Sandra Cordeiro a voz do afro-jazz angolano

Sandra Cordeiro é uma das vozes femininas mais representativas do restrito universo do afro-jazz, e tem vindo a construir a sua carreira com passos seguros, desde o lançamento do seu CD de estreia, “Tata Zambi”. Nesta entrevista ao Jornal de Angola, a cantora e compositora fala, entre outras questões, do seu novo disco, editado pela “Dabanda”, do ensino da música, e dos nomes que despontam, fora dos géneros que privilegiam o ritmo.

Jornal de Angola - Como explica a sua tendência para o jazz e géneros vizinhos, sobretudo para uma jovem da sua idade que, normalmente, devia ter predilecção pela música comercial de consumo imediato?


 Sandra Cordeiro -
Acredito que a minha tendência para o jazz se deve à intervenção divina. Deus deu-me a inclinação para este tipo de música. Outro aspecto relaciona-se com o ambiente em que cresci. Absorvi desde tenra idade os gostos musicais do meu pai, António Cordeiro Neto. Elton John, Bobby MacFerrin, Frank Sinatra, Mozart, Nat King Cole, Bach, e Beethoven eram presenças musicais, reiteradas, em minha casa. Além dos clássicos, os musicais, a interpretação, o canto e a dança que via nos filmes fascinavam-me. Desde pequena sempre gostei e achava fantástico ouvir esse tipo de música, fiquei apaixonada e afastei-me, naturalmente, das tendências musicais imediatistas.

JA - Sempre teve a decisão resoluta de ser cantora, ou os festivais em que participou constituíram a mola impulsionadora para a prossecução de uma carreira musical?
 

SC - Nem sempre quis ser cantora, o que aconteceu foi uma paixão surpreendente para mim. Antigamente era dançarina, aliás, sempre fui uma grande dançarina. Fiz parte dos grupos de dança tradicionais na escola primária Vasco da Gama, e estava sempre a cantarolar. Gostava de dançar e imitar o que via nos filmes indianos, clássicos, e musicais. Cantava e dançava na sala de aula, subia às carteiras com os meus colegas, era fantástico. Dava mais importância à dança. Comecei a despertar para o canto aos 12 anos, a convite de uma amiga do bairro, para pertencer ao grupo coral da Igreja do Carmo. Fui-me destacando em relação aos outros e passei de corista a solista. Cantava o evangelho no altar, e foi aí que senti a paixão e o amor pleno e incontestável pela arte de cantar, pois a minha voz entoava e ecoava na igreja toda, alimentando e dando paz ao meu espírito. Aí decidi que queria ser uma estrela. Depois foi a minha colagem aos discos da Madonna, Michael Jackson, N’Sync, Britney Spears. Agora, os festivais em que participei constituíram de facto uma fonte motivacional e impulsionadora, para continuar a trabalhar desenvolvendo e melhorando.

JA - Em que estado se encontra o afro-jazz angolano, ou seja, acha que os representantes desta tendência musical dispensam acções de formação?

SC - Está em crescimento. A verdade é que ainda somos muito poucos num universo dominado por géneros de consumo imediato que privilegiam o ritmo, mas acredito que esse quadro vai mudar. Desde que lancei o meu primeiro álbum “Tata Nzambi”, em 2008, têm surgido muitos cantores com futuro que militam nesta tendência musical.

JA - Volvidos quatro anos depois da edição do CD “Tata Zambi”, que avaliação faz da recepção do seu primeiro trabalho junto do público?

SC - Sem falsas modéstias, faço uma avaliação positiva. Para uma edição de estreia superou as minhas expectativas. A verdade é que o CD tem tocado até hoje e as pessoas abordam-me na rua, falam das suas músicas preferidas e dão-me muita força. Recebi vários prémios: Top rádio Luanda, prémio revelação voz feminina, em 2009, inédito no ano, prémio criatividade pelo disco, fiz muitos espectáculos e consegui levar o meu nome e trabalho a França e África do Sul. Repito, a avaliação só pode ser positiva.

JA - Sabemos que tem experimentado a composição. Está mais cómoda a cantar as suas canções, ou prefere interpretar propostas de outros autores?

SC - Gosto muito de compor, sobretudo quando abordo o amor, aquilo que me vem da alma, ou seja, ocorrências que vivo, sinto e vejo, mas também de interpretar outras propostas musicais. No entanto, há três aspectos de suma importância para mim que devem estar conjugados: a mensagem, a musicalidade e o arranjo. Procuro estar confortável tanto como compositora, como intérprete das músicas que me sugerem. Busco, acima de tudo, a versatilidade, novos desafios, e superar obstáculos. Cantando somente músicas escritas por mim, existe o risco de estar na zona de conforto, e das músicas parecerem sempre iguais, por essa razão procuro também interpretar outros autores.

JA - Em 2011 participou na 12ª edição do Cape Town Jazz Festival. A experiência, em termos de prestígio da sua carreira musical, foi gratificante?

SC - Foi muito gratificante. A minha participação no festival de Cape Town deu- me uma grande notabilidade, visibilidade e respeito. O público começou a olhar para mim de forma diferente, e senti que o meu trabalho foi recebido com satisfação.

JA - Já se pode falar de qualidade em relação à resposta dos instrumentistas angolanos que militam no universo afro-jazz?

SC - Infelizmente ainda não podemos falar de qualidade, na verdadeira acepção do termo. Na minha modesta opinião são poucos, pouquíssimos, os instrumentistas angolanos que militam no universo do afro-jazz. As razões são várias: falta de escolas, conservatórios e formação superior no domínio da música. Muitos dos nossos músicos precisam de aprender mais, estudar música, existe muita limitação. Torna-se difícil mudar o quadro actual, sem os mecanismos próprios para o efeito. Nem todos podem ser autodidactas.

JA - “Luandense” é o título do seu novo álbum. Tem composições suas, gostou do resultado final, há convidados estrangeiros?

SC - Este álbum tem cinco composições minhas, e fiz um dueto com o cantor e baterista congolês Júnior Kissangwa, no tema “Esquece”, que cantou em lingala, e a canção ficou muito linda. O CD teve três produtores diferentes: Nino Jazz, angolano, Jimmy Dudlu, sul-africano, e o Paulo Calasans, brasileiro. Trabalhei com os angolanos: Dalú Roger, Hélio Cruz, Isaú Baptista, e o Yami. De notar que o Paulo Calasans trabalha com grandes nomes da Música Popular Brasileira, sobretudo o Djavan e Gal Costa. Tive o privilégio de trabalhar com os brasileiros Carlinhos Bala (bateria), Torcuato Mariano (guitarra e violão), Arthur Maia (baixo). São 11 faixas em géneros diversos, estou muito feliz e ansiosa por ver o CD no mercado, gostei muito do resultado.

JA - Na perspetiva de reutilização do seu timbre vocal, está disponível para interpretar e estilizar clássicos da Música Popular Angolana?

SC - Estou sempre disponível quando aparecem projectos dessa natureza. Mostro o meu interesse e entusiasmo, porque é retroceder no tempo. Interpretar clássicos é sempre um processo de aprendizagem, sobretudo em línguas nacionais. São canções que fazem parte da nossa história cultural e felizmente já fiz versões de clássicos da Música Popular Angolana.

JA - Quais são os músicos angolanos que melhor respondem à estética da sua musicalidade, e com os quais gosta de trabalhar?

SC - Antes de mais, quero dar os parabéns aos meus colegas pelo contributo que têm dado ao desenvolvimento da música angolana. Filipe Mukenga, Totó, Dodó Miranda, Afrikanitha, Aline Frazão, Jack Kanga, Paulo Matomina, Toty, e Paulo Flores, são cantores que respondem à estética da minha musicalidade.

 

Fonte: Jornal de Angola

Rádio Jet7 Angola

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