Trajectória do músico angolano «Pedrito»

Autor de inúmeros sucessos que marcaram momentos cruciais da história da Música Popular Angolana, Pedrito revelou-se um compositor de tendência e expressividade romântica, e o prestígio das suas canções surge sempre associado à interpretação de temas musicais que elogiam as virtudes da mulher, realçam o sentimento humano, resvalando para as preocupações de natureza social e política.

 

Embora a totalidade das línguas nacionais ocupe um espaço de grande magnitude simbólica na origem, formação e contemporaneidade da Música Popular Angolana, o uso da língua portuguesa foi um dos recursos de expressão artística de importantes  compositores, ao longo da história das canções angolanas.


Pedrito, para além de dominar com perfeição o quimbundo, reutilizou com enorme sucesso as possibilidades criativas da língua portuguesa, ao longo do processo de criação da sua obra, compondo canções que revelam a intimidade passional, em “Leonor”, às reflexões de natureza existencial, em  “Farrapo triste”- uma canção de Zé do Pau- passando pela valorização da tradição, em “Banda mulundu”: Banda mulundu/ Ué mamã dilenu/ muetu kene henda/ Uá ngixisa ngi ubeka/ Tala monami ió diló. (canção tradicional que relata o comportamento de uma mãe irresponsável que abandona o lar e o filho, privilegiando a rua e o entretenimento).


Pedrito desempenhou um importante papel no período áureo da canção política (1974-1976), tendo interpretado, de forma magistral, uma das canções mais representativas em homenagem ao Comandante Gika, herói do MPLA morto em Cabinda: Partiste comandante/ para as fileiras da glória/ deixaste escrito o teu nome/ na história mártir de Angola// Na sombra da nossa bandeira/no coração dos oprimidos/ serás sempre lembrado/ saudoso comandante// Quando os ventos da opressão/nos quiserem um dia sufocar/teu nome levado em memória/ será a força que nos levará à vitória.


Filho de Sebastião Manuel e de Beatriz Adão, José Manuel Pedrinho nasceu na sanzala de Kingongo, Icolo e Bengo, no dia 1 de Outubro de 1954, e  iniciou a sua estreia musical no Ngola Cine, no dia 24 de Dezembro de 1969, numa das sessões do “Dia do Trabalhador”, espectáculo acompanhamento pelo agrupamento Ngola Jazz.


Pedrito pertenceu ao coro da Igreja São Domingos, em 1973, altura em que foi convidado a integrar o célebre trio “Gambuzinos”, em substituição da guitarra de Filipe Vieira Lopes, com Dualy Jair (guitarra), Freitas Sebastião (pandeireta).

 

Pedrito diz ter sido influenciado pelos cantores brasileiros Lindomar Castilho e Agnaldo Timóteo, e acusa proximidade estética com o cantor angolano Luís Visconde.Pedrito efectuou a sua primeira digressão artística internacional, em 1982, por seis países do leste da Europa e Portugal, com o grupo musical “Jovens do Prenda”.

 

Em Janeiro de 1983, deslocou-se ao Brasil com o grupo “Semba Tropical”, integrado no projecto “Canto Livre de Angola”.  Ainda em 1982, viaja a Londres onde participa em dois espectáculos, que resultaram na gravação do LP “Semba Tropical in London”, um projecto patrocinado pelo empresário e músico moçambicano Abdul Zobaida.

 

Em 1988, volta a fazer uma digressão ainda com os “Jovens do Prenda”,  percorrendo Portugal, França, Inglaterra e Escócia. Neste último país participa no grande espectáculo de solidariedade a favor da libertação de Nelson Mandela.


Pedrito venceu o  primeiro lugar do “Top dos mais queridos” no dia cinco de Outubro de 1982, realizado pela Rádio Nacional de Angola,  repetindo o feito nas edições de 1984 e 1986, tendo conquistado duas vezes o segundo lugar. As várias premiações no “Top dos mais queridos” valeram-lhe a distinção com três diplomas de mérito, no dia cinco de Outubro de 2012, num acto que assinalou a homenagem aos vencedores do “Top dos mais queridos” ao longo dos trinta anos de existência.


Discografia

Pedrito gravou “Mãe kuebi”, seu primeiro single, em 1971, com a etiqueta Telectra, e um ano depois surgiu o sucesso “Farrapo Triste”.  Em 1974, com o mesmo selo, sugiram as canções: “Leonor”, e “Cântico à Bíblia”. No mesmo ano seguiram-se as canções: “Quando o amor partiu”, “Nga lenga cubata”, “Raio de amor”, “Mãe África, “Mazi” e “Angola mártir”: Esta Angola é grande/ e caberia para todos nós/ fazê-la maior no progresso e no amor/ mas cada vez que matam/ aumentam o rancor/ desta pobre gente/ que tanto escravizaram/ E muangolé tubangana até tua fuile... A canção “Angola mártir” introduziu o compositor no universo da canção política, sueguiram-se depois as canções “Militante” e “Senhor Director”, dois temas com acentuado cariz satírico.


O single Comandante Jika, um poema escrito em parceria com o seu companheiro Rufino Cristóvão,  que inclui a recolha da canção tradicional, “Banda mulundu”, surgiu em 1976, numa edição do cantor com a etiqueta “Nzaji”, foi acompanhado pelos Kiezos, na época de Marito Arcanjo (viola solo), Zeca (viola baixo), Gino (viola ritmo), Botto Trindade (contra ritmo), Julinho (tumbas), Juventino (tarolas), e Adolfo Coelho (dikanza). O disco “Aleluia”, o primeiro CD da sua carreira, surgiu em 1994, gravado em Lisboa, e inclui as canções: “Nga Kinga”, “Aleluia” “Vaso quebrado”, “Nzala ya Tula”, e “Mulher mumuíla”.
 

Em 2003 Pedrito gravou o CD “Avó Béa”, disco produzido e editado em Angola pelas edições “Pedrinho Produções”, com arranjos musicais de Moreira Filho, Venâncio, Mikeias, Marito Furtado e Chico Santos, da Banda Maravilha, e participação da Banda Movimento. “Avó Béa” contou ainda com a colaboração dos cubanos: Pinely, Emílio, Efraím, Robertico, Nelza e Lourdes.  Captado nos estúdios da Rádio Nacional de Angola e masterizado em Havana, “Avó Béa” retoma alguns sucessos, e alinha dez faixas musicais: “Massoxi mami”, “Avó Béa”, “Nzala io nene, medley”, “Raio de amor”, “Canarinho”, “Leonor”, “Senhor director”, “Muhatu kiá funda” e “Cântico à paz”. A discografia do compositor conta ainda com o  CD “Mensagens de amor”, introduzido no mercado em Dezembro de 2008.

 

Fonte: Jornal de Angola

Rádio Jet7 Angola

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