Nanuto: “Fazemos música pelo tecto sem alicerces”

Prepara-se para lançar um DVD de música instrumental, mas critica a forma como a arte é encarada em Angola. O seu currículo, construído em anos, permite-lhe dar sugestões e exigir mais dos angolanos.

Sting, Alícia Keys, Alejandro Sanz, Ivete Sangalo, Compay Segundo e Pablo Milanés são alguns dos músicos internacionais com quem Nanuto já partilhou o palco. O instrumentista tem na forja o lançamento do primeiro DVD angolano de música instrumental que visa a internacionalização da música nacional.

Pioneiro na adaptação do saxofone e saxsoprano ao semba, à semelhança do que fez com a morna de Cabo Verde, o músico luta para que o kilapanda e o semba se tornem património internacional da música. “Contribuí para que a morna se tornasse património internacional da música. Um trabalho de anos e creio que podemos fazer o mesmo com o nosso semba. É algo que os cabo-verdianos conseguiram fazer e tiraram muito proveito”.

Nanuto considera que o mercado nacional não tem aproveitado a experiência de músicos angolanos que frequentam os circuitos internacionais da música e critica, veementemente, a organização do 1.º workshop sobre música angolana, que se realizou o mês passado, que para si “pecou” nos palestrantes: “Tivemos oradores que não conhecem a realidade da música angolana. São pessoas que lêem mais livros do que mantêm contacto com os músicos, principalmente os do interior. A organização preocupou-se em colocar oradores que são escritores, teatristas, psicólogos, tudo menos músicos”. As críticas são extensíveis ao Ministério da Cultura por “nunca se ter reunido com os músicos nacionais com carreira internacional” de forma a perceber a experiência que trazem de países mais desenvolvidos. “Nós, músicos, sentimos que estamos a ser subaproveitados. Cabo Verde faz muito pela sua música e faz muito bem. Devemos seguir bons exemplos”.

Conflito de gerações

Nanuto, que se considera um artista intermédio entre a velha e a nova geração, teve o privilégio de cantar com os músicos mais conceituados dos anos 70 e 80, como Carlitos Vieira Dias e Carlos Lamartine. “A experiência que transporto é válida porque bebi da melhor fonte. E é isso que a maior parte da nova geração não está a fazer”, defende-se, alertando para a necessidade de os jovens músicos “quebrarem a barreira” e recorrerem aos mais velhos. E critica o facto de se preocuparem pouco com a pesquisa preferindo sons vindos do exterior. “Os novos chamam os mais velhos de conservadores do semba. Criticam a raiz. Por isso, muitos surgem e logo depois desaparecem, enquanto os mais velhos permanecem”.

Formação em música

Nanuto gostaria que o Ministério da Cultura reunisse livros e prospectos que servissem de investigação para o semba e o kilapanga. Entende que muitos cantam o semba, “mas não sabem exactamente do que se trata, nem das verdadeiras origens”.

Ao mesmo tempo, defende a necessidade de criar condições para que os músicos, com alguma experiência, dêem seminários juntos das escolas, faculdades e outros locais de concentração juvenil.
Nanuto lamenta ainda a péssima condição que apresenta actualmente a Escola Nacional de Arte, antiga academia de música. “Como é possível formar-se um artista quando não se tem sequer um piano afinado?”, questiona-se. “Não temos uma escola, de facto, de arte mas já se fala de um instituto superior. Estamos a ir para o tecto quando ainda não pegamos os alicerces”, critica. A necessidade de os governos provinciais reservarem uma parte dos seus orçamentos para a criação de pequenas escolas de música e de os adidos culturais das embaixadas “trabalharem mais pela cultura e não esperarem pelas datas históricas”, também é um alerta do artista.

Nanuto estudou música clássica em Portugal, no Hot Club de Jazz, e salsa, em Cuba, e merengue na República Dominicana. Tem como referência os Merengues, grupo criado em 1974, por Alberto Teta Lando e Carlos Lamartine, liderado por Carlitos Vieira Dias. Nanuto chegou a tocar neste grupo.

Considerado o mais internacional dos grupos que o país teve, resultou de uma junção de elementos oriundos das maiores bandas que existiam em Angola como Zé Keno, dos Jovens do Prenda, Carlitos Vieira Dias e Joãozinho, dos Negoleiros do Ritmo, Zeca Tirileno e Gregório Mulato, dos Águias-reais, e ainda Voto Costa, dos Kiezos. “Tínhamos a selecção de Angola. Mas pude ainda trabalhar com Elias Dia Kimuezo, André Mingas, Bonga, Waldemar Bastos, Carlos Burity, Carlos Lamartine, Lurdes Van-Dunem e Belita Palma. As duas foram as minhas madrinhas para entrar nos ‘Merengues’” recorda.

 

Fonte: Nova Gazeta / Sapo Banda

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