Entrevista com o actor angolano de sucesso «Hoji Fortuna»

Hoji Fortuna é um angolano conhecido na indústria cinematográfica mundial e o seu talento foi duplamente recompensado este ano. Além do filme "Viva Riva!" em que participou ter ganho o prémio MTV de Cinema 2011 na categoria de Melhor Filme Africano, o actor foi distinguido com o Óscar correspondente ao melhor actor secundário pela Academia Africana de Cinema.


Jornal de Angola (JA) - Como foi a sua infância em Luanda?


Hojy Fortuna (HF) -
Depois do falecimento do meu pai, seguiram-se períodos difíceis para a minha mãe que, não podendo cuidar de mim e da minha irmã mais nova em virtude do trabalho, confiou a nossa custódia a familiares e amigos. Entre os dois anos e meio e os quatro anos passei boa parte do tempo com os meus padrinhos na Vila Alice, e dos quatro aos oito anos estive com os meus tios no Golfe.

 

 

Jornal de Angola – Até que ponto esse vai e vem o marcou?

 

HF – Passei uma parte da infância num meio urbano, na Vila Alice, e outro suburbano, no Golfe. E ambos me marcaram de forma profunda. Aos oito anos, regressei a casa da minha mãe, na Terra Nova, e aí começou uma nova fase da minha vida. O tempo que passei longe da minha mãe, foram tempos difíceis. Lembro-me da tristeza que sentia cada vez que ela nos ia deixar a casa de um desses parentes, após termos passado um fim-de-semana juntos.

 

JA – O passado dá-lhe força para caminhar profissionalmente?

 

HF - Nem sempre. Na maioria dos casos, sim. Outras vezes questiono-me sobre a esperteza do trajecto que decidi seguir. Pergunto-me se não teria sido mais fácil ter seguido o trajecto que inicialmente tracei, o de jurista, nas pegadas do meu falecido pai.


JA - Como transpõe os grandes desafios decorrentes da vida de artista?


HF –
Sim, a vida de artista tem enormes desafios, principalmente quando não se tem o suporte financeiro necessário. Mas, olhando para trás, creio que sem o saber, inconscientemente, me estava a preparar para seguir a carreira que agora sigo e que, na maior parte das vezes, me dá enorme satisfação. Tem sido difícil, mas ninguém diria que o pequeno órfão de um país desconhecido, que viveu uma infância difícil e debaixo dos efeitos de uma guerra ia ter sucesso no cinema. A memória dos meus pais e o suporte emocional dos meus familiares e amigos dão-me força para continuar.


JA - O êxito dá-lhe mais responsabilidades?


HF -
Responsabilidade é um conceito relativo e muitas vezes subjectivo, mas tenho tentado viver a vida de forma responsável e creio que esse traço é uma herança da infância. Não sou perfeito e às vezes cometo erros e irresponsabilidades, todos os seres humanos são assim. Tenho consciência das fragilidades do sucesso e das suas tentações e estou atento. Tento viver a vida de forma simples e despretensiosa, com positivismo, gratidão e equilíbrio.


JA - Como foi viver a infância sem pai?


HF -
Não creio que essa seja uma ferida curável. O facto de ter crescido sem pai criou em mim um vazio que nunca vai ser preenchido.


Jornal de Angola – Como substituiu a ausência do seu pai?


HF -
Substituí a ausência do meu pai pela presença de outros adultos com os quais interagi na infância, mas essa interacção não é a mesma que aquela que existe entre pai e filho. Há coisas que aprendemos no convívio com os nossos pais, um legado pessoal e familiar que não conseguimos obter com outros adultos. O nível de intimidade não é o mesmo, apesar de ter adquirido o máximo de sabedoria que pude desses adultos e de estar grato pelo apoio e atenção que recebi deles durante a infância. O facto de um dos traços da minha personalidade ser a solidão está profundamente associado a essa experiência.


JA - Como ultrapassou o trauma resultante do falecimento da sua mãe?


HF -
A ida para Portugal foi uma das formas que encontrei para ultrapassar o trauma do falecimento da minha mãe. E o facto de não ter regressado a Angola durante anos prendeu-se com esse facto. Não estava preparado para enfrentar as memórias e conviver com a dor dessa ausência. Esses 15 anos foram um exílio emocional.


JA – Já recuperou dessa perda?


HF -
Ainda não me sinto completamente recuperado dessa perda, mas consegui adquirir a paz de espírito suficiente para desejar regressar a Angola. A minha vida em Angola esteve profundamente ligada à minha mãe. Ela era a razão pela qual estava a seguir o trajecto que seguia. O ser um rapaz responsável, um bom estudante, todos os planos traçados estavam ligados à minha mãe. Quando ela faleceu, a minha vida perdeu parte do sentido que tinha. Estavam lá a minha irmã e o meu sobrinho, duas boas razões para me agarrar a algo, uma luz que me manteve a navegar no mar da sanidade, mas o trauma foi esmagador.


JA - Tornou-se conhecido dos angolanos no "Bar da TV". Acha que o seu sucesso como profissional começou nesse programa?


HF -
Não creio que o meu sucesso profissional tenha sido derivado do "O Bar da TV". Gostava que assim fosse e era esse um dos objectivos com a participação no programa. Mas participar num reality show não abonou a meu favor, apesar dos astronómicos níveis de popularidade que atingi. Durante dois anos não consegui um único trabalho ao nível do entretenimento. Depois Ricardo Abrantes e o Paulo Magalhães aceitaram a minha proposta de organizar uma noite de stand-up comedy destinada a encontrar novos talentos num bar que geriam, o ComVento Club, em Lisboa. Numa dessas noites, os produtores de Levanta-te & Ri e de Os Malucos do Riso da SIC estiveram presentes e foi assim que começou a minha carreira em Portugal.


JA - Revelou que o dinheiro que recebeu do "O Bar da TV" ia ser gasto num curso para actores, nos Estados Unidos da América. Chegou a fazer o curso?


HF -
A minha ideia na altura era frequentar um curso no Reino Unido, mas tal nunca chegou a acontecer. A vida ocupou-me com outros desafios. Frequentei alguns cursos em Lisboa e tentei maximizar a popularidade que adquiri, para fazer uma carreira no entretenimento em Portugal.


JA - Aonde quer chegar no mundo do entretenimento?


HF -
Tento viver um dia de cada vez e apreciar as dádivas que a vida me tem dado. O mundo do entretenimento é imprevisível, difícil e super concorrido. Tento não criar expectativas em relação aonde a carreira me pode levar, mas dando sempre o meu melhor nos projectos em que participo, para que os meus trabalhos sirvam como referência de um trabalho de qualidade e possam gerar mais trabalho. Espero que seja suficiente.


JA - Desde que é actor de cinema já recebeu algum convite para participar em filmes em Angola?


HF -
Há uma proposta mas ainda é prematuro falar nela. Posso apenas dizer que o projecto se desenvolve entre Angola e o Brasil e que fui convidado para ser um dos actores principais.


JA - Lamenta o facto do seu trabalho ser mais reconhecido fora de Angola?


HF -
Tento viver a vida sem lamentos nem arrependimentos. E sou um indivíduo extremamente positivo, procuro sempre olhar para a vida de uma perspectiva positiva. Faço a minha parte, que é promover o meu trabalho e promover o nome de Angola ao nível da qualidade performativa. O reconhecimento é um complemento, mas não o essencial. Se chegar, é bem-vindo. Se não chegar, a vida continua sem lamentos e sempre com determinação, engenho e atitude positiva.


JA – O que pensa da Angola de hoje?


HF -
Não creio ter passado tempo suficiente em Angola para ter uma impressão completa. Mas, pela primeira vez nos meus 30 e poucos anos, tive a oportunidade de percorrer o país de carro e isso foi certamente uma das experiências mais marcantes na minha estada e a confirmação de um facto que até aí apenas conhecia de forma fictícia: temos um lindo país.


JA – O seu regresso a Angola foi positivo?


HF -
Fiquei triste com os contrastes sociais em Luanda, na visita que fiz, no ano passado, ao país,a primeira depois de uma ausência de quase dezasseis anos. Umas áreas estão a ser alvo de um desenvolvimento desmedido e outras estão votadas ao abandono e à degradação. A Terra Nova que conheci não é a mesma que encontrei, apesar da essência das pessoas ser a mesma. O companheirismo e o espírito comunitário mantêm-se apesar das dificuldades e essa é uma das qualidades que sempre apreciei nas pessoas do meu bairro. Visitei a casa onde fui criado no Golfe e o nível de degradação deixou-me imensamente triste também. Há certamente imenso trabalho por fazer e é importante que quem está ao comando tenha a consciência de que o ambiente em que vivemos é condicionante profundo da mentalidade que desenvolvemos e da nossa postura perante a vida. Continuo optimista.


JA – Teve alguma surpresa agradável?


HF –
Muitas. Já temos água a correr nas torneiras, o que não acontecia quando parti para Portugal.


JA - Qual é a sua opinião sobre o estado do cinema angolano?


HF -
O cinema angolano ainda está num estado embrionário, provavelmente devido à carência de meios técnicos e de know-how. Outro factor que pode estar a pesar nesse desenvolvimento e de que tive a oportunidade ouvir alguns profissionais referir, prende-se com a ausência de apoios para realizar projectos cinematográficos. Mas o cinema ainda não é uma prioridade por parte do Estado, responsável em muitos países pelo financiamento e desenvolvimento da indústria cinematográfica. Mas creio que esse quadro está a mudar e que nos próximos anos temos algumas produções cinematográficas interessantes "made in Angola".


JA - Que contributo pode dar para o enriquecimento do cinema angolano?


HF -
O contributo que está ao meu alcance prende-se, além da referência internacional, com a partilha de conhecimentos através de seminários na minha área de trabalho, a representação e análise cénica. A colaboração enquanto actor também pode contribuir para o desenvolvimento do cinema angolano. Em virtude de me encontrar a residir numa das metrópoles mais importantes do cinema, posso certamente servir de elemento de ligação entre projectos de produção angolana-americana.


JA  - Os seus projectos passam por Hollywood?


HF -
Os meus projectos passam por Hollywood e creio ser apenas uma questão de tempo para que esse sonho se torne uma realidade. Provavelmente, tenho de mudar de Nova Iorque para Los Angeles, algo que está neste momento a ser equacionado e podeocorrer nos próximos meses.


JA - O facto de viver em Nova Iorque é trampolim para chegar a Hollywood?


HF -
É um facto que alguns dos actores mais bem sucedidos em Hollywood mantêm a sua base residencial em Nova Iorque. Viver em Nova Iorque é um trampolim maior para chegar a Hollywood do que se estivesse ainda a viver em Lisboa ou em Luanda.

 

Fonte: Jornal de Angola

Rádio Jet7 Angola

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