Músico angolano «Dionísio Rocha» tem novo disco

O conhecido Dionísio Rocha, músico e compositor, analista de questões de cultura nacional, nomeadamente sobre o Carnaval, realizador de programas de rádio, director artístico de eventos diversos e com incursões na área da representação (lembremo-nos, só na época moderna, de “Conversas no Quintal”), vai dar a conhecer, no início de Junho, a sua mais recente obra, “Mulher Angolana”.

 

Comemorando 60 anos de carreira (sim, aos oito anos, os mais velhos da nossa Benguela confirmam, já participava em récitas no Bairro Benfica e na Escola 30) vem mostrar-nos agora com este disco que a idade não deve condicionar a criatividade e que podemos sempre resgatar temas mais antigos e incutir-lhes modernidade, agregando novos sons e instrumentos.


A trajectória artística, de cidadão e de profissional de Dionísio Rocha não se esgota neste simples texto de amizade e homenagem, ainda por cima não sendo eu crítico de arte, analista de música ou “lobista” de promoções culturais. Mas porque considero que os valores do respeito e do reconhecimento por quem, em diversas áreas de actividade, tenha feito algo de útil e de importante para o país, devem estar sempre presentes em todos nós, achei ser dever de cidadania deixar aqui a minha homenagem ao jovem da velha guarda Dionísio Rocha que, passados tantos anos, mostra a sua força e vitalidade neste álbum que vai lançar.


Dos tempos de meninice, marcados pelas “brincadeiras de miúdo” com os matrindindes do Corinje (ou Kurinje?) e com as areias da Rua 10, as participações em grupos corais infantis estenderam-se também ao Conjunto “Ngola Estrela de Benguela”, onde actuava enquanto miúdo e que, curiosamente, voltou a encontrar, mais tarde, em digressões conjuntas, quando já era o vocalista principal do “Negoleiros do Ritmo”.


Já em Luanda, seguiu-se o período da juventude e do início da maturidade e da maior consolidação das vontades e dos dons artísticos. Neste período, referência importante para Dionísio Rocha foi o “Botafogo”, um clube recreativo, situado no Marçal, onde ele foi cantor, bailarino e declamador. Registe-se, para a história, que Lopo do Nascimento era o presidente de direcção e Aristides Van-Dúnem o presidente da Mesa da Assembleia Geral do “Botafogo”, onde o nosso conhecido Armando Correia de Azevedo também era influente nestes anos 60.


Também por esta altura, o “Uanga Feitiço” era um projecto cultural que promovia um espectáculo semanal de música, dança e poesia, aos sábados à noite, no terreno onde mais tarde viria a ser construída a Igreja de São Paulo.


Neste grupo de jovens pontificava o Dionísio e o Joãozinho Morgado que, pela sua qualidade, foi mais tarde incentivado por Luís Montez, importante promotor de espectáculos e de artistas angolanos, a criar um “conjunto”, tendo então surgido os “Negoleiros do Ritmo”. Rapidamente, Dionísio Rocha foi convidado a integrar este agrupamento, onde passou uma parte fundamental da sua carreira artística e um marco da sua trajectória musical.


Dionísio Rocha e os “Negoleiros do Ritmo” foram presença permanente e inspiradora nas comemorações do Carnaval no Clube Atlético do Lobito de 65 a 75. Ainda hoje falo com mais velhos no Lobito que se recordam desta época e destas participações.


Nos tempos em que o entretenimento nos bairros, através da promoção de diferentes espectáculos, levaram ao aparecimento e afirmação de inúmeros intérpretes angolanos, não podemos deixar de associar o Dionísio Rocha a projectos como Cazumbi, Kutonoka, Chá das Seis, Ngola Cine, que serviram tanto para o aparecimento e promoção desses músicos angolanos que interpretavam música angolana “genuína” como para a afirmação de uma determinada angolanidade, mesmo que sob o jugo colonial português.


A música, e só a música, utilizada como ferramenta de marketing levou ainda, no período colonial, a que Dionísio Rocha fosse convidado a ser promotor de vendas da cervejeira EKA, percorrendo o país, aprofundando o conhecimento da cultura, dos hábitos e costumes das populações, factores fundamentais para a sua criação artística e a correcta interpretação dos fenómenos sociais.


Já no pós-Independência, respondendo à chamada, como muitos outros angolanos, para participar em tarefas da Educação, como professor, vai assumindo, igualmente, diversas funções e responsabilidades nas estruturas oficinais da área cultural.


Dionísio Rocha foi depois, no seio de uma equipa maravilhosa, um dos activos criadores, organizadores e participantes dos Festivais de Publicidade da TVC, mais tarde “Festival Acácia de Ouro”, que levou cultura, pioneirismo e saudade a vários pontos do país.


Em paralelo, mas principalmente, foi desde sempre, para além de outras tarefas, um dos directores artísticos de diferentes eventos do Ministério da Cultura e, como é óbvio, sempre arranjou tempo, energia e vontade, para percorrer o país levando entretenimento e cultura nas campanhas políticas do MPLA. É este Dionísio Rocha multifacetado, sempre a a­poiar o surgimento e promoção de novos valores, e ainda hoje preocupado com o rumo que certas vertentes da música e dança angolana estão a seguir, que em Junho lança a sua mais recente obra. Com certeza, não última.


Para este CD, o Dionísio contou com o inexcedível apoio do nosso Eduardo Paim, que não só disponibilizou os seus estúdios em Lisboa como participou activamente nos arranjos e na mobilização de instrumentistas que deram uma nova roupagem no uso de sopros, percussão e violinos a temas conhecidos ou renovados ou originais.


Kilapanga e Semba sãos ritmos dominantes em diversas composições contidas no CD. Mas Dionísio incluiu também em dois temas (“Aprukutu” e “Eye Ne”) balanços musicais do Zaire, os ritmos kuassa kuassa e dombolo, que têm uma animação de guitarras que se chama “sebene”.


A mulher angolana é, como o título sugere, o foco principal do mesmo, não só através do tema que dá título ao disco, como de outros como “Madi Madi” e “Eu Quero o Mar”. Outros temas mais “sentimentais”, como “Na Minha Luanda” e “Tio Liceu” e outros referenciando a música mais popular, em línguas nacionais, como “Eye Ne”, “Pemba Laca”, ou “Kiama”. Destaco também o regresso de outro jovem da velha guarda, o nosso Sabu Guimarães que no tema “Rumba Negra” empresta a sua excelente voz e participação.


Estamos perante um CD do Dionísio Rocha que coloca este músico de 60 anos de carreira a marcar posição no panorama artístico nacional e a mostrar que é possível fazer conviver a modernidade e os novos ritmos e valores com as canções que fizeram época e criaram escola, ritmo e unidade.


Vale a pena que instituições oficiais, empresas de promoção cultural, empresários de diversos títulos, rádios e televisões apostem nesta vertente para que a nova vaga, alguma dela com mais espaço e rendimentos que qualidade, conviva e não faça esquecer o passado que fez história e que deve ser respeitado. O mesmo respeito e profissionalismo que Dionísio Rocha empresta aos amigos, às instituições e a tudo o que faz.

 

Fonte: Jornal de Angola

 

 

Rádio Jet7 Angola

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