Entrevista com Laton dos Kalibrados

"...Eu luto contra a desvalorização do artista nacional.....aqui em Angola sabe-se quem foi Krs-one sabe-se o nome dos artistas americanos, mas no fundo não se sabe o que é hip hop e o que está por trás da sua história..."

Edivaldo dos Santos - Qual é a história do Laton no hip hop nacional?

Lanton - Bem, a minha história começa quando cheguei de Portugal, desde lá, eu já me era apaixonado pelo rap. Na altura através de um primo eu ouvia, Wu tang, Busta, Cypress Hill, Method Man, Onyx e principalmente 2Pac do qual até hoje tenho grande admiração. Já em Luanda fui alimentando o espírito hip hop e quando conheci o Bruno Almeida na escola, ele via me sempre puxar instrumentais americanos na net onde eu fazia Freestyle e um dia ele chegou e disse: “

Laton, eu tenho um programa de computador onde tu podes fazer os teus próprios beats”, a partir daí foram “bananas” dei por mim já dentro do hip hop angolano a rolar com Mc K (q foi a primeira pessoas com quem gravei uma musica), Hemoglobina, Samurai, Exkal shyne, Polyvalentes (o peeps da garagem), o Bob da Rage Sense, Raf Tag entre outros. Face as dificuldades e aos escassos meios aqui na banda para se fazer hip hop eu sempre me disponibilizei a ajudar com o pouco que tinha o inicio da produção começa quando eu conheço o Samurai e acompanho a produção do “Ishing(álbum dele com o Raf Tag), e aí o meu coração bateu, apaixonei-me por completo, era um sonho, uma inspiração!!! Alguém que conheço a criar beats!!! Em casa!!! No computador!!! Era inacreditável ganhei grande inspiração, e comecei a fazer beats apenas para mostrar ao Samurai como se ele fosse meu professor todos os dias fazia beats. Depois trabalhei com o Bruno Almeida na mixtape “Fogo cruzado”, no EP do Bob e outros trabalhos como meetings, encontros e desta forma o meu nome foi-se espalhando no underground..

Edivaldo dos Santos - A quanto tempo faz beats e qual foi a tua grande primeira produção?

Lanton
- Desde 1999/2000, não há muito tempo, 6 a 7 anos a primeira produção não pelo delírio de quem a ouviu, mas pela minha satisfação.

Edivaldo dos Santos - Porquê que o Laton não gosta muito de cantar?...visto que faz bem?

Lanton - Sei fazê-lo bem? Obrigado…não se trata de não gostar de cantar, tudo tem uma explicação, eu não canto no álbum dos Kalibrados porque eu entrei para o grupo depois do álbum estar formado e para além de ter produzido, eu gravei o álbum, ou seja, eu próprio fui o técnico de som, a pessoa, que estava lá a dizer ”yah, já esta a gravar…não! assim não esta fixe”, canta mais assim…” tudo porque sempre gostei de estar por traz a lapidar diamantes, não propriamente a sê-lo. Eu entro no grupo no final da gravação do álbum quando o Vui Vui, o Kadaff e o Mr. K acharam por bem que eu fizesse parte do grupo, pois eu fui uma das pessoas que deu tanto de si como cada um deles para que este sucesso de CD se concretizasse.

Edivaldo dos Santos - Quais são as tuas principais inspirações?

Lanton - A vida, a sociedade, a dor, o amor…depende muito do estado de espírito, eu me inspiro naquilo que vivo de mais intenso. Falando do que as pessoas “querem” mesmo “ler”as minhas influencias como produtor são Satânico mc, Dj Samurai, Bob da Rage Sense, Vui vui, Mr. K, Kadaff, Boss Ac, Sam the Kid, Contrario, Dj Premier, Dr. Dre, El-p, Hi-tek, uma lista sem fim...

Edivaldo dos Santos - Apesar de já teres sido conhecido nas lides do Rap nacional, não há duvidas que o álbum dos Kalibrados foi a principal estrada para o reconhecimento. Quer comentar?

Lanton - Com certeza, eu vejo isso como um fenómeno natural e inconsciente! O Porque? Natural, porque a evolução e o reconhecimento são fruto da dedicação, do trabalho e do inconsciente porque quando dás por ti, Angola toda te conhece e te reconhece pelo esforço, dedicação, carisma, luta, amor e força de vontade. Nem toda a gente se pode orgulhar na primeira pessoa disto que eu hoje me posso orgulhar e dou muito valor. O fenómeno kalibrados foi como que uma graduação, do ensino primário ao ensino superior.

Edivaldo dos Santos - Qual é a produção feita pelo Laton que gostaria de realçar?

Lanton
- Nenhuma, o meu trabalho fala por si e acho que independentemente de uma ser mais ouvida que outra, cada uma delas há de ser realçada mais tarde ou mais cedo e o engraçado é que eu posso morrer, mas as minhas obras são imortais (quem me dera ser um beat).


Edivaldo dos Santos - O valor da produção da Mille Mambos tem sido muito questionado por vários Mcs que acham muito elevada tendo em conta o nível social de maio parte dos angolanos?

Lanton - Quem são esses mcs? Não os conheço! É caro produzir na Mille Mambos em Angola e como fica ir para Africa do sul ou Portugal produzir…“eu luto contra a desvalorização do artista nacional” paguem o que vos cobram e exijam o que pagaram…prefiro apostar em artistas do que fazes descontos, mas é claro que não se aposta em quem “bate a porta” mas sim em quem se vê brilho pois é assim no mundo inteiro.


Edivaldo dos Santos - Laton e outros produtores têm sido alvos de “acusações” sobre “supostos” plágios como o é o caso da música “Soldados Civis”. O que tens a dizer quanto a isso?

Lanton - 1 - Isso é que aqui em Angola sabe-se quem foi Krs-one sabe-se o nome dos artistas americanos, mas no fundo não se sabe o que é hip hop e o que está por trás da sua história. E as pessoas que fomentam esses assuntos não são pessoas credíveis para tratar assuntos de hip hop, visto que em pleno século XXII, abordam e questiona assuntos sobre hip hop ultrapassados e completamente fora de contexto.

Edivaldo dos Santos - A 1000 Mambos liderada por Laton e Ivo fez novas aquisições como os Polivalentes e Imo Cabir que sai no mercado o próximo ano com o álbum intitulado “Golpe de Estado”. Fale-nos um pouco destas aquisições?

Lanton - Os Poly, são meus amigos de longa data e quando eu os conheci eles já cá andavam há muitos mais anos ligados ao Rap, para alem do amor, tenho muito respeito por eles, são super talentosos e um dia Angola toda vai me dar razão. Quanto ao Imo Cabir, é uma nova aposta minha, ele vive nos Estados Unidos e tem descendência moçambicana também é muito mau. Gostei dele e estamos a trabalhar para em breve o álbum dele estar aí nas vossas portas.

Edivaldo dos Santos - tua opinião como esta o hip hop nacional (evoluiu ou piorou)?

Lanton - Existe hip hop nacional? Sim com certeza que evoluiu, hoje há mais possibilidades e é mais fácil fazer um disco, logo já é um bom passo. É necessário que se criem condições para produzir e fazer discos, por esse lado eu tenho a certeza q o hip hop está em grande ate mais do que outros estilos, há uma grande afluência da influencia hip hop no mercado mas por outro lado são sempre os mesmos a fazer boa musica, e há muito CD no mercado de artistas que só querem fama e vem o hip hop como porta mais fácil, logo, aparentemente como saem muitos discos de rap no mercado, naturalmente se pensa q o hip hop esta evoluir no bom sentido, mas na minha opinião não é literal.

Edivaldo dos Santos - Há união no seio do vosso grupo (Kalibrados)? Será que projectos fora do grupo não levaram a distorção do grupo?

Lanton - Neste momento o Mr. K esta a trabalhar fora do grupo, eu estou e o Vui Vui também, estamos numa fase em que sentimos que temos de dar sangue pelos nossos, há grupos que não tem oportunidade, e nos somos a oportunidade o álbum esta no mercado, temos tido espectáculos, temos trabalhado muito na nossa imagem e os trabalhos fora não afectam o grupo porque não deixamos que afectem, logo, tornam-se remotas as hipóteses de destorcer. 

Edivaldo dos Santos - Como é a relação do Laton com outros produtores nacionais?

Lanton - É boa, eu dou-me bem com o Sandokan, Heavy c, Aires, Nk, Grande L, DH, Mad Contrario, enfim, sou um ser humano e não me relaciono com os produtores mas com as pessoas sejam elas o que forem porque é saudável para mim e para a minha carreira.

Edivaldo dos Santos - Como é que o Laton faz os beats, que método e materiais utiliza e se estudou musica?

Lanton - Bem, eu faço os beats num portátil que anda comigo para cima e para baixo, basicamente eu uso o computador para fazer musica, tenho o ouvido bem atento a tudo que produz som. Tenho um monte de músicas prontas a serem cortadas e sampladas para fazer beats que deixam mcs cheios de vontade de cantar neles. Nunca estudei musica, tudo o que faço, é de ouvido, mas a idade pesa e apesar de só ter 21 anos é cada vez maior a necessidade de aprender, pois com o tempo encontro algumas limitações, mas ainda tenho muito para dar pela música.

Edivaldo dos Santos - A música “Quem manda no teu block” tem sido alvo de muitas respostas. O tem a dizer quanto a isso?

Lanton - Hahahahha, transcrevo o seguinte: “os beefs são tão fracos q nem merecem resposta!” .


Edivaldo dos Santos - O que achas dos beefs?

Lanton- Os beefs ajudam a manter o nome, a dar nome, a dar prestigio, etc., têm o seu lado bom e o lado mau. É preciso é que o beef não seja levado de forma pessoal e ofensiva, “its all about strategy to make money” os beefs são necessários!


Edivaldo dos Santos - Tem algum sonho como produtor?

Lanton- Bem, já sou conhecido, reconhecido e respeitado em Angola, resta-me agora tornar-me internacional ao máximo para levar a bandeira de Angola ao pódio do orgulho nacional!!! Neste momento o meu principal objectivo é poder estabilizar a minha condição social, abrir um negócio fora da música, para que possa pensar em constituir família e ter um estilo de vida “folgado”, isso é um objectivo! Agora sonho é ir para os Estados Unidos e poder produzir todos os grandes artistas dos quais sou fã por duas razoes, pela satisfação própria e para lhes mostrar que de Angola saiu um puto muito bom que está ao nível dos americanos e que faz beats internacionais…e já falta pouco para isso acontecer.

Edivaldo dos Santos - Quer deixar alguma mensagem para os fãs, colegas e amantes do Hip Hop de uma forma geral?

Lanton - Obrigado, por se interessarem naquilo que sou, faz me sentir especial, dedicação, amor, humildade e força de vontade são preceitos importantes para alcançares os teus sonhos, e lembra-te, há momentos de tristeza, mas mais razoes pra ser feliz.
 
 Fonte: Mwangolê