão em Portugal, mas é difícil repetir algo assim. É preciso um investimento muito grande, que não pode partir só dos artistas, da nossa boa vontade. É preciso dinheiro. O artista angolano é pobre. Nós somos pobres e temos muitas dificuldades. Lá fora, somos tratados como artistas. Aqui ainda há alguma dificuldade em perceber que os músicos são artistas.


E isso acontece porque razão?

Eu até compreendo porque estamos a renascer. Sei que é preciso deixar as coisas acontecerem devagar. Julgo que é importante que as pessoas percebam os artistas. O artista tem de ser compreendido e tem de ser livre. Senão tivermos liberdade não podemos expressar aquilo que realmente sentimos.


Como olha para a Angola de hoje? Quais os problemas que mais o afligem?

Educação e Saúde são os nossos maiores problemas. É onde se deve actuar primeiro. A base principal do homem é a educação. Todo o indivíduo tem de conhecer os seus direitos, tem de ir para a escola e ter uma educação em casa. Tem de conhecer a história dos seus antepassados. E sem saúde é impossível o resto.


Tem alguns projectos relacionados com a juventude. Porquê?

Tenho projectos na área da música para desincentivar a juventude que vai pelo caminho do consumo altíssimo de bebidas alcoólicas e drogas. Essa é minha luta. Tenho um projecto com música para manter a juventude ocupada e com a mente concentrada em coisas positivas. Não vamos salvar o país, mas podemos fazer bem a muitas crianças, futuros homens e mulheres deste país. Quero continuar a ter projectos de integração de jovens em salas de aulas e outros espaços para criarmos momentos de música para os jovens. Queremos prevenir e reabilitar, apoiar, trazer para o nosso lado.


A música tem esse poder?

A música distrai, no sentido de dar harmonia e conduzir-nos para um lugar correcto. Tem a capacidade, tal como o desporto, de trazer bem-estar à vida das pessoas. Quando um jovem se mete nas bebidas e drogas começa a perder-se. Quando der conta que precisa de ajuda é porque está num rumo errado, já será tarde demais. Nessa altura já perdeu muito tempo e vai seguir o rumo da bandidagem, vai roubar e matar. Não é isso que queremos para a sociedade.


De onde vem a sensibilidade para as preocupações sociais?

Eu nasci numa família pobre. Vivo numa família pobre até hoje. A minha situação de vida hoje em dia é melhor, claro. Não consigo ajudar todos, mas já consegui empregos para muitos jovens que estavam no mundo da delinquência.


Viveu algum desses problemas na própria pele?

Eu já fui consumidor activo de bebidas alcoólicas, apesar de não chegar a ser alcoólico. Tive um conselheiro, pai, amigo, camarada que foi em vida, Osvaldo Jesus Serra Van Dunem, que me mostrou o caminho e disse-me: “Tu tens duas opções cabe-te a ti escolher o rumo da tua vida”. E eu escolhi.


Começou a beber quando?

Comecei aos 20 anos e bebia muito. Acho que bebi para a minha vida toda. Pensei que estava na moda, “sou jovem então vou beber”, dizia eu. Depois achei que estava a afundar-me cada vez mais. Aos 25 anos decidi parar e comecei a ver que a minha vida começou a tomar um outro rumo. Hoje em dia, mais velhos do que eu chamam-me “cota” por ter atingido coisas que eles não conseguem.


Vive em Luanda?

Vivo em Luanda desde os dois anos, mas nasci no Kwanza Sul. Vivi primeiro no Prenda, depois no Cassenda e depois mudei para o Rocha Pinto, onde vivo até hoje. Apesar de não ter luz nem água, está meio “caminar”. Outro dia precisei de pedir um documento na Administração Pública e pediram-me a última factura da água e da luz. Eu pensei a rir: “Como é que eu faço isso? Eu nunca tive nem água, nem luz”. Mas é um bairro onde eu gosto de viver. Preciso de combustível para o gerador, gasto muito dinheiro nisso. Mas é como eu digo sempre “ondo haba kia”, que significa acredito que vai mudar. Já está a mudar.


Isso que conta está longe da ideia que o público tem da vida dos artistas...

Sim. Mas o público deve saber. Muita gente pensa que vivo muito bem, no luxo. Mas é mentira. Tudo o que tenho feito é uma luta muito grande. Claro que fazemos tudo por manter uma imagem. Porque o artista é a imagem. Tento deixar o lugar como artista preservado, se isso não existir acaba o “Yuri da Cunha”.


Sente orgulho na pessoa que é hoje?

Tenho orgulho na pessoa em que me transformei. Num instante estou a falar com um Ministro e, no outro, estou na rua a conversar com um zungueiro. E sinto-me bem nos dois sítios, consigo conversar com todos e perceber as ideias de cada um e respeitar. Há muitas coisas para fazer e corrigir na nossa sociedade, mas o importante é perceber o que cada um pensa e fazer a nossa parte.


Ajudar os outros é uma forma de retribuir aquilo que a vida lhe deu de bom?

Tento fazer a minha parte. Todos os anos organizo uma festa de fim de ano para as crianças desfavorecidas. É uma forma de retribuir aquilo que Deus me dá ao longo do ano todo: o meu trabalho, a minha saúde, a minha vida. Tenho de contribuir e dar continuidade. Porque o Diabo também tem os seus homens aqui, também tem os seus accionistas, aqueles que não querem ver as pessoas felizes.


É muito crente?

Sim. Nasci católico, não tenho uma religião específica, vou estando com a Igreja Universal, mas aquilo que me deixa feliz é o acreditar em Deus.


Como foi a sua infância?

Era um miúdo chato. Não parava quieto num sítio. Até hoje continuo assim. O meu pai não queria que eu fosse cantor, apesar de também ser músico. Ele sonhava outras coisas para mim. Naquela altura os músicos não ganhavam nada. O meu pai queria que eu fosse engenheiro, que trabalhasse numa grande empresa nacional, mas isso nunca se enquadrou comigo. Era um choque de opiniões e pensamentos.


Nunca sentiu necessidade de mais formação?

Acho que se o meu pai me tivesse apoiado na música, ao mesmo tempo eu teria estudado mais. Mas assim, cantar era o fruto proibido e eu fugia da escola para fazer música. Por isso, digo sempre que aquilo que os meus filhos quiserem fazer eu vou apoiar. Mas dentro de regras, e o estudar faz parte.


Na altura em que ganhou um concurso de música de rua aos seis anos, imaginava chegar onde chegou?

Todo o indivíduo tem um sonho. Eu queria alcançar uma posição no país e fui alcançado meta atrás de meta. Quando chego a uma, começo a sonhar com outra. Cada dia tenho um sonho diferente, quero algo melhor, não só para mim mas também para o meu país. Sou muito nacionalista. Primeiro os angolanos, mas não quer dizer que não precisemos dos outros. As sociedades precisam umas das outras. Penso no crescimento, na valorização, mas é preciso conhecimento e trabalhar muito para que as coisas aconteçam.

Teve uma situação engraçada com o Presidente da República de Angola quando era mais novo. Como aconteceu?

Era um miúdo muito assanhado. Quando tinha 15 anos participei numa festa com o Presidente. Cheguei ao pé dele e disse: “Camarada Presidente, eu moro no Rocha, canto, tenho um sonho: gostava de gravar um disco”. O Presidente ouviu e pediu ao assessor para encaminhar o assunto e resolveram a questão. Hoje sou adulto e é diferente. Ainda tendo esse espírito de criança dentro de mim, porque permito que ele continue vivo. O homem quando se acha muito adulto comete muitos erros. Um dia ainda vou querer relembrar este episódio com o Presidente.


Como é o contacto com os fãs? É muito assediado?

Gosto do contacto, sinto-me bem ao sentir o carinho do público. Mas por vezes, tenho de dizer a verdade, é muito cansativo. Ainda no outro dia, fui ao Miami Beach e, desde a porta de entrada até sentar-me à mesa demorei uma hora. As pessoas queriam falar, tirar fotografias. Por vezes, gostava que as pessoas fossem mais compreensivas. Quero ter o meu momento, apreciar os espectáculos. Compreendo os artistas que tratam menos bem os fãs, não consigo ser assim, mas não critico.


É um homem de família?

A minha família é a base de tudo, é o caboco, a estrutura da casa. Se não houver essa estrutura a casa cai, não é? A minha família completa aquilo que eu sou. Vivo maritalmente há sete anos, tenho duas filhas desse relacionamento, uma de 5 e outra de 3 anos. Ao todo tenho quatro filhos, três meninas e um rapaz. A mais nova canta as minhas músicas, dança como eu. O meu filho mais velho também é um dançarino, imita todos os toques que eu dou. No último show que fiz no Kilamba levei-o, para as pessoas verem que aquela minha música que diz “Esse saiu ao Pai dele” é inspirada na realidade.


Que mensagem gostava de passar para o povo angolano?

O país vai, aliás, já começou a dar os primeiros passos, e vai mudar ainda mais. Espero que os angolanos tenham fé, esperança, e acima de tudo que trabalhem muito. Vamos deixar o copo de lado, as desbundas e começar a acreditar no nosso valor como angolanos e trabalhar. Gostava de presenciar em Angola o aparecimento de escolas de música, de dança, de teatro. Gostava de cantar em melhores espaços, para que as pessoas cheguem e vejam shows de qualidade.


Fora do palco como se sente?

Junto dos amigos sinto-me simplesmente o rapaz ali do bairro.

Aposta na continuidade

Yuri da Cunha diz “não querer fazer músicas que daqui a dois meses já não sejam ouvidas”. A aposta do cantor é na continuidade do trabalho que faz para o público. Hoje ouvimos músicas de ontem do Bonga, Tetalando, Artur Nunes, entre outros. Foram músicas que não foram feitas para comércio. Eram feitas do fundo da alma e do coração para que as pessoas compreendessem o que eles estavam a cantar. O angolano tem de começar a perceber que música não é só aquela que toca na discoteca. Tem de comprar e compreender os conteúdos das mesmas, entender a mensagem do artista. Também fazemos um trabalho de intervenção importante”, explica.

Quanto a projectos, o músico lançou recentemente o álbum Kuma Kua Kié, que foi um sucesso mas não quer ficar por aí. “Tenho um projecto de resgates musicais que pretendo lançar no próximo ano. Uma compilação de músicas angolanas do passado muito conhecidas, que foram cantadas por diversos artistas e serão agora interpretadas por mim. Pretendo ir buscar a essência, o conteúdo da música, saber como e onde nasce, compreender a raiz e explicação da música. Servirá para darmos aos nossos filhos uma lição da cultura e da história da música e do povo angolano”.

 

Perfil:

Nome: Yuri da Cunha
Idade: 28 anos  
(13 Setembro 1980)
Filhos: Quatro
Restaurante: Mangaxe, adepto de um bom funge
Discoteca: Dom Quixote, “Onde a noite me leva, eu vou”, diz
Música: DJ Chuchu, 
DJ João Lopes, Malvado, DJ Kadu, 
DJ Lua, DJ Callas, Darci
Cidade: Luanda 
e depois Maputo 
e Rio de Janeiro
 
Fonte: Opais

Rádio Jet7 Angola

Vídeos Sugeridos

Procurar Vídeo