Kayaya Júnior: Um sénior da moda angolana

É um homem carismático por natureza. Frederico Gonçalves Júnior ou Kayaya Jr. é um dos maiores impulsionadores de talentos na área de entretenimento e produção de eventos em Angola, quer na moda, como na música e não se fica por aí. No entanto, é como director de Produção da agência Step Models que o encontramos para esta entrevista.

 

Sempre descontraído e responsável, Kayaya falou sem tabus e convencionalismos. “Sou um homem de ideias”, definiu-se desta forma logo no início da conversa.

 

Apesar de estar disponível deixou claro que a qualquer momento a poderia interromper se a sua Princesa do Gulungo, a sua esposa, a bancária e também modelo Adalgiza Gonçalves ligasse. Como o próprio explicou “há pessoas que nunca podemos deixar de atender”. Assim é Kayaya Jr.

 

Como começou a sua carreira?

O início da minha carreira resumi-se ao gosto que tenho pelo entretenimento. Responder exactamente como começou não conseguirei pois foi há bastante tempo. O mundo da moda foi o início de tudo. Foi respondendo o convite de um produtor português que tudo começou, aceitei o desafio com muito boa vontade e depois acabei por fazer um curso para aprimorar-me como manequim.


Teve apoio dos seus familiares na época?

Confesso que nem sim nem não, porque vivia sozinho. Da parte da minha mãe o apoio foi incondicional, mas por parte do meu pai não, talvez por também não conhecer muito bem a profissão de modelo.

Fui um dos primeiros modelos angolanos de sucesso internacional.

Qual era a reacção das pessoas ao saberem que é angolano?

Na altura já existiam alguns modelos angolanos conhecidos, como a Ana Moura e a Riquita. Fui o primeiro manequim negro a trabalhar de bigode em Portugal e isto causava algum espanto. Quanto à minha nacionalidade, nunca foi um tabu para mim, existiam sim algumas pessoas que reagiam ao facto de eu ser angolano de uma maneira um tanto quanto pejorativa, mas o engraçado é que muitos deles hoje trabalham e vivem em Angola.


Como surgiu a Step Models na sua vida?

A Step surgiu num momento de mudança na minha vida, e na própria indústria de entretenimento em Angola. Na altura trabalhava na Óscar Gil Produções e não tinha a ambição de abrir uma agência, pois sempre estive mais ligado à produção de eventos do que ao agenciamento de modelos, pois é algo que deve ser feito com muito cuidado e profissionalismo. A ideia da Step foi da Karina Barbosa, e quando ela contactou-me confesso que fiquei com algum receio pelos motivos que já disse e não só, mas tem corrido tudo muito bem até agora, passados já oito anos.

Existem várias controvérsias sobre Karina Barbosa. Como é tê-la como sócia neste projecto?

Bem, sem querer ferir sensibilidades, nós seres humanos temos muita dificuldade em aceitar a diferença, aceitarmos o novo, e reconhecermos e criticarmos de forma positiva o trabalho alheio. São várias as pessoas que dizem não gostar da Karina e quando pergunto porquê, já que na sua maioria nem a conhecem e nunca conviveram com ela, simplesmente não justificam. Eu espero que as pessoas aprendam a respeitar pelo menos, pois ninguém é obrigado a gostar dela, mas que a respeitem como óptima profissional que ela sempre foi.


Também já ouviu rumores negativos sobre a sua amizade com Fernando Miala...

Este assunto é um tanto quanto engraçado porque, eu conheço o Miala há bastante tempo. Existe uma amizade entre nós há vários anos. Muita gente criticou o facto de durante a sua detenção eu ter ido visitá-lo, e acho que isso só prova que muitos têm perdido o lado humano, pois como amigo dele foi meu dever estar ao seu lado no momento em que ele mais precisou de apoio.


A sua esposa, que carinhosamente apelidou de Princesa do Gulungo, também é modelo. Como nasceu este amor?

O nosso amor nasceu de uma forma muito curiosa. Um dia estava a ver o website do Comité Miss Angola, coisa que não faço normalmente, já que nem sou muito de estar ligado ao computador pois prefiro um bom livro. A foto dela chamou-me atenção desde o primeiro instante, ela foi Miss Kwanza Norte, e daí vem também este apelido carinhoso, e eu fiquei completamente apaixonado pelo sorriso da Adalgiza. Depois de um tempo, um amigo meu, o David, deu- -me o contacto telefónico e mesmo assim não consegui falar com ela. Mas como o que está predestinado sempre acontece, encontrámo-nos num evento e foi daí que surgiu este amor que já nos deu duas filhas lindíssimas, a Luna e a Alessandra.


É pai de quatro meninas, como reagiria se elas quisessem ingressar para o mundo da moda?

Reagiria de uma maneira muito natural, respeitando as opções delas. Daria os mesmos conselhos que dou a todos os jovens que entram aqui na Step Models, com o sonho de serem modelos: aviso dos riscos, das vantagens e desvantagens e digo para que acima de tudo se divirtam. Em relação as minhas filhas tanto a Andreia como a Luana acabam por estar ligadas ao mundo da moda, assim como o meu filho Bruno. E, como pai, tenho alguns receios, mas a minha reacção tem sido a mais natural possível, pois o que mais me importa é que eles tenham melhores condições de trabalho que eu e que sejam muito felizes.


As noites de domingo são mais animadas no Miami Beach. Como iniciou este projecto?

O Domingo Vivo nasceu de uma ideia que eu tive de fazer um talk show informal para a televisão, mas na altura ainda não existia esta abertura televisiva, tal como agora já temos na Tv Zimbo e na própria TPA. Entretanto, do plano de fazer uma demonstração de como seria produzido o programa, convidei o cantor Nelo de Carvalho para a animação musical das noites de domingo do restaurante Miami Beach e, após seis meses, o Domingo Vivo continuava a animar e encantar a todos, e acabou por ganhar o seu próprio espaço, tornando-se a Casa dos Artistas há mais de treze anos. Vários foram os talentos da música e não só que foram descobertos e tornaram-se mais famosos graças ao Domingo Vivo, e estamos sempre dispostos a valorizar os novos talentos do nosso país e não só, claro. É um espaço de diversão, boa música, bom ambiente, enfim, quem frequenta sabe o quanto é bom. Eu também acabo por aproveitar para descontrair do stress semanal.


Para si, como está a ser o desenvolvimento da moda em Angola?

Esta é uma situação crítica e polémica. O desenvolvimento da moda em Angola está no mesmo estágio de há dez anos atrás, eu digo isso porque divido a moda em duas áreas: a de prestação de serviços para a indústria da moda, que é a das agências de modelos, produtores, que até certo ponto evoluiu, desenvolveu de maneira positiva. Porém, a segunda área que acaba por ser muito mais importante, que é a de industrialização da moda está estagnada no meu ponto de vista. Temos criadores mas, eles não têm quem os direccione, uma instituição que acompanhe o talento deles. A moda angolana pode ter um desenvolvimento integrado, positivo, consistente, se o lado institucional perceber a importância da moda em Angola, com a criação de uma escola de Estilismo, o que acaba de ser uma responsabilidade do Ministério da Indústria, pois a moda antes de ser um factor cultural, é um factor industrial e então cabe ao Ministério congregar as pessoas que gostam de moda, evitando assim as confusões básicas que têm surgido entre criadores, produtores e manequins. O bom é que mesmo com as debilidades existentes, temos descoberto novos e bons talentos, e creio que não falo só por mim quando exprimo a vontade de maior desenvolvimento da industrialização da moda.


Mudaria alguma coisa na sua trajectória?

Talvez sim. Enquanto emigrante tive de estudar e trabalhar, pois não tinha um grande suporte financeiro e acabei por abdicar dos estudos para apenas trabalhar, e disso arrependo-me, de ter desistido da conclusão da minha formação académica. Acabei por compensar com o curso de Artes Cénicas e de Gestão Hoteleira, mas sempre penso qual teria sido o rumo da minha vida se tivesse concluído os meus estudos.


Quais são os planos que tem já traçados para 2010?

Pessoalmente, gostaria muito de fazer um programa de televisão a sério. Já tive uma experiência na TPA e gostaria de voltar a viver esta aventura de uma maneira mais profissional. Também empenhar-me mais na arte de actuação em cinema. Depois, desenvolver ainda mais projectos como o “Prêt-a-Porter, Moda pela Educação” que consiste em montar bibliotecas em escolas públicas, e o Step Look, que não se limita em encontrar apenas manequins, mas sim preparar e filtrar jovens para trabalharem no mundo da moda. E também representar Angola na Expo Shangai de 2010, que já está praticamente toda organizada, pois tenho grandes expectativas, já que em 2005 estive presente na Expo que decorreu no Japão e encantei-me pela organização, quer do evento como do país em si. E claro, continuar a primar pelo profissionalismo e respeito ao próximo.

 

perfil

  • Nome: Frederico Gonçalves Junior (Kayaya)
  • Data de Nascimento: 23 de Agosto de 1967
  • Estado Civil: Bem resolvido com a minha princesa do Gulungo Alto
  • Profissão: Produtor de Moda/Shows e gestor hoteleiro
  • Historial profissional Muito longo. Trabalho principalmente como produtor com a categoria de director de produção
  • Filhos: Cinco (quatro meninas e um rapaz)
  • Prato preferido: Como de tudo desde que esteja bem feito. A apresentação é muito importante. Mas gosto muito de um cozido de bacalhau com todos
  • Livro que mais o marcou: Não tenho um em especial, porque sou um leitor compulsivo. Leio de tudo e muitos autores marcaram-me de uma forma ou de outra
  • O que menos gosta nas pessoas: A falta de ética
  • Discoteca: Nao tenho uma discoteca de que goste em particular. Mas gosto do Miami Beach para passar uma noite agradável
  • Restaurante: Aquário, um restaurante que descobri no Namibe que é formidável em todos os aspectos. Boa comida aliada ao bom atendimento só pode ser muito bom para quem como eu que gosta de comer bem
  • Locais de culto em Angola: “Domingo Vivo” no Miami Beach, Restaurante “Cais de 4” ao fim do dia com um petit gateau à frente
  • O que mais gosta nas pessoas: A simplicidade, o sorriso quando sincero
  • Profissional ou figura que tenha como exemplo de vida para si General Fernando Garcia Miala. Pela coerência e ética demonstrada. Um exemplo para muitos
  • Países pelos quais já viajou e que mais o tenham marcado: Japão, por ser um país com um simbolismo muito grande e um respeito a vida humana muito grande. Angola, por ser a nossa terra e porque tenho descoberto maravilhas ao longo das visitas em trabalho que temos feito pelo país
  • 3 segredos: Não sabe nadar; é muito caseiro; é apaixonado pela leitura.

 

Fonte: O País

Rádio Jet7 Angola

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