Entrevista com o músico angolano Konde

Zouk, trovas, bolero e coladera. O novo álbum do músico Konde é uma mistura de influências e ritmos de diferentes origens. “É o álbum que sempre quis fazer”, resume o músico de 28 anos. Depois de ter atingido a fase final do Top dos Mais Queridos 2008, com o tema “Também me Amavas”, do álbum Minhas Mágoas, Konde prepara-se para lançar o seu novo álbum a solo, Kianda Luanda.

 

O disco chega às bancas a 15 de Novembro numa apresentação na Praça da Independência, enquanto o videoclip promocional da música “Não quero nada” já está a passar nas televisões. “Depois das pessoas estarem bem ligadas às novas músicas vamos, então sim, realizar os espectáculos”. Março de 2010 é a data prevista para um grande show de Konde.

Estamos em vésperas do lançamento do terceiro álbum do Konde. Que disco é este?

Kianda Luanda, assim se chama o CD, é muito versátil em termos de estilos. Temos zouk, trova, bolero, e até o género cabo-verdiano coladera. Metade são músicas para a pista de dança, como já habituei as pessoas a ouvirem, e também semba, numa faixa que dá título ao CD, e que há muito tempo não fazia. Tentei utilizar de tudo um bocadinho aquilo que eu investiguei e que gosto de fazer.

Quais as principais novidades em relação ao álbum anterior?

Agora já apresento a minha música com mais instrumentos. Está presente também a influência cabo--verdiana. Defendo que temos sempre de evoluir, e penso que com o álbum Kianda Luanda demonstro crescimento. Após o segundo álbum as pessoas pressionavam um pouco, diziam-me que tinha jeito para interpretar os grandes clássicos angolanos e pediam-me para fazer este estilo de música. Diziam-
-me que estavam habituados a ouvir canções bonitas na minha voz e gostariam de, um dia, “ter essas músicas em CD para ficar em casa a ouvir e recordar dos bons momentos”. Desta vez fiz questão de o fazer. Só não o tinha feito anteriormente porque não havia condições para gravar uma música acústica com esta dimensão. Temos de variar um bocadinho, deixar uma marca. Acredito que quando ouvirem, as pessoas vão identificar-se logo.

De onde vem o nome artístico Konde?

O apelido vem desde a infância. O meu nome é Kôndua mas sempre fui chamado pelo diminutivo de Konde. E o nome foi ficando. Quando me tornei artista decidi manter este nome.

 

Como nasceu o Konde enquanto músico?

Considero-me músico profissional há seis anos quando lancei o meu primeiro álbum.
Mas comecei a cantar, por influência de amigos, faz já 10 anos no meu bairro do Cassenda. A partir de certa altura os meus amigos deixaram de jogar à bola e passaram a fazer música e eu tinha de estar com eles a ouvir e a tocar. Lá no grupo já havia um guitarrista e um pianista e precisavam de um cantor. Comecei na brincadeira, como intérprete, imitando várias músicas. Depois ganhei gosto por aquilo e não larguei mais.

Só cantava ou aprendeu a tocar instrumentos?

Aprendi também violão. Tocávamos para os amigos em festas de família. Tive a sorte de me destacar entre os três e começar a fazer música profissional e consegui chegar até aqui. Cantava músicas modernas que as pessoas já estavam habituadas mas comecei também a tocar os clássicos da música angolana. Fui-me levando pela melodia, passei pelos bares e fazia música ambiente. Passei quase por todos os bares da Ilha de Luanda, Miami, Caribe, Tamariz, Cocunuts e Baía no centro de Luanda. Fui forçado a fazer zouk e kizomba porque achei que era o que me destacava mais entre os outros músicos.

Frequentou alguma escola de música ou foi uma auto-
-aprendizagem?

Aprendi sozinho. Através de um programa da internet tirava as pautas e estudava por aí. Mais tarde comecei à procura de informação nos livros de música. Não tinha muita paciência para ir para uma escola de música e também não havia muitas na altura. Confesso que não tinha incentivo para ficar a estudar numa escola. A partir do momento em que comecei a compreender as melodias e as pautas, o gosto pela música foi surgindo e entrando na minha vida. Deixei-me levar naquilo. Achava que música séria era interpretar os clássicos, isto porque no zouk há apenas três notas e num clássico há dez.

O primeiro álbum surge em 2005. Como aconteceu esse passo?

Por acaso o meu primeiro sucesso foi um kilapanga que foi colocado como tema promocional no álbum de Armanda da Cunha. Nessa altura percebi que um CD é uma fonte de difusão incrível. As músicas foram para a rádio, as pessoas escutavam e ligavam para lá a perguntar quem era aquele cantor, comecei a aparecer na televisão participar em programas. Foi aí que ganhei a confiança de vários patrocinadores para gravar o meu primeiro CD. Em 2005 surgiu então o álbum Sina. No segundo CD Minhas Mágoas, saído em 2007 já não houve dúvidas que eu tinha vindo para ficar na música. Apesar disso, o meu último trabalho não preencheu por completo as minhas exigências enquanto músico. Precisava de bases acústicas que na altura ainda não possuía.

Compõe as suas próprias música e letras. O que é que o inspira?

Fui arquivista de geociências numa petrolífera durante um ano mas saía sempre a correr para ir fazer música. Tinha aquilo no sangue.

Nas minhas músicas apelo às normas de boa conduta. As pessoas têm de ser sensíveis aos problemas dos outros.

Inspiro-me em tudo o que se
passa à minha volta: o quotidiano, problemas de amigos, amor, assuntos sociais.

Inspiro-me em tudo o que se passa à minha volta, o quotidiano, problemas de amigos, o amor, assuntos de impacto social. Penso que falta na nossa sociedade amar o próximo. Nas minhas músicas apelo às normas de boa conduta. As pessoas têm de ser sensíveis aos problemas dos outros e saber respeitar a liberdade do outros, saber onde acaba a do outro e começa a tua.
Também busco o tradicional. Converso muito com os mais velhos que me contam o que se passava no tempo em que viviam nas aldeias. Daí consigo fazer os kilapangas, as trovas. No fundo, tudo aquilo que me vem à mente eu passo para o papel e para a pauta.

Paralelamente à música chegou a frequentar uma faculdade...

Estive a  fazer o curso de engenharia informática mas tive de abandonar por causa da música. Já estava a ser bastante divulgado enquanto músico e não queria perder a oportunidade. Até trabalhei noutras áreas mas a música foi mais forte. Tentei voltar aos estudos mas com a agenda de espectáculos e as fases de gravação em estúdio fica difícil encontrar espaço para terminar o curso. Talvez lá para os 30 anos o consiga fazer. Penso que com três álbuns tenho repertório para reduzir um pouco a intensidade do trabalho e aguentar a promoção por algum tempo e, nessa altura, retomar os estudos.

Que profissão exerceu?

Era arquivista de geociências numa petrolífera. Entendia de geografia e trabalhei durante um ano nessa área, mas foi complicado conciliar. Era o meu primeiro emprego e, no princípio, até foi uma felicidade mas depois virou rotina, ficar fechado oito horas. Saía sempre a correr para ir fazer música. Tinha aquilo no sangue. Era um vício e decidi apostar mesmo no projecto.

Que referências possui na música?

Hoje em dia, sem dúvida o Michael Bublé, cantor de jazz. Como referências mais antigas tenho Louis Amstrong, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Tom Jobim, Chico Buarque, André Mingas, Rui Mingas. Toda essa miscelânea de influências ajudou a 
tornar-me o músico que sou. Aprecio músicos que pensam como eu, partilham das mesmas ideias e estão no mesmo caminho. Como referências na música angolana tenho Matias Damásio, grande músico e compositor.

Matias Damásio, com quem trabalhou durante algum tempo...

Durante dois anos trabalhámos juntos como intérpretes, tocávamos em bares, chegámos a fazer alguns duetos. Participávamos em iniciativas culturais nas festas nacionais como o 11 de Novembro, e cantávamos músicas de outros tempos, revolucionárias. Isso deixa--nos muitas saudades. 
O Damásio sempre esteve na linha do semba e eu do zouk e das trovas. Seguimos carreiras diferentes mas ainda falamos muito.

Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?

As minhas passagens pela Casa 70 foram sempre muito marcantes. O FestiSumbe este ano também teve grande impacto, até porque estava há dois anos sem gravar um álbum e, mesmo assim, a adesão do público foi enorme. Também fico contente por ver que consegui atingir as camadas mais jovens. Com o segundo álbum obtive um nome no mercado angolano e provei a quem duvidava que vim para ficar.

Como vê a difusão dos ritmos angolanos fora do país?

Com o processo de guerra foi complicado as pessoas no exterior quererem saber do nosso país em termos culturais. Hoje em dia é diferente. As pessoas já investigam mais, procuram saber o que está a ser feito e sabem que temos géneros musicais muito quentes. Prova disso é o músico Yuri da Cunha que fez um espectáculo no Coliseu em Lisboa e foi uma enchente muito bonita só com músicos angolanos do princípio ao fim. Isso deu uma grande dimensão ao músico porque ele fez o inédito para a música angolana: encheu uma grande sala fora do país. Espero que um dia as editoras lá fora comecem a olhar e a interessar-se pela nossa música para que possamos ter uma grande dimensão.

Para quando um espectáculo de promoção do Kianda Luanda?

Faço música acústica, toco com banda, e por todas essas razões gosto de dar um espectáculo com qualidade. Espero em Março de 2010 dar um show numa grande sala em Luanda.

O que ambiciona para 
o futuro?

Pretendo continuar a fazer o meu trabalho e tornar-me um grande músico.
A nossa música já chega a vários países de expressão portuguesa. Estou a construir uma carreira, para a qual vou dando pequenos passos mas seguros.

Como se define enquanto pessoas e músico?

Sou muito tímido. E oiço muito o público “acusar-me” disso. Dizem-me que mesmo em palco não me consigo soltar muito. Eu digo sempre que as pessoas têm um carácter diferente. Sou muito diferente de um show man. Mesmo assim já tenho mais interacção com o público do que tinha quando comecei. É uma batalha que tenho de continuar a travar. No início ia para o palco, tocava do príncipio ao fim ia embora e não dizia nada. Estou melhor mas tenho de superar isso.

Kianda Luanda a partir 
de 15 de Novembro


A obra discográfica Kianda Luanda tem data de lançamento marcada para o dia 15 de Novembro na Praça da Independência, em Luanda, com 15 mil exemplares disponíveis. O CD tem 11 músicas, tocadas na linha melódica habitual do artista, particularmente o zouk. O trabalho conta com a participação de músicos de renome de Angola e Cabo Verde, entre as quais a banda cabo-verdiana Splash.

O álbum começou a ser gravado em Luanda com vários elementos da Banda Maravilha, depois foi para Lisboa, seguiu-se Holanda e foi terminado entre Espanha e Portugal novamente. O músico Filipe Zau tem uma participação especial numa das músicas e faz um dueto com Konde.

Depois da apresentação na capital, o artista partirá para as províncias para fazer a promoção do álbum.
O disco contou com a participação dos produtores Miqueias, Pirica Duya, DJ Manya, Filipe Zau, Jorge Cervantes e Presilha Cale.

            Pérfil

  • Nome: Kôndua Abreu Dias Martins
  • Data de nascimento: 22 de Fevereiro de 1981
  • Estado civil: Casado com duas filhas, de 4 e 1 ano e meio “A filha mais velha já dá conta da carreira do pai. Todos os dias na creche diz que o meu pai está na televisão e canta. São crianças superfelizes e isso é tudo o que me importa”
  • Prato preferido: Funge de bombó
  • Restaurante: Miami “Porque tenho lá muitos amigos”
  • Filme: Titanic
  • Actores preferidos: Denzel Washington, Bruce Willis

 

Fonte: O País 

Rádio Jet7 Angola

Vídeos Sugeridos

Procurar Vídeo