Rapper Flagelo Urbano: “C4 Pedro mostrou que ainda é o escravo da casa grande”

Rapper Flagelo Urbano: “C4 Pedro mostrou que ainda é o escravo da casa grande”

A polémica em torno do videoclip “Azar da Belita”, de C4 Pedro, continua a dar que falar nas redes sociais. Desta vez, quem decidiu falar sobre a decisão de C4 Pedro eliminar o videoclip do seu canal do Youtube, é o rapper e produtor musical angolano, Flagelo Urbano.

De acordo com Flagelo Urbano, se por um lado C4 Pedro demonstrou temor e consideração aos portugueses ao retirar o videoclip (depois de ter sido pressionado em Portugal), deixou claro que menosprezou e inclusive ignorou os apelos feitos muito antes em Angola, com relação a mensagem machista, misógina e instrumentalizada da mulher que o vídeo transmite.

Flagelo Urbano foi mais além e inclusive disse que a atitude de C4 Pedro "mostrou que ainda é o escravo da casa grande, que obedece aos comandos de seu mestre ao invés de ouvir os apelos de seus irmãos."

Confira na íntegra o texto de Flagelo Urbano:

“O Complexo de colonizado

Lembro-me que quando o "Azar da Belita" foi lançado gerou muita indignação por parte de alguns sectores da sociedade, com maior realce para o das manas que se debatem todos os dias para que a visão estupidificada, machista, misógina e instrumentalizada da mulher seja derrubada.

Para apenas situar os manos e manas, "Azar da Belita", é uma música de C4 Pedro, artista nacional, que tem como substracto a redução da mulher num mero objecto de desejo, e conta com o apoio incondicional nos coros de Edmazia, mulher e igualmente artista nacional. Como o próprio nome diz, a Belita, coitada, teve o azar de cruzar com C4 Pedro, também conhecido como o "Rei da coloca", numa dessas noites, numa festa ou discoteca e pagou o preço de ser simplesmente mulher.

Não percebo como um artista que devia usar a sua música para educar e formar as pessoas faz o processo inverso, optando por estupidificar e imbecilizar gratuitamente a mulher, como se ele próprio não tivesse mulheres na família. É tão triste e ao mesmo tempo engraçado, embora de engraçado não tenha nada, que uma mulher se predisponha a fazer um coro que a reduza igualmente num zumbi, numa qualquer. Mas os nossos artistas sabem mesmo o que escrevem e cantam?

Individualidades da nossa sociedade com maior realce para as Jornalistas Aoanaí D’Alva, Mel Gamboa e Carla Pena, defensores dos direitos humanos como Lúcia da Silveira, pessoas comuns mostraram a sua indignação em relação ao conteúdo de tal música e nada aconteceu. Isso mesmo, nada aconteceu. Muitos inclusive vieram em defesa do Rei da coloca. Como diz e muito bem o mano Isidro Fortunato na sua publicação sobre o assunto, foram todos ignorados com sucesso, e a vida seguiu o seu curso natural, até que o antigo colonizador veio à senzala e condenou veementemente a música em análise.

E então, fez-se luz! C4 Pedro desce do alto da sua arrogância e faz um pedido oficial de desculpas e decide, dada a repercussão desse assunto na “metrópole”, retirar do youtube o videoclip da música.

What? Sim, isso mesmo. As nossas manas e manos muangurras não merecem o mesmo respeito, dignidade e consideração que aquelas e aqueles que vieram posteriormente à Senzala condenar a música. Não são detentores de valores morais suficientes para reprovar uma conduta. E sabem porquê? É simples, confundimos descolonização e independência. É o que sempre digo, falta descolonizarmos o nosso pensamento, nunca houve descolonização nenhuma, houve sim atribuição da independência.

Só tem razão a opinião do antigo opressor, só tem razão o antigo colonizador. Quando a educação não é para libertar as pessoas, o sonho do oprimido será sempre ser como o opressor. C4 Pedro mostrou que ainda é o escravo da casa grande, que obedece aos comandos de seu mestre ao invés de ouvir os apelos de seus irmãos. Na minha opinião a retirada do vídeo do Youtube e o pedido de desculpas seriam boas acções se não pecassem por virem tardiamente. Azar da belita!”

Fonte: Jet7 Angola

Rádio Jet7 Angola

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