Jelson Quintas: 1 ano após ser eleito Mister solidário

Faz este mês um ano que, Jelson Quintas foi eleito Mister Angola 2009. O rapaz de 18 anos nunca tinha sido modelo mas destacou-se entre mais de uma centena de candidatos e, durante um ano, foi símbolo da beleza angolana no masculino. O sonho do Mister começou em 2004. “Estava com uma prima em casa a ver uma revista e reparámos no Mister daquele ano, o Ricardo Fernandes. Desde esse momento achei o concurso interessante e pensei em concorrer. Tratei de saber os requisitos para me candidatar e vi que, naquela altura não podia porque ainda era menor”, conta Jelson Quintas.

 

Ajuda de irmão

 

Mal atingiu a maioridade, e com muito apoio e alguns conselhos dos amigos e familiares, o jovem resolveu participar no concurso Mister Angola. A primeira fase foi o casting na discoteca Palos em Luanda. Jelson Quintas fez-se acompanhar pelo irmão mais velho que acabou também por participar na eleição. “Quem tem experiência no mundo na moda têm mais facilidades.

Eu tinha apenas algumas noções básicas. A maioria dos participantes já sabia desfilar. Quando me pediram para fazer o desfile de sunga eu fiquei tímido. Mas meu irmão estava lá para ajudar”, conta. Apesar dos participantes com alguma experiência enquanto modelos partirem com vantagem, Jelson Quintas e o irmão ficaram entre os 18 finalistas.

 

Seguiram-se dois meses de preparação com aulas de etiqueta, moda, comunicação interpessoal, comportamento à mesa e numa gala, lidar com o público, imagem, ângulos para fotografia, filmagens.

“Durante esse tempo fizemos muitas amizades, claro que com algumas pequenas rivalidades. Tudo coisas normais entre rapazes”, confessa.

Desde o princípio que um pequeno grupo, onde se incluía Jelson Quintas, se destacava perante os olhos da organização. A eleição, no dia 22 de Novembro de 2008 no Mussulo, veio comprovar o favoritismo de alguns rapazes. Mas um pequeno deslize algumas horas antes podia ter deitado tudo a perder, como conta o Mister.


Peripécias de concorrente

 

“No dia do concurso acordámos bem cedo com um sol muito forte e fomos correr para a praia. Apareceu um familiar de um dos nossos colegas que estava numa casa ali perto e ofereceu- -nos pequeno-almoço, resolvemos ir porque era perto e nem avisámos a organização, algo que não se pode fazer. Para regressar tivemos de apanhar um barco para voltar ao local da gala e a organização já estava em pânico à nossa procura. Fomos apanhados, tivemos mau comportamento e isso é um perigo, conta muito no resultado do concurso. Mas fomos perdoados”. No final dessa noite estava encontrado o Mister Angola 2009: Jelson Quintas.

Depois do concurso o mundo da moda abriu portas para o jovem. Hoje em dia faz trabalhos publicitários e participa em eventos de moda como o Angola Fashion Week.

Como prémios por ter sido o vencedor recebeu uma viatura, um guarda-roupa completo, uma inscrição num ginásio durante um ano e uma viagem ao Brasil. O Mister visitou o Rio de Janeiro pela primeira vez e desfilou numa das escolas de samba mais importantes do país, a Beija Flor. “Fui no primeiro carro, no abre-alas e vi tudo. Foi uma emoção muita grande, vi o presidente Lula da Silva, vibrei mesmo como um brasileiro”, confessa entre sorrisos. No Brasil fez também o seu primeiro book de modelo.


Mister Psicólogo

 

No ano em que é consagrado Mister Angola, Jelson Quintas entra também na faculdade para estudar Psicologia. Filho de uma médica, o modelo sempre quis estudar Medicina mas acabou por ingressar em Psicologia. “Acho que sou um bom conselheiro, converso bem com as pessoas. Gostava também de fazer o curso de Gestão de Empresas porque o meu pai é empresário e gostava de o ajudar nas empresas. Como ainda sou novo penso que vou a tempo de fazer muitas formações”, justifica.

Por conta da entrada na universidade a carreira de modelo neste momento é vivida em part-time. “É muito difícil conciliar a moda com os estudos e ainda o desporto. Dou prioridade aos estudos. Tudo isto pode dar um futuro bom, dinheiro e sucesso, mas uma pessoa formada é incomparável”. Sempre que pode participa em eventos de moda e olha para o sector com capacidade de análise. “Em Angola temos o mais importante para crescer: a vontade de realizar. Temos tido vários eventos de moda importantes. Acho que falta só um pouco mais de organização, alguns detalhes”.

 

Da Rússia para Angola

 

Por capricho do destino Jelson Quintas nasceu na Rússia. A Mãe do Muxico e o Pai do Kwanza Norte foram para a antiga União Soviética estudar e conheceram-se na cidade de Stavrapoll, onde viria a nascer Jelson Quintas. “Era o único rapaz africano e negro da cidade. Todos os outros estudantes angolanos como os meus pais estavam lá sem os filhos”, conta. “Foram tempos muito bons. Acho que foi a melhor fase da minha vida. Lembro até hoje e quem me dera voltar. As pessoas tinham muito carinho por mim: professores, colegas, pais de colegas. Era uma criança muito dinâmica, muito traquina também, estava sempre a jogar à bola, era craque em todas as modalidades. Na altura cantava bem e participava sempre em eventos de música e teatro”, relembra com saudade.

 

Volta a Angola aos 14 anos, “completamente esquecido da língua portuguesa, só entendia algumas coisas”, diz. Sair da Europa para África acarretou uma grande mudança. “A primeira vez que a minha irmã e eu fomos ao mercado ao pé de casa ficamos surpresos: víamos de um lado mulheres a trançar o cabelo, outras a vender e comida, e mais à frente um grupo a jogar. Olhávamos para aquilo tudo misturado e perguntávamo--nos como era possível. Mas adaptámo-nos rápido. Era o nosso país”.

Para entrosar-se melhor na nova realidade, no seu novo país começa a treinar basquetebol no clube 1.º de Agosto. Foi um caso sério de simpatia. “Aí era o rapaz novo que vinha de fora e suscitei muito interesse nos colegas que começaram a aproximar- -se de mim e fiz muitos amigos assim. Eu era muito curioso, perguntava tudo e foram ensinando-me a língua”. Nessa altura estava longe de saber que viria a ser símbolo da beleza masculina angolana.

 

Tímido por auto-defesa

 

A eleição como Mister Angola 2009 trouxe-lhe também a obrigação de viver com a fama e o contacto com o público. “Vivemos numa sociedade, principalmente em Angola, mas em toda a África é assim, onde as pessoas se interessam muito, são muito curiosas em saber. Quando se entra neste mundo da fama as pessoas querem muito saber o que tu és, o que fazes. Por um lado, isso é bom, mas por outro é péssimo. Por vezes saio para ir ao cinema ou uma festa e as pessoas apontam “Olha o mister!”. Cada um olha da sua própria maneira, uns fazem críticas, outros elogiam, outros ganham coragem e vêm falar. Pedem para tirar fotos e o número de telefone”, descreve com bom humor. A namorada de Jelson Quintas não gosta muito dessa situação mas “entendemo-nos”, diz sorrindo.

Tudo situações que o jovem encara na desportiva. “Gosto de conversar e fazer bons amigos. Aquele que tem muitos amigos amanhã pode ser presidente”, afirma.

A faixa de Mister Angola, Jelson Quintas entregará, no final do mês, ao seu sucessor e promete continuar a ser o mesmo rapaz de sempre: “Amigo dos meus amigos, simpático, um pouco tímido e envergonhado. Muitas pessoas acham que eu tenho a cara sempre trancada, que sou armado. Mas isso acontece por ser tímido, é auto-defesa”, garante, concluindo que “Sou um jovem completamente normal que ama muito a sua família”.

 

Em que é que a sua vida mudou depois da eleição?

Acho que a minha vida mudou logo no dia seguinte. Durante os 2 meses de preparação tinha uma vontade muito grande de ganhar. Depois da vitória tive esse sentimento de conseguir concretizar um objectivo de vida. Mais tarde senti que ganhei uma maior responsabilidade em vários aspectos da minha vida. Passei de menino para moço. Agora dou exemplos às minhas irmãs. Foi uma fase de mudança, fazer 18 anos e ganhar o concurso, obtive a carta de condução, e entrei para a Faculdade onde estou a estudar Psicologia. Entrei no mundo da moda.


Quais os seus estilistas preferidos?

Nadir Tati, António Augustus. Internacionais gosto muito do português Nuno Gama. Um dia gostava de desfilar para a D&G e Armani.


Quais os manequins que mais admira?

O mister Ricardo Fernandes, apesar de muitos criticarem por não possuir alguns requisitos como a altura. É uma pessoa que tem vontade de ser famoso, de aparecer e isso é importante para um mister. Como modelo admiro muito o Cláudio Furtado, que foi o mister que me entregou a faixa e está a desfilar para a Boss. Gosto muito da Karina Silva, sempre teve tudo para ir mais além.


A fama é importante?

Temos de saber gerir. Se não gerirmos bem a fama passa a ser ridícula. Quando se aparece muito aborrece.


Que projectos pessoais alimenta?

Continuar a estudar. Espero daqui a três anos ser uma pessoa formada, trabalhar, ser independente como é o sonho de todos os jovens, ter um dia uma família.


O casamento está nos planos?

Sonho casar e ter três filhos. Mas isso não depende da idade, espero criar primeiro condições para ter uma família.


Vai custar entregar a faixa de Mister no final deste mês?

Tem um ditado que diz “Miss uma vez, Miss sempre”. Acho que se pode aplicar também para aos Mister. Não concordo com a expressão “ex-Mister”, serei sempre o Jelson Quintas, Mister Angola 2009. Vai haver um novo Mister e eu lá estarei para ajudar no que for preciso. Quando me despedir do título vou voltar a fazer coisas que gosto muito: andar a pé, jogar basquetebol na rua...

 


Doar sangue - A causa de Jelson

 

Após a eleição do Mister Angola a organização escolhe um projecto que o vencedor deve apoiar durante o seu mandato. Jelson Quintas teve em mãos a Doação de Sangue. “Muitas pessoas perdem a vida nos hospitais por falta de sangue. O povo angolano ainda não está sensibilizado para esta questão. Durante um ano estive a incentivar os jovens que têm sangue saudável a doar. Fiz campanhas em várias escolas e falei sempre desta questão em todos os eventos em que participei”, explica o jovem.

Com emoção conta um caso em que ajudou uma menina que lhe telefonou certo dia. “Dizia-me que estava no Hospital do Prenda com a irmã pequena, que se encontrava muito mal e precisava de sangue. Não era o meu tipo de sangue e por isso não pude ser eu o dador, mas andei por todos os hospitais à procura e consegui o sangue. Salvámos a vida dessa menina”, conta emocionado.

 

Jelson Quintas é obreiro de uma outra campanha solidária de carácter pessoal. O Mister está muito envolvido na ajuda ao Beiral, um lar que acolhe pessoas da terceira idade. “Ainda tenho avós com vida e conheço o sofrimento de alguns mais velhos. São pessoas que já batalharam muito por nós, já deram muito, muitos estiveram na guerra. Vejo que muitas pessoas abandonam os seus pais, dizem que são feiticeiros, outros são velhos e estão a incomodar porque a casa fica pequena para tanta gente e querem-nos tirar de casa. No centro falta sobretudo alguém que esteja a conversar com eles, lhes conte histórias, dê carinho. Fiquei muito sentido quando os visitei e gosto muito de os ajudar”.

 

Para conseguir esse objectivo organizou uma angariação de fundos numa Gala no Hotel Trópico com a presença de várias pessoas do mundo da moda e do espectáculo. O leilão de garrafas de vinho ajudou a obter fundos. Apesar do mandato como Mister Angola terminar no final deste mês, Jelson Quintas garante que vai continuar a apoiar a instituição. Para tal, propôs um projecto à Unitel para criação de um número de telefone de valor acrescentado para onde as pessoas podem ligar e contribuir com donativos para o Beiral.

 

Pérfil
 

•Nome: Jelson José Avelino Quintas
•Data de Nascimento: 5 de Março de 1990
•Naturalidade: Stavrapoll, Rússia
•Prato preferido: Arroz com feijão, frango e salada russa “Como quase tudo”
•Perfume: Cartier
•Cinema: “Adormeço sempre mas gostei do Freddy Krueger”
•Música: House music, dance music e rap, David Guetha, Bob Sinclair, Pedro Casanova, DJ Malvado, DJ Darcy, Ricardo  e Paulo Alves
•Noite: Dom Quixote, Éden, Chill Out
•Qualidade que admira: Sinceridade
•Defeito que mais detesta: Mentira, falsidade
•Cidade: Luanda, “Daqui ninguém nos tira”

 

Fonte: O País

Rádio Jet7 Angola

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