Entrevista com KiKas: O nosso campeão do afrobasquete 2009

Natural do Município da Samba, Joaquim Brandão Gomes “Kikas”, cresceu e viveu no bairro Benfica, onde descobriu os dotes para o basquetebol. Desde essa altura tem sido um acumular de sucessos. Recentemente foi MVP do último Campeonato Africano de Basquetebol, realizado na Líbia, onde a selecção nacional conquistou o seu décimo campeonato. Kikas tem 28 anos de idade, é poste e mede 2,03m de altura. O atleta da selecção nacional e jogador do clube desportivo 1.º de Agosto revela como se fez uma estrela do basquetebol nacional.
 
Como surge o basquetebol na sua vida?

Comecei a sentir um “gostinho” pelo basquetebol na rua, no bairro do Benfica. Foi em 1994 e eu estudava na escola 108 onde havia um campo enorme de basquetebol, que facilitava a prática da modalidade. Na altura eu morava lá e estava a frequentar a 6.ª classe. A partir daí o “bichinho” pelo basquete começou a morder e criei o verdadeiro sentimento por este desporto.

Teve alguma influência da família?

Como eu era o mais pequeno de casa e estudava de manhã, passei a seguir a minha irmã Lúcia Gomes “Ducha” aos treinos dela. Naquela época ela representava o Atlético Petróleos de Luanda. Por falta de ocupação, decidi jogar muito basquete de rua, e alguns meses mais tarde comecei a jogar federado e a seguir os passos da minha irmã mais velha.

Depois daí passei a amar o basquete. No bairro do Benfica estava muito distante
 
 
 

para chegar aos treinos, mas anos depois o Petro ajudou-me a pedir transferência para vir estudar na cidade e facilitar os treinos.

Era o filho mais novo?

Sou o mais novo de sete irmãos. Agora vivo na Praia do Bispo com os meus pais.

Quem o incentivou a abraçar o basquetebol federado?

Muito sinceramente o grande incentivo pelo basquetebol, ainda que indirectamente, veio de certeza através da minha irmã. O verdadeiro sentimento só nasceu depois de assistir aos treinos da “Ducha”. Via os treinos dos seniores e apaixonei-me pelo basquetebol.

No início encarava a modalidade como uma diversão?

Para ser honesto comecei a jogar por diversão, mas em muito pouco tempo descobri logo que poderia fazer algo importante, algo especial e comecei a ganhar consciência que um dos meus sonhos era chegar à selecção nacional.

Era um simples iniciado mas já tinha a intenção de chegar à selecção nacional. Porquê?

Comecei a ter consciência dos meus dotes, daquele pequeno talento que tenho ou que tinha, a partir do momento que comecei a treinar. Foi muito difícil afirmar-me, mas o amor pelo basquetebol fazia-me crer que chegaria à selecção nacional.

Quando é que passou de iniciado para um outro escalão?

Não me recordo muito bem qual foi a data. Digo sempre que tive muita sorte e acredito que a sorte acompanha aqueles que acreditam e trabalham. Para além do trabalho duro é preciso acreditar, ter vontade de vencer e ter espírito de sacrifício. Desde que comecei a jogar sempre fiz tripla categoria. Só no primeiro ano de basquete é fiz apenas dupla categoria: comecei a jogar iniciados A e fazia parte da equipa B de cadetes. No ano a seguir houve uma evolução muito grande da minha parte e passei a fazer tripla categoria: iniciado, juvenis e juniores. Dois anos depois continuei neste processo de evolução muito rápido e deixei de ser iniciado, passei a fazer juvenis juniores e seniores. Desta forma, fazia três jogos por semana e para mim ajudou-me mesmo muito na minha evolução.

Como é que conciliava a formação académica e a formação desportiva?

Isso foi muito fácil porque estudava no período da manhã e os treinos eram de tarde. Não tive nenhuma dificuldade em conciliar as aulas e o desporto.

Como é que a família reagiu quando tomou conhecimento que, para além das aulas, também estava a praticar desporto?

Na altura só estava a estudar a 6.ª classe... Quando conclui a 6.ª classe entreguei-me totalmente ao basquete. Desde o momento que comecei a treinar sabia que tinha que deixar o bairro do Benfica porque ficava muito distante e era complicado assistir aos treinos. Ir treinar depois da escola era mesmo uma dor de cabeça. Comecei então a estudar no Muto Yakevela com a ajuda do Petro. A minha mãe teve uma má reacção, achava que os treinos podiam a afectar os estudos. Foi muitíssimo complicado para mim e para ela tomar esta decisão.

E para o seu pai?

O meu pai sempre deu todo o apoio desde o início. Disse que eu era livre de fazer aquilo que bem entendesse, mas com responsabilidade e desde que conquistasse os meus objectivos, que na altura eram não faltar à escola, ter boas notas e saber repartir o tempo.

Como é que a sua mãe reagiu quando o viu pela primeira vez na televisão?

Assim que comecei a treinar arduamente a minha mãe foi consciencializando-se que era aquilo que eu queria. Ela percebeu que eu estava a divertir-me e que, acima de tudo, estava a crescer e a tornar-me um homem. Com o passar dos anos ela foi assistindo à minha evolução. Via-me na televisão e começou a gostar. Hoje acredito que é uma mãe feliz, tal como o meu pai e a restante família.

Quem foi o primeiro treinador do jogador mais valioso de África ?

Bem, o meu primeiríssimo treinador foi o senhor Gerson Monteiro, um dos membros do Petro de Luanda. Um mês depois “passei para as mãos” do senhor Anselmo Monteiro, que ensinou-me muito acerca de basquetebol. É uma pessoa a quem eu devo muito e aproveito a oportunidade para agradecer todo o apoio.

Em que ano estreou-se na alta competição ?

Estreei-me na alta competição em 1997 na equipa principal do Petro de Luanda, mas não me recordo do adversário.

E na selecção nacional?

No mesmo ano estreei-me na selecção nacional depois do Afrobasket do Senegal, que Angola perdeu. Após o campeonato, a selecção foi convidada a participar num torneio no Senegal. Foi a minha primeira participação internacional, exceptuando os juniores e Sub20.

Quantos troféus conquistou com a camisola do Petro?

Conquistei vários títulos em diferentes camadas. Com a camisola do Petro tenho cinco títulos: três títulos de campeão nacional e duas taças de Angola.

Foi estudar para uma universidade nos Estados Unidos da América. Que dificuldades sentiu?

Estive na Universidade Vale Paraíso de Indiana. Em primeiro lugar foi mesmo a língua e depois a cultura. Foi muito difícil a adaptação mas consegui.

E quanto ao basquete. Há diferenças na forma de encarar a modalidade?

É muito diferente. O americano vive pelo basquetebol. Eles têm instalações incríveis, aprendi muito e treina-se de uma forma muito intensa. São grandes conhecedores do basquetebol, por isso para mim foi uma experiência enorme.

De regresso Angola porque representa o 1.º de Agosto ao invés do Petro ?

Foi o Petro de Luanda que me convenceu a voltar para Angola. Mas infelizmente, o pré-acordo que tivemos enquanto estive fora não se concretizou. Eu não tive outra opção. Tenho que dar continuidade ao meu projecto e ingressei no clube 1.º de Agosto, que é o clube que represento até agora.

Fale-nos um pouco das principais dificuldade que a selecção encontrou no último campeonato?

Tivemos muitas dificuldades de adaptação ao palco da prova. O governo líbio não aceitou os nossos excursionistas, e isso abalou-nos muito. As outras selecções estiveram bem preparadas física e tacticamente e criaram-nos muitas dificuldades.

Como é a relação entre jogadores e clubes ?

Dentro do campo nós, os jogadores, temos uma relação muito boa. Há aquela rivalidade entre o Petro e o 1.º de Agosto mas isso é normal, faz parte do desporto. Fora do campo temos também uma relação muito boa, somos amigos. Em Angola as equipas são muito poucas, temos de estar unidos.

Os salários que auferem já permite ter uma vida normal?

Felizmente ao nível de clube já dá para ganhar bem. Em termos de selecções ainda não somos recompensados devidamente.

A vossa alimentação é aconselhada pelo nutricionista ou cada um alimenta-se segundo a sua vontade?

Nós comemos o que nos apetece. O atleta angolano tem uma estatura física muito pequena principalmente no basquete, por isso quando se trata de alimentação quero sempre aumentar de peso para não ser empurrado pelos nigerianos e senegaleses. Mas depois há aqueles conselhos normais sobre o que não se deve comer antes dos jogos: alimentos com muita gordura, por exemplo.

Desde o campeonato na Líbia houve algum emblema que o quisesse contratar?

Tive várias propostas que não foram nada aliciantes. Se aparecer alguma coisa que seja benéfica de certeza que vou levar em consideração. De momento estou feliz aqui no 1.º de Agosto. E é aqui que vou continuar por mais um ano, a minha 3.ª época.

Qual é o jogador que mais admira no basquete internacional?

Lebron James pela sua habilidade física e, sobretudo, pelo talento.

Para além de ser feliz no 1.º de Agosto qual o clube que gostaria de representar?

Nunca escondi a possibilidade de jogar na NBA, mas também gostaria de jogar em Barcelona. Já tive alguns convites, mas em Espanha só permitem dois estrangeiros em cada equipa.

Gosta de noitadas?

Sim. Frequento a noite sempre que posso mas tento não exagerar. Gosto de me divertir e reencontrar velhos amigos.

É casado ?

Não sou casado e não tenho filhos. Vivo com os meus pais.

Fora dos campos que tipo de roupa gosta de vestir?

Depende muito da ocasião. Mas prefiro estar o mais simples possível até porque Angola é um país muito quente.

Terceira temporada ao serviço do 1º. de Agosto


Depois de cinco títulos conquistados ao serviço do Petro, Kikas vai cumprir a sua terceira época no 1º. de Agosto. O ano passado foi de ouro. O clube ganhou o campeonato nacional e a Liga dos Clubes Campeões de África. E Kikas venceu o segundo Afrobasket. Em 2010 o maior desafio será o Mundial da Turquia, de 23 de Agosto a 5 de Setembro, nas cidades de Ancara, Antália, Esmirna e Istambul.

o mais valioso


Kikas esteve em “alta” no último Afrobasket que decorreu na Líbia. A selecção nacional conquistou o décimo título e Kikas foi considerado o jogador mais valioso do campeonato. Refira-se que o jogador do 1º de Agosto sagrou-se campeão dos dois últimos Afrobasket.

Perfil

  • Nome completo: Joaquim Brandão Gomes
  • Idade: 28 anos
  • Altura: 2,03 m
  • Peso: 105 kg
  • Calçado: 48
  • Música: n.º 10 do álbum Amor e Festa na Lixeira
  • Bebida: Coca-Cola
  • Carreira: 15 Anos
  • Jogador que admira: Lebron James
  • Jogo mais marcante da sua carreira: Angola x Alemanha no Mundial de 2006
 
Fonte: Opaís

Rádio Jet7 Angola

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