Mc Diamondog: «Já sofri preconceito racial muitas vezes»

Mc Diamondog: «Já sofri preconceito racial muitas vezes»

 

O Jet7 Angola entrevistou o músico, produtor, realizador e compositor angolano Mc Diamondog. Nesta entrevista o jovem artista falou-nos sobre a sua carreira e das suas experiências longe do nosso país. Em 2014 este artista multifacetado, foi escolhido para actuar numa das festas privadas do Festival Internacional de Cinema de Berlim “Berlinale”, um dos maiores Festivais de Cinema do mundo. Mc Diamondog confidenciou-nos algumas curiosidades sobre a sua vida pessoal e falou-nos ainda sobre algumas situações de racismo de que foi vítima. Uma entrevista a não perder!

 

Leia a entrevista:
 

Jet7 Angola: Quem é o Mc Diamondog ?

 

Mc Diamondog:Mais um angolano como tantos outros, que apesar de viver geograficamente distante do solo pátrio, ama Angola. Sou uma pessoa  simples, amigo dos que me querem bem, que acredita no poder de superação das pessoas e que jamais se cala frente a injustiças,  sejam elas cometidas em qualquer parte do mundo.

 

Jet7 Angola: Há quanto tempo fora da terra natal (Angola) e qual foi o motivo que o levou deixar o País?

 

Mc Diamondog:Saí do país há 14 anos, pelo mesmo motivo que levou muitos jovens angolanos a emigrarem. A guerra fratricida (entre irmãos). Este foi o motivo principal da minha saída. Aplicando o ditado do capim e dos elefantes, acredito que ter saído do país para não participar da guerra foi a decisão certa, porque no final das contas, somos todos angolanos independentemente de ideologias antagónicas e das cores partidárias.

 

Jet7 Angola:Já alguma vez sofreu preconceito racial nos países em que já residiu ?

 

Mc Diamondog:Sim, já sofri preconceito racial muitas vezes, por parte de pessoas comuns e por parte da polícia. Para ser sincero, já perdi a conta de quantas vezes a polícia apontou armas de grosso calibre na minha cabeça; quantas vezes fui seguido e monitorado nas lojas; as pessoas atravessaram a rua ao me verem, e quantas vezes fiquei preso nas portas giratórias dos bancos mesmo sem portar nenhum material metálico.

 

Tudo isso, foram experiências que me tocaram profundamente, me moldaram como ser humano, e me transformaram em alguém que começou a buscar os seus direitos.

 

 

Jet7 Angola:Fale-nos um pouco do seu percurso artístico e de quem são as suas referências musicais?

 

Mc Diamondog:Há tanta coisa para contar, mas infelizmente deixarei alguns detalhes para trás. Mas vamos a isso.

 

Comecei a escrever  rap por volta de 1997,  mas a primeira vez que subi  num palco foi em 1998. Lembro-me como se fosse hoje, o show foi no bairro Palanca, próximo ao cavalo branco, e o local era uma espécie de cinema abandonado (em escombros).

 

Em 1999 gravei juntamente com o Mc Kamba Diamuenho, rapper angolano que hoje em dia vive  na Espanha, a primeira música de estúdio, que se chamava: Se você quer ser feliz. A música tocou algumas vezes no programa radiofónico FM Expresso. Mas infelizmente 2 meses após ter gravação, tive que arrumar as malas e rumar para o Brasil.

 

Cheguei no Brasil em 1999 e de lá para cá musicalmente falando, posso dizer que fui abençoado. Tive o prazer de conhecer, dividir o palco e aprender bastante, com músicos de renome internacional. Ganhei prémios, participei de documentários, participei de varias colectâneas musicais e subi em palcos que jamais poderia imaginar que um dia subiria.

 

Para ser mais específico, em 2003, quando saía do palco do Festival de Artes Negras, no Brasil, fui chamado a ir a um camarim, e de repente estava de frente com AfricaBambataa, o Grandfather do Hip Hop. Africa Bambataa, me havia mandado chamar, porque havia assistido a minha performance minutos antes.

 

Bambataa felicitou-me e me perguntou se eu gostaria de entrar em palco com ele. Tremi dos pés á cabeça, gaguejei e é lógico que aceitei o convite. Foi uma experiência inesquecível e só quem conhece o Hip Hop de verdade, sabe da importância deste homem. Ademais, esta não foi a única vez que cantei com o Africa Bambataa. Em 2009, ao nos reencontramos em Berlim, ele me reconheceu de imediato, e novamente dividimos o palco.

 

Ainda em 2003, Dj Primo apresentou-me ao Marcelo D2, e apesar de não nos conhecermos anteriormente, após uma pequena jam session no backstage, ele convidou-me ao palco. Foi surreal e incrível. Após este dia, voltei a dividir o palco mais umas 4 vezes com MD2, e numa dessas subidas, tive a oportunidade de me apresentar com ele num show para mais de 25 mil pessoas num estádio de futebol em Belo Horizonte. O evento chamava-se Pop Rock Brasil, e para além do D2 haviam se apresentado no palco, bandas como o Rappa, Charlie Brown Jr., Titans, Gabriel o Pensador, Tianastacia,Skank e muitos outros.

 

O que eu aprendi com Marcelo D2? Muiiiiita coisa! Principalmente postura em palco e como fazer um bom show de rap que envolve a audiência.

 

Resumidamente falando, dividi  o palco, abri shows  e troquei experiências inesquecíveis com Dead Prez, Azagaia, Emicida, Marku Ribas, Tianastacia, Wilson Sideral, Escola Criativa Olodum e muitos outros.

 

Em 2004 juntamente com o brasileiro jazzrell, gravei o álbum independente que se intitulou: "Um Tributo às Nossas Nações".

 

Em 2005 participei do álbum "Comida de Comer", no qual também participou o grupoUakiti (este grupo abriu as Olimpíadas de Atenas em 2004).

 

Em 2005, participei do projecto "Compadres" no qual participei em 3 faixas, sendo uma delas em parceria com o rapper Cubanito.

 

No ano de 2007, integrei o colectivo Arrebite e gravamos o Vinil com o mesmo nome do grupo "Arrebite". O LP foi  lançado na Alemanha pela Phantanoise Records e foi destaque na revista inglesa especializada em música eletrônica XLR8R.

 

No mesmo ano, 2007 fui convidado pelo director de fotografia do filme Cidade de Deus eCarandiru, Marcelo Trotta, a participar do documentário "Além do café petróleo e diamantes". O documentário ganhou o prémio de melhor direcção no Festival de Pernambuco e a Menção Honrosa no Festival dos Direitos Humanos de São Paulo.

 

Em meados de 2007 me mudei para Berlim a convite da ONG alemã WFDWeltfriedensdienst) Serviço pela Paz Mundial,para realizar Workshops na Polónia e na Alemanha mostrando aos jovens como o Hip Hop pode ser uma ferramenta poderosa de expressão e de resolução de conflitos.

 

Ainda em 2007, integrei o projecto "Input-Junkies" e gravei juntamente com a rapper Sul Africana Shameema, do grupo Godessa a música "International Monkey Business".

 

Apesar de ter gravado ainda no Brasil em 2007 a Música "Eu quero uma dama", só em 2008 a mesma foi lançada, pela editora Acla na colectânea "Malucofonia".

 

Em 2008 realizei juntamente com Dj Werd (californiano), uma turné por Barcelona, onde tocamos no Bread and Butter, um dos maiores eventos de moda da Europa, e em seguida actuamos em varias cidades portuguesas como Porto, Braga, Gaia e Matosinhos.

 

Em 2009  foi escolhido como um dos artistas do ano, pela Volkswagen SoundFoundation. Fruto disso, recebi vários incentivos artísticos, como cursos sobre gravação de áudio, workshops e fui agraciado com um mini autocarro para turnés num período de um ano.

 

Ainda em 2009, a convite da editora norte americana Nomadic Wax, gravei a música "Alexis Sinduhije needs freedom" em prol da libertação do jornalista Burundes AlexisSinduhije, nomeado pela Time Magazine uma das 100 pessoas mais influentes de 2009.Alexis estava detido pelo governo do Burundi, pelo seu trabalho humanista de tentar reconciliar Hutus e Tútsis.

 

No começo de 2010 fui incluído pela BBC no mapa sobre a evolução da cultura Hip Hopno Mundo. E ainda em 2010 venci o prémio de melhor trilha sonora de um dos mais importantes festivais de cinema do Brasil, o Festival Internacional de Gramado, na categoria trilha sonora de longa-metragens brasileiros.

 

Em 2011 foi considerado  pelo site de Hip Hop Okay Player, como um dos rappers mais rápidos do mundo, e pelo site This is Africa, como um dos mais rápidos do continente africano.

 

Em 2013 fui convidado a integrar o projecto  Spoken Wor:l:ds, e a viajar para o Quénia  juntamente com Poetas, e cantores alemães, afim de trocarmos experiências com os artistas locais e gravar um álbum que mistura poesia (Spoken Words e Rap).

 

 Enfim, mesmo cortando algumas coisas este é o meu percurso cá fora.

 

Jet7 Angola:Mc Diamondog é  Rapper e Dj ao mesmo tempo, em qual das artes o Mc Diamondog sente-se  mais a vontade ou tem maior domínio?

 

 Mc Diamondog: Desde muito cedo a vida me ensinou a ser polivalente. E hoje em dia me esforço a dar o meu melhor tanto como mc, quanto como Dj.

 

 

Jet7 Angola:E como tem sido recebida a sua música na Alemanha e em Angola?

 

Mc Diamondog:Tem-se dito que a música é uma linguagem universal. E hoje sem sombra de dúvidas posso confirmar esta máxima. Em 2008 após um ano em Berlim, eu montei uma banda que me acompanharia ao vivo nos shows. Eu não falava quase nada em alemão, mas eu e os músicos conseguíamos nos comunicar. Os músicos eram todos experientes e tinham uma longa estrada tocando com músicos de gabarito. O meu contra baixista, toca actualmente com o Cat Stevens, o trompetista está em tour com o Aloe Blacc e já fez tournées com a Laurent Hill.  Modéstia a parte, me dou por satisfeito em Berlim. Quando tenho concertos as pessoas vão e a vibração positiva é muito boa.

 

 

Já com relação a Angola, a situação é totalmente diferente e por vários motivos mais complicados para mim. Primeiro porque estou fora do pais há 14 anos, segundo porque eu saí do país quando eu era apenas um rebento, uma semente em estado de germinação (musicalmente falando) e em terceiro lugar, porque as rádios e televisões dificilmente aceitam tocar músicas de cantores desconhecidos, mesmo que as envias. C'est la vie (risos). Mas já agora, deixa-me aproveitar o ensejo e mandar um shout-out e um ngassakidila a equipe do programa BeatBox, que tem tocado uma das minhas músicas na rádio Luanda. Props!

 

 

Jet7 Angola:Qual foi a sua reacção quando soube que foi escolhido para actuar numa das festas privadas do Festival Internacional de Cinema de Berlim “Berlinale” ? Um dos maiores Festivais de Cinema do Mundo.

 

Mc Diamondog:Êxtase! Fiquei felicíssimo, porém tinha uma grande responsabilidade em mãos e me preparei bastante para justificar o porque eu fui o escolhido para comandar a festa. A pista de dança esteve o tempo todo cheia e tenho a certeza que as pessoas se divertiram bastante.

 

Jet7 Angola:Como reagiu a comunidade Angolana na Alemanha e no exterior? 

 

Mc Diamondog:Alguns irmãos e irmãs cá na Alemanha com quem eu tenho contacto, parabenizaram-me. Porém como a festa era privada, não pude convidar a comunidade angolana que aqui reside, a se fazer presente.

 

Contudo, como não existe céu, sem inferno, houve de imediato reações de animosidade na internet, digo pessoas com dores de cotovelo (risos), esbravejando aos quatro ventos e querendo saber: "Quem é este mais?” hahahaha (risos), mais faz parte, pois as vitórias mais saborosas são aquelas conseguidas a duras penas e as vezes sob olhar dos que não acreditam em nós.

 

Jet7 Angola:Acha que temos muitos artistas criativos em Angola ou são ainda muitos aqueles que têm medo de arriscar e de criar coisas novas?

 

Mc Diamondog:Nós temos artistas fantásticos e muito criativos em Angola e na Diáspora, como é o caso por exemplo dos cantores Jack Kanga e J. Lorenzo e do artista plástico Kuta Ndumbo.

 

Contudo, muitas coisas novas que tem sido criadas, artisticamente falando, não tem sido promovidas parcial ou cabalmente pelos meios de comunicação do país, pelo simples facto dos artistas "dês"conhecidos, não terem QI (Quem Indica), ou seja, não terem alguém que faça corredores nos meios de comunicação social.

 

E para além disso, ainda existe a questão do jabaculê, ou seja, o músico tem de pagar uma certa quantia para que as suas músicas toquem a toda hora na rádio.

 

Pode até parecer exagerado o que eu vou dizer, mas eu considero o jabaculê e o QI, como sendo os maiores assassinos e desmotivadores de mentes criativas. E digo mais, o dia em que estas práticas forem abolidas e os meios de comunicação olharem para a arte e não para o bolso do artista, verão o quão linda e diversificada é a arte produzida por angolanos.

 

Jet7 Angola:Acha importante os artistas promoverem músicas que contenham uma mensagem positiva sobretudo para uma sociedade como a nossa, que tem graves problemas ao nível cultural e de valores morais?

 

 

Mc Diamondog:Sim acho, porém como já referi a promoção de tais músicas, passa pela mudança no que concerne as políticas de difusão dos mass media em Angola.

 

Jet7 Angola:Como em qualquer área da vida o apoio dos amigos e familiares é importante sobretudo em momentos difíceis, com certeza que o Mc Diamond tem esse apoio da família e dos seus amigos. Mas se tivesse que dividir o sucesso da sua música com alguém, quem seria?

 

Mc Diamondog:Dividiria com toda a minha família, os meus amigos e o povo angolano como um todo, por serem a minha maior fonte de inspiração.

 

Jet7 Angola:Mc Diamond quais são suas perspectivas para a vida futura?

 

Mc Diamondog:Ser feliz e independentemente dos holofotes ou não, seguir "caminhando e cantando seguindo a canção" Aliás, estou a gravar um álbum, mas não tenho pressa, a única coisa que sei, é que ele um dia sairá (risos).

 

Jet7 Angola:Uma mensagem para a Nação?

 

Mc Diamondog:Deixarei como mensagem, um pedaço de uma música gravada por mim em 2004 juntamente com o Jazzrell, rapper brasileiro:

 

 

 

Educação ritmo mistura/

 

Mensagem optimista para nossa cultura/

 

Sem clima tenso mude a cena de figura/

 

É disso que você precisa pra mudar essa postura/

 

 

 

O tempo voa/ Mude a cena atenção/

 

Livre agora a tua alma da tensão

 

No stress nesse momento descontração/

 

Cabeça erguida sem nenhuma vacilação ( fazer coisa errada)

 

 

 

Eu fico fora do tumulto pois gosto de paz/

 

Intrigas e blá blá blá eu deixo pra trás

 

Boas acções como camaradagem é o que me satisfaz/

 

 

 

Sem apologia negativa/

 

Sem filosofia distorcida/

 

Na intenção da vibração  positiva/

 

Eu sigo firme e com a mente activa/

 

 

 

Pega tudo que não presta/

 

E deita fora no lixo/

 

O que estressa não interessa/

 

Deita fora no lixo/

 

A inveja de quem te detesta/

 

Deita fora no lixo/

 

Você complica de mais homem/ deixa disso/

 

 

 

Se quiser conquistar mais um amigo/

 

Estou contigo/

 

Não abro mão e fico longe do perigo/

 

Estou pro que der e vier e minha  família vem comigo/

 

Pra ver a queda de todos os inimigos/

 

 

 

Não quero ver químicas letais nem falta de oportunidade/

 

Falta de estudo deixa a nossa nação cada vez mais atrasada/

 

O povo não nota que a mídia poluída deixa as crianças contaminadas/

 

E os pais não sabem o que fazer com uma geração tão revoltada/

 

 

 

Mais é a hora da virada/

 

Ligue aí/

 

Do inesperado acontecer/

 

Ligue aí/

 

Representar a força da união/

 

Ligue aí...

 

 

 

Paz

 

 

Contactos de Mc Diamondog:

49 01515 6257472

www.facebook.com/mcdiamondog

 

Perfil:

Nome Completo: Diamantino Edgar Capacassa Feijó
Data de Nascimento: 23 de Agosto de 1980
Natural de : Luanda
Passatempos: Fazer scratches e produzir Beats (instrumentais)
Filhos: 2
Estado civil: Casado
Filmes Favoritos : A procura da Felicidade, A Revolução dos Bichos, 2012, Trayningday, 12 Anos de Escravidão
Músicos Favoritos : Bonga, Kafala Brothers, Djavan, Bob Marley, MCK, Kool Klever,KRS- One, Yannick Afroman, Jeff Brown, Busta Rhymes e muitos outros
Livros Favoritos : O Ócio Criativo (Domenico de Massi), Pele negra, máscaras brancas (Frantz Fanon) Raizes (Halex Haley) O cão e os Caluandas (Pepetela) Doutrina (J.A.S Feijóo)  Bom dia Camaradas (Ondjaky) Quarto de Despejo (Carolina Maria de Jesus) etc.
Eu sou viciado em :  Ler notícias, crónicas, Artigos  e ouvir música (não importa o estilo)

 

Fonte: Jet7 Angola

 

Rádio Jet7 Angola

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