Nato P3 “No Kuduro é o contrário, quem faz sucesso cria inimigos”

Nato P3 “No Kuduro é o contrário, quem faz sucesso cria inimigos”

Em entrevista ao Jet7 Angola, o produtor musical e kudurista angolano, Nato P3, autor de sucessos como “Mamadi” dos Lambas e “Ladjum” de Gilson Cores, abordou várias questões sobre a sua carreira musical, o estado actual do kuduro e revelou os seus planos para o futuro.

Acompanhe a entrevista:

Jet7 Angola: Quem é o Nato P3, também conhecido como “Dor de Cabeça”, e qual é o significado destes nomes?

Nato P3: Nato P3 é um jovem estudante, trabalhador e chefe de família. Quanto ao nome Nato P3, bem… Nato é o diminutivo do meu primeiro nome que é Renato, P é a abreviação de poderoso, e 3 é o número da camisola. Os meus amigos e os meus familiares habituaram-se ao nome, por isso foi ficando. Em 1997, quando entrei para a música mais propriamente no Estilo Rap, não troquei de nome, ficou mesmo Nato P3.

Dor D Cabeça é o outro nome pelo qual sou também conhecido; em 2003 senti a necessidade de tornar-me independente quanto a produção musical e tive a curiosidade de conhecer o FL Studio 3. Naquela altura os instrumentais eram escassos tanto de Rap como de Kuduro, mas graças ao meu primo Tafinha, também conhecido como Dji Tafinha, fiz o meu primeiro rap intitulado “ De tudo um pouco”. Ele ofereceu-me naquele mesmo ano, um instrumental de Rap, produção de sua autoria permitindo assim a minha estreia. Como estudávamos distante, dificilmente nos encontrávamos, era mais durante as férias. Então comecei a produzir em casa ainda como amador e fui evoluindo nesta área até que os meus amigos apelidaram-me de “Dor D Cabeça”, devido a forma brutal como fazia os instrumentais de Kuduro.

Naquela altura existiam várias músicas de Kuduro e Rap com os mesmos instrumentais. Desenvolvi em 2 ou 3 anos a minha maneira de produzir, tendo criado a designação “Beats by Dor D Cabeça” que hoje tem vários seguidores para a minha felicidade, porque alguns assumem que se inspiram em mim, pois existem alguns vídeos no youtube onde mostro mais ou menos como produzo os beats de Kuduro.

Jet7 Angola: Fala-nos um pouco do teu percurso artístico e sobre quem são as tuas referências musicais.

Nato P3: Em 1995… 96 ouvia muitos artistas do estilo Rap (Americano), mas como não entendia nada do que eles falavam, simplesmente viajava nas batidas e nas formas diversas como cada um cantava. Eu admirava artistas como os Fugees, 2 PAC, Notorius B.I.G, KRS ONE, DAS EFX, LL Cool J e etc, mas foi em 1997 que afirmei-me como Rapper o que na altura era mal visto por muitos vizinhos, familiares e colegas. Eles chamavam-me Nigga, era engraçado porque até a forma de vestir, de falar, de andar e de cumprimentar eram diferentes. DMX, MASE, M.O.P, WU-TANG, Puff Daddy, NAS, Jay-Z, Company Flow, Gangstarrs e muitos outros foram os que muito tiveram a minha audiência e tive como grandes inspiradores, isto só no Rap porque também gosto de variedades. Ouvi muito o rei da Pop Michael Jackson, Phill Collins, Michael Bolton, Boys II Men e Etc...

O Rap que eu fazia obrigou-me a ser investigador e mesmo sem entender as nossas línguas nacionais também tive fortes influências de grandes nomes da música africana dos anos 60-70-80 como David Zé, Bonga, Pedrito, Artur Nunes, Urbano de Castro, Franco, estes oiço quase todos os dias

Jet7 Angola: Para além de kudurista também és produtor e compositor. Em que área sentes-te mais confortável?

Nato P3: Acredito que me sinto mais confortável escrevendo, neste caso como compositor porque é o primeiro passo nas minhas músicas ou seja, primeiro escrevo, depois produzo e a seguir canto, é um processo demorado e cansativo mas quem corre por gosto não se cansa.

Jet7 Angola: És responsável por algumas músicas de sucesso como: “Oie Oie”, e “Mamadi”, dos Lambas, para além destes hits que outras músicas de sucesso têm a tua assinatura?

Nato P3: Sobe - Os Lambas

Vem cá - Os Mais Potentes

Sou jovem tó na moda - Desejo Playa

Zé Bula - Os Mais Potentes

Fonix assim já é golo - Os Vagabandas

Ladjum - Gilson Cores

Jet7 Angola: Para o projecto “I love Kuduro”, foram convidados vários Kuduristas, entretanto o Nato P3 nunca apareceu em nenhum destes espetáculo alusivos ao projecto. Quais terão sido as razões para a tua ausência?

Nato P3: É simples, nas edições já realizadas não fui convidado,e em duas das três edições já realizadas calharam em dias que estava escalado para trabalhar na instituição na qual sou funcionário. Mas acredito que seja um projeto contínuo, por isso, caso venha a ser convidado e haja disponibilidade, marcarei presença sem qualquer problema.

Jet7 Angola: Na tua opinião, a que se deve o declínio do Kuduro?

Nato P3: Eu sou daqueles que acredita que nenhum estilo morre, deve-se admitir que cada um tem o seu tempo ou tem a sua febre, mas falando muito sinceramente, já se fez Kuduro de verdade, e acho que o Kuduro foi invadido por um número elevado de curiosos, alguns com boa situação financeira que ajudaram o Kuduro a ter esta fraca audiência que temos observado agora. Mas o Rap já passou por isso também e pelos mesmos motivos.

A meu ver para além dos curiosos, alguns artistas desses estilos ajudaram com o exagero de músicas de animação, as tais chamadas músicas comerciais, há ainda outro factor, os chamados “Beefs”, alguns careciam de história, muitos dos “Beefs” surgiam por inveja pelo facto de um colega fazer sucesso com uma ou mais músicas, ao contrário dos outros estilos em que existe uma união entre os seus fazedores, no Kuduro é o contrário, quem faz sucesso cria inimigos.

Jet7 Angola: Como é que vês o Kuduro neste momento?

Nato P3: Vejo o Kuduro como um paciente em coma que terá como Drs. especializados, NATO P3 e Bruno M, dispostos a recuperá-lo e a não deixá-lo em mãos erradas e nem que se torne num estilo esquecido porque acreditamos que ele pode servir como emprego para muitos jovens sonhadores ,em Angola. Mas há pouca criatividade; quando um Kudurista faz sucesso, alguns aproveitam-se do facto deste ser pouco conhecido, para fazer uma música idêntica e depois dizerem que ele foi o inventor, hoje alguns fazem Kuduro misturado com “House”, na expectativa da música tocar em ambos os estilos, por isso nos dias de hoje quase todos fazem Kuduro, só não assumem.

Jet7 Angola: 1.246.700 Km² é o nome de uma de tuas obras discográficas e curiosamente corresponde a área de superfície de Angola. Terá sido este o motivo da tua escolha?

Nato P3: 1.246.700km² para além de uma homenagem ao nosso maravilhoso país Angola, vi este álbum em 2011 com uma extensão territorial musical igual a superfície do nosso país, contendo 14 faixas musicais todas escritas por mim e um extra sem qualquer participação. Neste mesmo álbum algumas músicas têm mensagens que serviram ou podem servir de encorajamento para quem pensa em desistir ou deixou de acreditar em Deus, como por exemplo no tema “Oie Oie” há uma passagem que foi mal interpretada por muita gente onde eu digo:

Jesus Cristo teve um irmão e o nome dele é Nato P3; com isto eu quis dizer que se somos todos filhos de Deus, e Jesus também é filho de Deus, então somos todos irmãos de Jesus, mas como a salvação é individual, falei apenas de mim nesta frase.

Jet7 Angola: As mixtapes costumam estar mais associadas ao Hip-Hop. No entanto, o Nato P3 lançou duas mixtapes “Assassinato” e “Artesanato”, o que leva um artista de Kuduro a optar pelo lançamento de mixtapes?

Nato P3: Bem, muitas pessoas conheceram-me pelo Kuduro mas eu não deixei de fazer Rap em momento algum, o que tento fazer é não misturar, por isso lancei um álbum de Kuduro em 2011 intitulado 1.246.700km², e em 2013 lancei uma mixtape experimental de Rap ou Hip-Hop se assim preferirem, intitulada “Assassinato”, com 14 faixas e um extra também sem participações e preferi fazer Mixtapes de rap, não para competir mas sim porque acredito que devo muito a este estilo que me ensinou, e ainda ensinará a ser um homem útil para a sociedade, mas antes de publicar qualquer música eu conversei com alguns rappers nacionais que deram força e alguns aconselharam a não fazer misturas, eu conversei com o meu tropa Abdiel, conversei com o Drunk Master, com o Dénexel, conversei com o MC K, o X da Questão, o NGA e cada um deles achou normal o facto de fazer Kuduro e não ter abandonado o Rap.

Artesanato é uma “mixtape” que ainda não tem data de lançamento, que como a primeira “mixtape”, também será lançada apenas via internet para download, tenho também o projeto “O Novo Testamento”, que será o meu segundo álbum a solo de Kuduro.

Jet7 Angola: “Os Do Avesso” é um grupo criado pelo Nato P3. Quem são os seus elementos, e por que decidiste criar este projecto?

Nato P3: Os “Do Avesso” é um grupo dentro do grupo os B.M, (Bons Meninos). Sim foi criado por mim, isto em 2002 como não concordo com muitas coisas com as quais  a maioria concorda decidi olhar para certas coisas ao contrário, naquela altura também era para nos diferenciarmos dos restantes porque os B.M do Maculusso eram inúmeros, mas com o passar do tempo novas pessoas foram se interessando pelo nosso modo de vida que era explicado por mim em algumas músicas, e foram passando por um processo de recrutamento que até hoje existe, claro passando por um processo de seleção; este mesmo grupo hoje está composto pelos seguintes senhores:

Nato P3, Nha Zgoury, Gilson Fantasma, Mó Ni Vaice, Galã do Avesso, Leny Boy, M. Fatal, Nick Black, Sérgio Vip, Auber Fichess, Nucho Staff e como alguns deles também cantam em 2012 lançamos um projecto intitulado “O Avessionário” para download com 13 Faixas musicais, todas elas sem misturas de estilo, apenas Kuduro a fim de promover outras vozes do grupo e já está em carteira o Avessionário II.

Jet7 Angola: Quem são os imortais?

Nato P3: Os “Imortais Do Kuduro” são: Bruno M e Nato P3, quando tive esta ideia não foi com a intenção de sermos os melhores, mas nas minhas caixas de entrada de mensagens do Facebook e telemóveis até agora estão cheias de perguntas deste tipo, “para quando uma música com o Bruno M?”

E parece que adivinhei porque o Bruno também sofria esta mesma pressão, então como uma música na minha opinião seria um desperdício, seria um consumo insaciável, decidi conversar com o Bruno M a fim de trabalharmos num álbum com músicas inéditas com mensagens, danças e animações para engrandecer o estilo.

Jet7 Angola: O Jet7 Angola sabe que estás neste momento a colaborar com o kudurista Bruno M. Queres falar-nos um pouco sobre este projecto?

Nato P3: “Os Imortais do Kuduro” é um projeto que terá 11 faixas musicais com produtores como Nato P3, TCP, Dor D Cabeça e Bruno M, e produtores ainda não confirmados e participações também ainda por se confirmar, mas temos o Puto Prata e a Noite e Dia na lista das participações, este projeto está a ser gravado em dois estúdios em Luanda; um é o que temos na Cidade do Kilamba e o outro é o estúdio do nosso amigo e colaborador Detergente, no Bairro Samba.

Este projeto terá apenas o estilo Kuduro, com este mesmo projeto, queremos promover o civismo, a ética, os hábitos e boas maneiras, com músicas de animação e intervenção, nos dias de hoje a nossa sociedade tem vivido momentos dramáticos e bastante chocantes relacionados com violações de menores, homicídios voluntários, violência doméstica, insegurança pública constantes e etc.

Diante desta situação bastante sensível a ação social, na qualidade de músicos, produtores e compositores, tirando vantagem pelo facto de o kuduro ser um grande movimento de massas com força suficiente capaz de obedecer a dinâmica da vida ou do tempo e sendo um estilo musical totalmente angolano, levou-nos a criar, e definir estratégias que possam fazer face a esses problemas, chegando a conclusão que podemos dar um bom contributo pela via do Kuduro.

Jet7 Angola: O surgimento da Internet e das redes sociais proporcionou melhores condições de divulgação e promoção dos artistas. Sentes que isto facilitou a vida aos artistas desta nova geração, em particular os artistas de Kuduro, quando comparados por exemplo com artistas do tempo de Sébem, Tony Amado, Virgilio Fire, Rei Ta Nice e outros mais?

Nato P3: Com certeza, por isso digo que não há futuro sem passado, para muitos darem sequência, alguém tem que começar; no tempo dos Kuduristas acima citados e eu os tenho como heróis porque naquela altura atuava-se praticamente a custo zero, os estúdios eram poucos, os instrumentais também, mas mesmo assim esses mais velhos não desistiram, acreditaram que seria possível dar vida a este estilo, e hoje há pessoas que apenas com uma música de sucesso conseguem comprar um carro 0 Km e ter outros bens;

O mais velho SeBem Tem vários sucessos, agora eu pergunto se aquelas músicas fossem feitas nestes anos do Facebook, Watssap e outras Redes? Acho que O Kota SeBem seria rico pela via do Kuduro…e hoje as pessoas têm várias formas de terem uma música para consumo, ou comprando na Praça da Independência ou em  lojas de discos, fazendo download via Internet ou mesmo Bluetooh e isto facilita a aderência de um bom Kuduro, e quanto maior for a adesão de um artista maior será o salário musical. Antigamente, para um Kuduro passar na rádio era uma luta terrível, parecia guerra entre partidos políticos, porque os Kotas não aceitavam e aliás a própria história do Kuduro conhecida por quase todos os angolanos mostra exatamente o que estou a dizer, o que a rádio, a televisão e os jornais não passam podemos adquirir via Internet, por isso acredito sim que o surgimento da Internet e das redes sociais proporcionaram melhores Condições de divulgação e promoção dos artistas, sem sombras de dúvidas.

Jet7 Angola: Sabemos que o meio artístico musical não é fácil. Qual foi a experiência mais difícil que viveste desde que iniciaste a carreira musical?

Nato P3: Fazendo um túnel do tempo diria que foi um assédio num espetáculo do Bruno M no Projecto “Batida Única Vol. 2”, em Viana na Casa da Juventude, quando uma jovem apercebeu-se que o Nato P3 se fazia presente no local do evento, ela passou pela segurança numa velocidade assustadora, em minha direção.

Para meu espanto, que no momento estava distraído, abraçou-me com uma força incrível e a chorar como se eu fosse alguém que ela julgava nunca mais voltar a ver, tímido como eu, fiquei sem ação e toda gente a olhar, outros músicos convidados, bailarinos a própria organização, senti-me mesmo arrepiado porque foi a primeira vez que estava a viver aquela situação, um dos meus amigos foi quem conseguiu acalmar a jovem que não se contentava apenas com as fotos que fomos tirando antes da minha performance.

Jet7 Angola: Achas que temos muitos artistas criativos em Angola ou são ainda muitos os que têm medo de arriscar e de criar coisas novas?

Nato P3: Como toda e qualquer arte, na música também há muitos artistas que não são papagaios, ou seja, aqueles a quem chamo de limitados, esperam alguém criar para Depois imitar ou fotocopiar e alguns até fazem mais sucesso do que o original, e na nossa música há alguns que fazem muito bem a diferença, são criativos e merecem o meu respeito e admiração, musicalmente falando eu gosto de coisas novas, diferentes e boas para os ouvidos e a alma, então artistas como o Yuri Da Cunha, Yannick Afroman, Matias Damásio, Yola Araújo, Yola Semedo, Shelsy Chantel, Totó, a estes eu tiro o chapéu e bato palmas.

Jet7 Angola: Como em qualquer área da vida o apoio dos amigos e familiares é importante sobretudo em momentos difíceis, com certeza que o Nato P3 tem esse apoio da família e dos seus amigos. Mas se tivesses que dividir o sucesso da tua música com alguém, quem seria?

Nato P3: Dividiria com a minha filha; que foi, é, e será a maior razão do meu amadurecimento psíquico e comportamental, assim como muitos jovens eu também me assustei com a fama e caminhava sem mapa, mas depois de surgir mais uma responsabilidade e desta vez tratava-se de uma vida humana tive que pôr uma luz vermelha na vida das imaginações e ilusões e dar luz verde a uma vida mais responsável.

Jet7 Angola: Quais são as tuas perspectivas para a vida futura?

Nato P3: Terminar a minha licenciatura em Gestão de Recursos Humanos, ser um bom pai, marido, um exemplo para a sociedade e amigos, e continuar a fazer boa música independentemente do estilo, quero continuar a criar projetos que sirvam de guia para os cegos, distraídos e perdidos.

Jet7 Angola: Uma mensagem para a Nação?

Nato P3: Só uma coisa torna um sonho impossível: O medo de fracassar.

Jet7 Angola: O Jet7 Angola agradece a sua atenção e carinho em responder as nossas perguntas, Obrigado.

Nato P3: Muito obrigado Ao Jet7 Angola e eu é quem devo agradecer pela oportunidade, estarei sempre disponível para próximas possíveis entrevistas e recebam os meus melhores cumprimentos.

Perfil

Nome Completo: Renato André Bragança Gomes
Data de Nascimento: 14-02-1986
Nacionalidade: Angolana                      
Natural de: Luanda-Ingombotas
Estado Civil: Solteiro
Filhos: Uma Filha
Divertimento (s): Jogar Basquetebol
Filme Favorito: X-Men
Músico Favorito: Artur Nunes
Livro Favorito: Maiombe, de Pepetela
Eu sou viciado em: Música

Fonte: Jet7 Angola

Rádio Jet7 Angola

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