Pai Grande o Poeta: «Aqui patrocínio é do tipo, vou usar esse homem para ganhar mais»

Pai Grande o Poeta: «Aqui patrocínio é do tipo, vou usar esse homem para ganhar mais»

A equipa do Portal Jet7 Angola esteve no bairro Katambor, em Luanda, para entrevistar o rapper angolano "Pai Grande o Poeta", e abordar aspectos sobre a sua carreira musical e conhecer melhor o estilo de música que faz.

 

Acompanhe a entrevista em exclusivo:

 

Jet7 Angola - Desde já, agradecemos a tua disponibilidade e o tempo dispensado nesta entrevista.

 
Pai Grande o Poeta - Eu é que agradeço o convite.

Jet7 Angola - Fala-nos um pouco do teu início de carreira, foi difícil?

Pai Grande o Poeta - Não digo que foi difícil, assim como todo mundo, eu também comecei do zero e nem considero isso carreira, vocês é que chamam assim, porque se fosse eu não estaria nas condições em que me encontro, teria grandes carros e casas mas contínuo a andar à pé, mas enfim. Estou onde estou, pelo menos consegui lançar os meus discos e não desisti do estilo que faço, não digo que está como eu gostaria, mas epá agora já me contentei que Rap é mesmo assim e estou a me virar.

Jet7 Angola - Porquê Pai Grande o Poeta e não outro nome que levasse Mc por exemplo, porquê decidiste fazer diferente?

Pai Grande o Poeta - Eu acho que já falei isso numa outra entrevista, se vires as nenês que me viram crescer e agora estão moças, só me chamam "Zinho" (tom de brincadeira), me chamavam Paizinho porque eu tenho um xará, então eu era já o Pai pequeno, pra não inventar bué de nomes de heróis, até porque já sou adulto, tenho bigodes e barba, preferi abandonar o Zinho e tornar-me no Grande.

Jet7 Angola - O facto de viveres no Katambor, influencia na forma como escreves as tuas letras?

Pai Grande o Poeta - Influencia, porque tu acabas por escrever a tua realidade, as pessoas com quem tu lidas e a vida que estás a viver. Não vou inventar que vivo num lugar onde tem paredes vidradas quando na realidade é totalmente o oposto. Então Katambor é sim minha fonte de inspiração.

Jet7 Angola - O Hip-hop e principalmente o estilo underground tem a missão de mudar a consciência das pessoas, sentes que a tua música cumpre com este papel?

Pai Grande o Poeta - É assim, eu só canto porque sei mesmo cantar e porque gosto, canto o que me vem na mente, não porque quero que as pessoas façam o que digo. Por exemplo, se me dá no “stalo” de cantar sobre um “madjé” que entrou na minha casa, abriu a arca e tirou uma cerveja, eu vou cantar, agora as pessoas é que sabem se estou a cantar bem ou mal, se acham que estou a cantar mal criticam, se acham que estou a cantar bem me ajudam.

Jet7 Angola – Falando em ajuda, sentes que faltam patrocínios?

Pai Grande o Poeta - Aqui patrocínio também é tudo fachada, é do tipo “vou usar esse homem para depois ganhar mais com ele”. Por isso é que eu faço tudo sozinho, desde a capa, mistura, publicidade e o resto e não é por orgulho, pelo menos assim consigo fazer as minhas músicas do meu jeito e as minhas ideias permanecem. Os patrocínios que aparecem retiram a tua originalidade e na música o mais importante é ser você mesmo.

Jet7 Angola – Sente-se que o estilo Hip-hop underground ainda tem sido marginalizado pela comunicação social, achas que a tua música também sofre este tipo de discriminação?

Pai Grande o Poeta - Nós aqui temos muito preconceito. Como eu canto o que vivo sou discriminado, por viver no Katambor e não fazer a faculdade fora também. Dão mais valor àqueles que vêm de fora, porque as vezes a pessoa que está na rádio também estudou fora, então se puxam entre eles, e eu não sou o único nessa situação.
 

Por outro lado, as pessoas associam o under com a política, under é só um estilo de música não dançante que está mais preocupado com a mensagem, eu não entendo nada de política e não é por medo é que não é mesmo o meu ramo e aqui a mídia é só saber que você é under e nem quer mais ouvir a música e barram-te logo de primeira.

Jet7 Angola – Também usas as redes sociais para a divulgação e promoção do teu trabalho?

Pai Grande o Poeta - Pra ser sincero, é agora que vocês estão a vir com essa de internet, porque antes era mesmo andar com os discos e entregar nas mãos dos Djs e dos vendedores. Hoje você lança, as pessoas dizem não bateu, mas depois de um tempo você ouve “esses mambos que vocês chamam de X downloads”, mas você não ganha nem um tostão daquilo, esses vossos mambos ajudam a espalhar a música mas não ganhamos mais nada para além da publicidade.

Jet7 Angola – Tem-se visto nos últimos tempos a chamada fusão de estilos, principalmente por parte de alguns rappers, também podemos  esperar isso do Pai Grande?


 

Pai Grande o Poeta - Nunca na minha vida, eu posso chamar um sembista ou um kudurista pra vir cantar no meu rap mas ele vai ter de cantar num bit de rap e acompanhar o meu rap com o estilo dele. É que esses rappers estão a se bater muito, eles não estão a cantar rap no beat de kuduro, estão a querer cantar kuduro no beat de kuduro. Eu nunca na minha vida, desculpa-me lá.

Jet7 Angola – Podemos facilmente ver que o estilo  underground representado pelo Pai Grande o Poeta já tem uma grande aceitação no mercado, o que verificou-se muito recentemente na tua participação no show do MCK e que nos leva a fazer a seguinte pergunta: Para quando o show do Pai Grande o Poeta?

Pai Grande o Poeta - Mas qual é a motivação que o povo está a me dar para eu fazer um espetáculo?! Se os discos para vender eu é que batalho e nem vendo grande coisa, no show dos outros eu só apareço para não falarem que não estou a fazer nada. Como eu sou do bairro (gueto), eles me pagam a metade da metade que pagam aos outros. Um espetáculo nessa altura é só para gastar dinheiro, porque ainda não tenho motivação, já sofro muito pra lançar discos.

Jet7 Angola – Dizes que não recebes o mesmo “cachet” que os outros quando és convidado para um espetáculo. Sentes-te discriminado pelos teus colegas?

Pai Grande o Poeta - Sinto! Quando eles vêm aqui sabem que sou do bairro (gueto), depois olham para as condições da casa e não encontram nenhum carro estacionado aí fora, diminuem o “cachet” até a metade da metade que pagam nos outros MCs.

Jet7 Angola – Qual é o rapper que mais admiras?

Pai Grande o Poeta - Eu sou cantor e não posso falar que gosto do fulano, porque quando o outro ouvir vai pensar:  "falou do fulano e não falou de mim", então para mim quem canta bem canta bem, eu curto toda boa música, não posso falar de uma pessoa se não vão me levar a mal.

Jet7 Angola – Que mensagem deixas aos teus fãs?

Pai Grande o Poeta - Aos meus fãs eu peço que comprem os discos quando ouvirem que vou lançar, não esperem ver-me na televisão porque é muito caro para nós unders, chega a ser mais caro que lançar um disco, somos under e não nos aceitam, então, peço que me ajudem comprando os discos.

Fonte: Jet7 Angola

 

Rádio Jet7 Angola

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