Waldemar Bastos animou Centro Cultural de Belém em Lisboa

Waldemar Bastos animou Centro Cultural de Belém em Lisboa

 

Waldemar Bastos ofereceu-se de presente a Lisboa, em Portugal, a noite passada, no Centro Cultural de Belém. No final deste memorável show ficou apenas um desejo: o de que o regresso aos palcos portugueses não tarde.
 

Pouco passava nas nove da noite quando as luzes do Centro Cultural de Belém (CCB) se apagaram e Aline Frazão, artista convidada para abrir o show, subiu ao palco. Somente de guitarra na mão, Aline apresentou-se despida de pretensiosismos e provou em Lisboa que a pureza da sua música e a sua voz cristalina eram mais que suficientes para trazer Luanda a uma das mais belas salas de espetáculos da capital portuguesa.
 

Foi ao som de "Nzaji", "Desassossego", "O que ela quer", "Primeiro Mundo", "A última bossa", "Poema em sol poente" e "Tanto" que a cantora fez uma pequena viagem sobre os seus trabalhos anteriores, permitiu espreitar o novo álbum, “Movimento”, e aqueceu a sala para a entrada de Waldemar, uma das vozes incontornáveis do panorama musical angolano.
 

Já a Orquestra Gulbenkian havia tomado o seu lugar, a banda de Waldemar Bastos seguiu-lhe numa dança coordenada ao milímetro, quando por fim entrou o senhor da noite, o homem que sempre cantou Angola e que agora se vê reconhecido não só pelos seus irmãos de bandeira, como pelo mundo. Waldemar Bastos tomou o lugar dianteiro do palco, tal qual peça fundamental numa enorme engrenagem bem polida. Com um sorriso nos lábios e calma aparente cumprimentou os presentes, estava em casa.
 

"M’Ibiri M’Ibiri" foi o tema escolhido para dar início a esta noite. A imponente projecção de voz de Waldemar Bastos encheu a sala envolta num silencio respeitador. Os acordes da orquestra, que não tardaram a fazer-se ouvir, anteviam uma noite em que os temas que tão bem conhecemos seriam revestidos de uma elegância renovada. Estava lançado o mote, e ninguém lhe ficou indiferente, nem mesmo o próprio Waldemar, cuja voz pejada de emoção quase o atraiçoava.
 

Experiente, o músico controlou as emoções, pegou na guitarra e cantou "Renascence". "Quem semeia amor colhe fruta madura, bem madurinha (...) as mais lindas flores do mundo que virá". Foi sobre o sentimento de esperança no amanhã que "Renascence" marcou o tom para o tema que se seguia, um hino para a paz em todo o mundo, acredita Waldemar, a música "Sofrimento".
 

"Para quê tanta dor, para quê tanto ódio, se somos irmãos? (...) A nossa terra está a sofrer demais" cantava Waldemar em palco, num lamento que, mais do que recordar os tempos difíceis da guerra, é um testemunho do caminho percorrido por Angola e pelo seu povo. Este hino de paz é de quem olha para as cicatrizes, mas segura bem alto o estandarte do futuro, de quem reconhece que há caminho para percorrer, mas também sabe que está à altura de o fazer. "Sofrimento" foi um dos momentos altos da noite, pejado de sentimento partilhado entre Waldemar e o público.
 

"Viva a paz", gritou o músico antes de passar ao tema "Aurora". Tal como o nome indica, "Aurora" é uma música em crescendo, daquelas que impelem à ação, que elevam o espírito. Aqui, os violinos da Orquestra Gulbenkian imperaram, sustentando a voz possante de Waldemar.  
 

Com "Mungueno" e "Sabores" irrompeu a festa no Centro Cultural de Belém. O ritmo acelerou, e enquanto Waldemar Bastos dava uns tímidos passinhos de dança em palco, o público acompanhava batendo palmas. Cantavam-se as mais belas coisas de Angola: da comida, aos lugares, sem esquecer a cultura popular.
 

A leveza deste momento permitiu a alguns, mais afoitos, ao género de "discos pedidos", requisitarem algumas músicas que esperavam ouvir há muito. Temiam que o fim estivesse parto, mas o facto é que o show ainda ia a meio. No total, Waldemar Bastos brindou Lisboa com duas horas de concerto, e o público pedia mais.
 

A primeira parte do concerto, em que Waldemar se fez acompanhar pela Orquestra Gulbenkian, terminou com o tema "Velha Xica". Neste regresso à infância, aos dias em que os mais novos questionavam o porquê da guerra, Waldemar entregou ao público o segundo refrão, afastando-se do microfone para ouvir uma sala muito bem composta cantar um dos seus temas mais icónicos. No fim, quando Waldemar cantou, ao estilo de anúncio, uma Angola Independente, tomando posse de todo o seu poder de projecção de voz, houve quem não resistisse. O músico foi aplaudido de pé por um público a si rendido.
 

E porque uma alegria nunca vem só, foi o tema "Muxima" que deu início à segunda parte deste show, em que Waldemar foi acompanhado pela sua banda, composta por músicos de todas as latitudes. O cantor não quis deixar de referir e elogiar esta multiculturalidade, acrescentando que "todos juntos formamos um mundo melhor".
 

"Muxima" arrancou aplausos ao primeiro acorde. Waldemar começou por cantar acompanhado unicamente pela sua guitarra, como se partilhasse com o público um murmúrio, intensificando o cariz intimista deste concerto. O público estava claramente dividido entre o respeito silencioso e a vontade de acompanhar Waldemar neste lamento. No entanto, o cantor decidiu entregar a música às pessoas, agindo tal qual maestro de uma orquestra de centenas de vozes. Desta vez, foi quem estava fora do palco que protagonizou um dos momentos mais emocionantes da noite.
 

Seguiram-se os temas “Teresa Ana”, com um fabuloso trabalho de dinâmicas, "Pôr do Sol", mais um tributo a Angola, e "Colonial", onde o semba reinou. Aqui Waldemar desafiou os presentes a levantarem-se da cadeira e fazer a festa. Poucos se atreveram, mas muitos colocaram a teste a resistências das cadeiras onde estavam sentados, movendo-se ao ritmo da música.
 

"Humbi Humbi" foi o tema que precedeu a um dos momentos caricatos da noite em que Waldemar Bastos parou para afinar a guitarra. "Eu não vou tocar música desafinada", justificou o cantor arrancando gargalhadas da plateia. Em "Humbi Humbi", Waldemar e a sua banda foram acompanhados por uma violoncelista da Orquestra Gulbenkian. Juntos convidaram os presentes de novo à calma e à serenidade.
 

Em seguida tocou-se "N’Duva" e, finalmente, um dos pedidos mais frequentes da noite por parte da plateia: "Rainha Ginga". O ritmo quente levou os presentes de volta aos cheiros, cores e à alegria de Angola.
 

"Perto e Longe" foi a música que ditou o início do fim deste espetáculo, tendo Waldemar voltado a palco, no encore, para cantar apenas mais uma música: Kuribota.
 

Certos de que chegara ao fim, os presentes quiseram devolver a Waldemar Bastos o tanto que ele lhes havia dado naquelas duas horas. Waldemar Bastos foi aplaudido de pé por uma plateia que se emocionou, dançou e cantou com ele, deixando premente uma mensagem: este não era o concerto que faltava a Waldemar Bastos, este era o concerto que Waldemar Bastos merecia: uma noite grandiosa para Lisboa, para portugueses e angolanos e, acima de tudo, para o homem que nunca desistiu de cantar Angola.

 

Fonte: Sapo Banda

Rádio Jet7 Angola

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