Kyaku Kyadaff “Continuem a trabalhar arduamente, pois a sorte é uma ilusão”

Kyaku Kyadaff “Continuem a trabalhar arduamente, pois a sorte é uma ilusão”

O respeitado músico e compositor angolano Kyaku Kyadaff, com um disco no mercado intitulado “Se Hungwile”, revelou em entrevista à Angop, a luta que teve de enfrentar para conquistar o seu espaço na música angolana e ser considerado como um dos melhores cantores e compositores angolanos da actualidade.

Acompanhe a entrevista:

Angop: Kyaku Kyadaff, já notou a dificuldade que muitos têm em pronunciar o seu nome?

Kyaku Kyadaff (KK) - (Risos) Notei e acho falta de vontade para o correcto, pois é muito simples.

Angop: E o que significa?

Kyaku Kyadaff - Kyaku é um nome kikongo e significa “teu”. Já Kyadaff resultou da junção do meu primeiro nome (Kyaku), do nome da minha mãe (Fineza) e do meu pai (Fernandes). Foi a designação que escolhi ao princípio da carreira para me apresentar enquanto artista.

Angop: Estamos a falar de que ano?

Kyaku Kyadaff - Entre 2007 e 2008.

Angop: E foi nessa altura que concorre ao “estrelas ao Palco”?

Kyaku Kyadaff - Penso que sim. Infelizmente, não fui mais longe que a primeira fase do concurso.

Angop: Porquê?

Kyaku Kyadaff - Porque a segunda etapa de avaliação do concurso foi agendado no mesmo dia em que tinha prova de Estatística, cujo professor não perdoava a deslizes. Preferi, na altura, pôr em primeiro lugar a formação.

Angop: E arrepende-se da escolha?

Kyaku Kyadaff - De modo algum.

Angop: Mas “as hormonas” da música não lhe surgiram nessa altura, pois não?

Kyaku Kyadaff - Não. Sempre gostei de cantar. Acredito ter nascido com o dom da música. Mas, até ter-me superado, muita história rolou. Na região em que nasci, em Mbanza Congo, valorizava-se, na altura, ofícios como a carpintaria e pedreira. Nunca se falava de música como actividade laboral. É neste contexto, de desvalorização da música enquanto trabalho, onde cresci.

Angop: E foi este aspecto que lhe “empurrou” para o seminário?

Kyaku Kyadaff - De certo modo, sim. Tinha de ser alguma coisa, mesmo que fosse paralelamente à música. Aos 21 anos candidatei-me ao seminário na Lunda Norte. Cumpri uma longa viagem de Mbanza Congo para esta cidade com o objectivo de ser padre. Ao longo da minha formação no seminário, compunha músicas religiosas e acompanhava os cultos, tocando violão ou piano. Durante a minha permanência naquele local, fui igualmente regente e co-fundador do grupo coral da igreja. Feliz ou infelizmente, questões pessoais tiraram-me de lá antes mesmo de assumir um compromisso mais sério com a Igreja Católica.

Angop: Quando chega a Luanda, em 2004, vem com o propósito de encarar a música de forma mais séria e conquistar espaço na capital?

Kyaku Kyadaff - Não. Chego a Luanda com a intenção de me candidatar ao curso de Psicologia da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Durante esta fase, olhei para a música enquanto terapia. Nunca coloquei a formação em segundo plano, embora tenha sempre levado as duas coisas em paralelo.

Angop: Mas surge uma altura, pós-licenciatura, em que resolve dar uma oportunidade à música...
 
Kyaku Kyadaff - Foi em 2010, por altura do Campeonato Africano de Futebol que se realizou no país. Fui convidado, por intermédio de amigos, a cantar músicas do cancioneiro angolano para os integrantes de uma selecção de futebol concorrente, hospedada numa unidade hoteleira de Luanda. Foi uma forma de demonstrar a nossa cultura. Depois desta fase, o gestor deste espaço cultural convidou-me a cantar todas as sextas-feiras naquele local. Permaneci ali durante três anos e aproveitei este período para apresentar músicas escritas por mim.

Angop: Durante a sua permanência neste espaço, o público já o encarava como um músico sério?

Kyaku Kyadaff - De modo algum. Recebia alguns elogios, mas via-se claramente que para eles não passava de mais um aventureiro. Era, se calhar, reflexo do que eu apresentava na altura. Porém, ao meio deste processo e durante uma sessão na União dos Escritores Angolanos, onde passei igualmente a apresentar-me, a professora Rosa Roque, o professor Jomo Fortunato e a escritora Kanguimbo Ananás admiraram o meu trabalho e manifestaram interesse em apoiar a minha carreira. Foi igualmente nesta fase em que passei mais frequentemente a disputar alguns concursos de música. Perdi em quase todos, infelizmente.

Angop: Mas o cenário veio a alterar-se quando vence o Concurso Nacional de Trovadores...

Kyaku Kyadaff - Exactamente. Foi em 2011, ao meio dos melhores trovadores do país, que me consagrei vencedor. Lembro-me de ter ganho dez mil dólares. O meu primeiro prémio ao fim de longos anos de muita luta no campo musical. Fiquei muito contente e as pessoas mais próximas também. Com isso, granjeei algum respeito que serviu de combustível para continuar a viagem. As minhas esperanças rejuvenesceram ainda mais quando, no Huambo, conquistei também, naquele ano, o primeiro lugar no concurso de Música Popular Angolana (Variante).

Angop: Lembra como usou o dinheiro?

Kyaku Kyadaff - Deu para cobrir algumas despesas lá em casa e fechar alguns furos (risos).

Angop: Já naquela altura, sob a liderança do produtor Adão Filipe, tinha um disco em forja que nunca chegou a ser editado...

Kyaku Kyadaff - Sim, tinha. Comecei, juntamente com o Adão Filipe, a preparar um disco desde 2010. Esperei pela conclusão deste trabalho até 2013 e infelizmente não saía. Enquanto esperava por isso, fui ter com o produtor Chico Viegas, respondendo a um convite para participar no seu disco. No primeiro contacto que tive com o Chico apresentei a música “Entre Sete Sete Rosas” e ele gostou. Começamos assim a trabalhar nela.

Angop: Quando compôs este tema tinha noção que viria a se tornar no sucesso que é?

Kyaku Kyadaff - Tinha boas perspectivas, mas nunca pensei que fosse chegar no que é. Lembro-me de ter participado numa actividade no Chá de Caxinde, em 2012, e, enquanto aguardava pela remuneração do contrato (50 mil kwanzas), pus-me a fazer uns acordes no violão. E a primeira frase que emiti ao som dos acordes que fazia no violão era “não quero saber da dor, de ilusões e paixões”…E o resto da história é isso que todos assistimos.

Angop: Existem duas músicas "Me Chamam de Pacheco" e "Bibi", que também tiveram o seu público. Considera estes temas como as verdadeiras peças que impulsionaram a sua engrenagem musical?

Kyaku Kyadaff - Fazem parte da minha trajectória artística. Ajudaram-me a ser o que sou hoje, enquanto compositor. Sem dúvidas, as duas músicas fizeram com que o público descobrisse o Kyaku Kydaff.

Angop: Quando em Dezembro de 2014 esgotaram, num só dia, as 15 mil cópias que levou à Praça da Independência tinha noção de que um maior número de pessoas lhe esperava no local?

Kyaku Kyadaff - Sabia que as pessoas aguardavam com certa ansiedade o meu disco, uns porque gostaram das músicas de promoção do disco, outros porque queriam provar até onde ia a minha capacidade criativa. Porém, não esperava que estes dois grupos fossem superar o número de discos que levamos para a Praça da Independência. Tivemos de reeditar o disco urgentemente para responder à procura. Não podemos deixar mal os que respeitam e admiram o nosso trabalho.

Angop: E durante o período de formação artística do Kyaku, quais foram as suas referências?

Kyaku Kyadaff - Tive várias. Desde Teta Lando a James Brown. Ouvia muita música antiga, como a do cantor Cononô Molende - um artista angolano de raiz de quem nunca se fala, mas que compôs muita boa música.

Angop: Lançadas que estão as bases, está psicologicamente preparado para enfrentar o percurso artístico, incluindo o insucesso?

Kyaku Kyadaff - Não sinto receio algum em relação à carreira. Não gosto de ser famoso, mas sim do sucesso. A fama é um mero pormenor do sucesso. O amanhã não me incomoda.

Angop: Quais são os aspectos da fama que não caem bem para o Kyaku?

Kyaku Kyadaff - A falta de privacidade é para mim um grande problema.

Angop: E como faz para distanciar a sua esposa e a filha, de seis meses, deste grande problema como o chamou?

Kyaku Kyadaff - Tento preservar ao máximo a integridade das duas. Eu sou o músico e deve ser eu a suportar os encargos da carreira. Tenho recebido inúmeros convites de meios de comunicação social para participar, juntamente com a minha esposa, em programas de entretenimento, mas não aceito, pois julgo não ser o momento.

Angop: E ela concorda com isso?

Kyaku Kyadaff - Ela é filha de um pastor de igreja e a sua conduta moral não lhe deixa muito à vontade aos holofotes da fama. Ela concorda com a minha postura e apoia-me.
 
Angop: O que sentiu quando uma música trabalhada por si, “Paga que Paga”, consagra Ary como vencedora do Top dos Mais Queridos 2014?

Kyaku Kyadaff - Fiquei feliz por ela. A Ary é uma cantora super, uma voz linda, uma estrela no verdadeiro sentido do termo. Ela deu alma à música “Paga que Paga”, com a fidelidade que eu e o Camané Silva imaginamos quando juntos escrevemos este tema.

Angop: Após vários investimentos na carreira, já sente o retorno?

Kyaku Kyadaff - Sim, não posso mentir. Eu vivo da música. Com o que ganho dela, sustento a minha família e pago a continuidade da minha formação. Estou a fazer mestrado em “Governação e Gestão Pública”, na Universidade Agostinho Neto e sustento isso com o que vem da música.

Angop: Que avaliação faz ao percurso da música angolana durante as últimas três décadas?

Kyaku Kyadaff - Vejo um progresso significativo neste aspecto. Penso que estamos de regresso aos anos 60, que, para mim, foi o melhor período que a música angolana já viveu. Além de haver produção musical considerável, há também muita qualidade. Vejo todos os dias músicos amadores muito talentosos e que aguardam apenas uma oportunidade. Uma coisa muito importante nisso é que já há rendimentos que dão para sustentar quem aposta neste tipo de actividade. Ademais, a música angolana possui qualidade suficiente para continuar o seu processo de internacionalização, embora exija também muito mais trabalho.

Angop: Que mensagem deixa a quem queira se "aventurar" no mercado musical angolano?

Kyaku Kyadaff - Que continuem a trabalhar arduamente, pois a sorte é uma ilusão. É preciso persistir e manter-se digno aos bons princípios da vida.  

PERFIL

Kyaku Kyadaff é natural de Mbanza Congo, província do Zaire, a 29 de Junho de 1982. É formado em Psicologia pela Universidade Agostinho Neto (UAN).

Fonte: Angop

Rádio Jet7 Angola

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