Eduardo Paim: «Actualmente não se exporta só o petróleo, também a nossa boa música»

Eduardo Paim: «Actualmente não se exporta só o petróleo, também a nossa boa música»

 

Luanda - O cantor angolano Eduardo Paim, conhecido artisticamente no music hall angolano como general Kambuengo, fala sobre os momentos áureos da sua carreira, da sua passagem por Portugal e da nova geração músicos angolanos.

 

Por: Tchinganeca Dias

 

Angop: Eduardo Paim, uma voz autorizada no panorama musical, considerado por muitos o grande “revolucionário” da música moderna angolana. Como analisa o actual momento da música angolana?

 

Eduardo Paim (EP): A música angolana feita hoje é apenas uma sequência de todo um desenvolvimento que se foi fazendo sentir ao longo dos tempos. Se formos a falar do momento em que começo a fazer parte desta família, destes fazedores de música, vamos encontrar uma música que por razões óbvias e que todos conhecem estagnou, e que precisava, de facto, de uma lufada de ar fresco, no sentido de despertar o interesse na nossa boa música, no seio em que somos todos filhos.

 

A música feita, por exemplo, antes da independência, uma música extremamente forte, culturalmente rica, com uma identidade própria, teve a determinada altura essa pequena fragilidade, pequena que acabou por afectar grandemente a música.  Apareceram outras inspirações, em um momento de muitas conturbações. Muitos acham-me culpado dessa mudança, outros agradecem-me, mas de qualquer das formas eu mantenho a minha consciência tranquila, com a convicção de que terei dado o meu contributo possível, com toda certeza, positivo.

 

Para resumir, acho que a música angolana tem trilhado por um caminho, de forma satisfatório, quer por aqueles que fazem uma música de cariz tradicional, quer os que fazem a música admitindo as influências da modernidade, da globalização, da tecnologia, penso que é uma música que merece que se lhe tire o chapéu, afinal de conta os seus fazedores demonstram  alguma responsabilidade e já se sente isso.

 

Actualmente não se exporta só o petróleo, também a nossa boa música.

 

Angop: Com a introdução de novos instrumentos musicais, de tecnologia moderna, não se tira um pouco da matriz nacional?

 

EP: Bom, eu penso que nós, conscientes e idóneos que somos, não precisamos que estereotipar as coisas, porque se eu te perguntar o que é isso de cariz, de matriz nacional, vamos ficar em discussão. Ao longo dos tempos tudo muda, tudo evolui. Não fazemos as mesmas coisas duas vezes. A primeira vez fazemos algo, na segunda vamos fazer de forma diferente, e na terceira ainda mais diferente. Não vejo a coisa nessa perspectiva, a nossa música nunca se vai perder. Há aqueles que por razões comerciais admitem todo e qualquer influência mediante os seus interesses, mas isso não vem tirar o lugar daqueles que fazem a música tradicional.

 

Dessa forma, novas fusões e instrumentos, a espaço para todos. Também não podemos ter todos a mesma cor, ser todos amarelos, aí não saberíamos o que é ser vermelho ou preto.

 

Angop: É considerado por muitos como o pai da kizomba. O que dizer sobre isso.

 

EP: Penso que é a conclusão de tudo aquilo que fiz para a música, da sorte que tive em contribuir num momento em que a música só se abordava e tinha um cariz político, e a música do povo tinha-se perdido. Eu, pertencendo a uma franja mais actual, na altura, e porque não tive uma escola, ou seja, não tínhamos uma escola onde pudéssemos ir beber do conhecimento, pesquisar, o que pudemos fazer foi reter alguma referência dos mais antigos e aceitar toda uma influência do Mundo que vinha parar nos nossos ouvidos. Obviamente, como tudo é dinâmico penso ter conseguido aí uma fórmula que veio motivar outras gerações, outras sensibilidades, dai que me achem responsável disso, mas eu acredito, piamente, que as revoluções têm líderes, mas não acontecem por uma pessoa sozinha. As pessoas têm que respirar a mesma filosofia, o mesmo princípio para que elas aconteçam.

 

Posso, sim, ser a pessoa que mais se tenha destacado num momento, mas isso foi um trabalho feito por muita gente, por discípulos meus, por seguidores, nomes como Ruca Van-Dúnem, Ricardo Abreu, Diabick, Fernando Quental, muita gente por trás disso. Posso ter sido o mentor, mas é um trabalho de muitos.

 

Angop: Eduardo Paim, já trabalhou com vários artistas, foi líder de vários grupos como os SOS, onde viveu grandes momentos. Qual foi o melhor momento da sua carreira musical?

 

EP: Sabe que um trajecto dessa natureza marca-se por vários momentos. Eleger o melhor acontecimento, talvez foi o ter optado em fazer que melhor sei fazer, que foi optar pela carreira musical. Afinal de contas a música não era a aspiração dos meus pais, a determinado momento interrompi o curso de electricidade para seguir música, e acho que nesse momento tinha a plena convicção daquilo que estava a fazer e na sequência aconteceram momentos como o ganhar o meu primeiro prémio, uma distinção por ter feito algo por de facto ter sensibilizado muitas pessoas, por exemplo quando fui procurado pela primeira vez por um artista que todo o Mundo conhece e que dispensa apresentações, mas que vivia fora do país, o Paulo Flores, vivia em Portugal e saiu de Portugal para vir trabalhar comigo. Este momento foi um incentivo muito grande, que me terá também motivado a ir viver para Portugal e enfrentar dificuldades, porque naquela altura até para adquirir residência foi uma luta, eu estava ilegal.

 

Até que pela música consegui transpor obstáculo naquele país e tornei-me uma referência por lá, e isto concedeu-me o direito a legalidade.

 

Para ver que, quando fosse a uma repartição lá, e o que atendia era nosso admirador, obviamente que este momento marca sempre a nossa carreira.

 

Não posso deixar de realçar o meu primeiro disco de ouro, obtive outros, mas o primeiro deixa uma sensação única, de surpresa, sobretudo numa altura em que eu não estava a contar, numa altura que o disco estava a cerca de dois meses e foi-me feita esta surpresa pela Sociedade Portuguesa de Autores, por ter vendas superiores a 50 mil discos, discos de vinil na altura.

 

Obviamente isso são situações que marcam, como quando fiz a minha primeira digressão ou tournée por vários países e ser recebido como um vencedor, ter direito a passeatas em países como Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, enfim, toda aquela notoriedade que a música acaba por nos conferir fazem aqueles momentos que a nível de carreira marcam.

 

Hoje vejo o respeito e o carinho que as pessoas têm por mim na rua, acaba sempre por me deixar sensibilizado, são momento em que dizemos que valeu, vale e sempre continua a valer a pena trabalhar para as pessoas.

 

Angop: Que Eduardo Paim temos actualmente?

 

EP: A continuação do mesmo. Sabe que as pessoas têm uma essência, e eu sou o mesmo, que procura fazer a sua profissão com zelo, dedicação e profissionalismo. Agora existe uma continuação do mesmo, um pouco mais refinado do mesmo Eduardo Paim, afinal de conta a idade nos confere um pouco mais de tranquilidade, esse a vontade.

 

Angop: Projectos a curto-médio prazo. Lançou o seu ultimo trabalho há sensivelmente dois anos, o que teremos do Produto EP?

 

EP: Devo dizer que tem já outro disco a caminho, dentro de duas semanas começo a dizer datas. Num período de um mês, dois no máximo o disco estará no mercado, porque já está gravado. É um disco com cerca de treze faixas musicais, onde abordo situações que são do nosso quotidiano como o amor, os encontros, desencontros, os engarrafamentos, a poluição, entre outros.

 

O projecto está concluído em termo de gravação, segue-se aquela fase sobre a parte gráfica, a edição, mas as pessoas podem esperar a curto prazo que teremos mais um óptimo trabalho.

 

Os estilos de música são os que sempre me caracterizaram como o kizomba, o rumba, o semba, e outras coisas já que o universo da música é vasto e indescritível, neste disco até fado canto. Ha alguma diversidade no estilo musical, tendo também uma balada, um bolero. Penso que é um projecto que as pessoas vão gostar.

 

Angop: Qual é o título?

 

EP: Já tem um título, mas prefiro não avançar, porque posso mudar a qualquer instante. Lembrar que a base foi toda feita cá, na nossa terra, onde a inspiração é maior. Alguma coisa foi feita fora, em França, Guadalupe, a participação do Tino MC, do Johnny Fonseca, a partir da Holanda. Os instrumentos de sopro e coros foram em Portugal.

 

Angop: Mudando de assunto, mas na vertente musical, até que ponto é positivo o trabalho desenvolvido pelos artistas da nova geração?

 

EP: Sabe que a juventude sempre foi a força motriz de qualquer nação, de qualquer sociedade. Nisto estamos de acordo. Obviamente que o trabalho desenvolvido pela juventude deve ser desenvolvido com responsabilidade e coerência, para puderem também garantirem a sequência. Pese embora em alguns casos haver uma certa alienação que não é muito positivo, mas se não houvesse sim, também não haveria não, aí é que reside a diferença, depois as pessoas vão fazer as suas escolhas e os melhores ficarão neste exigente mercado.

 

Portanto, o trabalho da juventude é sempre positivo, que a determinada altura deve ser orientado para que não aconteçam os despistes. Temos que confiar na nossa juventude, dar alguns elementos no sentido de orientar os jovens para seguirem o seu caminho, como sabem e como querem.

 

Angop: Quanto tempo mais teremos o Eduardo Paim no mercado?

 

EP: Até onde as minhas forças me deixarem, eu vou dar o meu melhor, partilhar essa emoção com o público, como sabe são quase 40 anos de carreira musical, há afinidades que se fizeram, sinto que na serei ninguém se não tiver esse público e sinto-me muito agradecido por ser muito acarinhado por esse público. A música faz parte da minha vida, e se conseguir chegar aos 80 anos e ainda tiver forças para cantar, vou faze-lo até que a voz me dói, como se diz na gíria.

 

Angop: Foi um dos primeiros a receber um disco de ouro, no pós independência. Quando olha para o passado, nota que faltou fazer alguma coisa, ou tem consciência do dever cumprido?

 

EP: Isto é uma sensação que vai se estabilizando com a vida. Como disse a pouco, enquanto houver vida há esperança, temos sempre aspirações, tenho orgulho por aquilo que pude fazer pela música, sobretudo por ser alvo de reconhecimentos como por exemplo pelo Prémio Nacional de Cultura, obviamente não me foi dado por ser um galã ou por ter olhos azuis, tenho consciência de onde é que vêm estas coisas.

 

Mas também como ser humano, queremos sempre mais e melhor, tenho a sensação que ainda não fiz tudo, tenho essa sensação todos os dias, renova-se a todos os dias. Tenho noção que fiz algo bom para as pessoas mas quero, no dia seguinte, fazer ainda melhor, tenho noção que posso ainda dar cada vez mais e vou continuar com esta luta, até que as forças me traiam.

 

Angop: Então, sente-se realizado?

 

EP: Vou-me realizando, não me sinto realizado, acho que qualquer ser humano é inconformado por natureza. Sentir-me realizado séria admitir o fim. Já não há conquista, não há luta, é o fim. Mas eu rejeito isso, para mim, enquanto for vivo vamos continuar a lutar, a gente aspira sempre mais, procuro realizar tudo aquilo que acho certo, positivo.

 

Nesta andança tenho muitos motivos de orgulho, algumas coisas também a lamentar, mas nada que me toca de forma marcante, prefiro entreter-me com os sucessos que obtive do que com as derrotas que aconteceram em determinados momentos da vida. Enquanto isso, vou continuar a trabalhar, e a vida é assim.

 

Angop: De que artista nacional e estrangeiro mais apreciou o seu trabalho?

 

EP: A vida é uma escola e a convivência com os outros são aulas. De uma forma geral, gostei de trabalhar com todos, porque enquanto produtor dei e recebi algo. Nesse intercâmbio vamos aprendendo uns com os outros, foi um prazer e motivo de satisfação ter trabalhado com todos que passaram pelas minhas mãos, porque tudo que retiramos desta parceria foi extremamente positivo, foi algo que deu prazer, satisfação, porque trocamos experiência, fui passando e recebi imputs que são condimentos que serviram para confeccionar a minha vida, quer pessoal quer profissional. Claro que existem situações que gostamos mais de uns dos que outros, mas no geral é positivo ter trabalhado com todos.

 

Angop: É dos artistas mais versáteis do país, qual é o segredo para tanto talento?

 

EP: Vou dizer-lhe como os meus amigos mais íntimos dizem: “o que Deus não lhe deu em altura, deu-lhe em talento”. Desde muito jovem fui um desbravador, na música essa particularidade, na vida profissional foi o meu maior trunfo, essa curiosidade, procurar dominar alguns instrumentos foi aquilo que mais me motivou e fez com que hoje fosse alguém um tanto versátil na arte musical.

 

Foi boa essa traquinice, porque foi assim que aprendi a tocar piano, a tocar viola, e uma série de outros instrumentos musicais. A música é um universo um tanto indescritível, pode-se pintar, acontecer muita coisa. Tudo aquilo que oiço e me agrada tenho sempre a tendência de ver até que ponto posso aproximar-me com ela. O fado, por exemplo, é uma música muito profunda, tive a felicidade de viver em Portugal e integrar-me nele, sinto-me português por ter vivido e ser bem recebido por aquela comunidade, e por ter uma cultura musical bonita, como o fado.

 

Angop: E que contributo tem dado a nova geração?

 

EP: Considero-me uma referência para esta geração pelo excelente trabalho que pude fazer ao longo da minha trajectória. Para aqueles que gostam do meu trabalho, sou um marco.

 

Angop: Foi um dos primeiros a abrir um estúdio de gravação no país no pós independência. Quais foram as dificuldades e o que o levou a fazer tal aposta?

 

EP: Um dos motivos que me fez radicar em Portugal foi exactamente a lacuna que na altura tínhamos cá, que até para trocar uma corda da guitarra que rebentasse era um problema, porque tínhamos que mandar vir de fora, por alguém que já viajava para o estrangeiro, era um problema bicudo.

 

As condições fora do país eram já aceitáveis, eram melhores, mas como alguém que ama o seu país, tinha a visão de transportar tudo de bom que visse em outros países. Quando tive oportunidade, o trabalho e vida me conferiram essa capacidade de contribuir para o desenvolvimento do país, procurei não ser mais um a montar um estúdio lá fora, mas ter o prazer de ser o primeiro a montar um estúdio, no pós independência, no país, só assim o meu trabalho fazia algum sentido, já que nunca me imaginei a viver sempre fora de Angola. Angola sempre foi a minha base, sempre tive o espírito nacionalista, sempre meti na cabeça que “isto é bom, mas melhor na minha terra”.

 

Angop: Qual é a simbiose entre a nova e a velha geração de artistas?

 

EP: Penso que na história da música angolana nunca se viveu um momento melhor do que este que estamos a registar de integração entre a nova geração e as gerações mais antigas. Hoje em dia vimos o Bonga a interagir com Dom Kikas, Carlos Burity com Jeff Brow, entre outras parcerias. Antigamente não era assim, se era não se notava, ou era muito tímida estas parcerias.

 

É muito importante, por ser nesses intercâmbios que a informação passa, que são trocadas as experiências. É de realçar este momento.

 

Quem é Eduardo Paim

 

Com um percurso artístico invejável de quase 40 anos, Eduardo Paim marca a geração de músicos angolanos que introduz a música electrónica.

 

“Carnaval”, “Rosa Baila” ou “Do Kayaya” tornaram-se autênticos “hinos” para as gerações das décadas de 1980 e 1990. Ainda no início da década de 1990, Eduardo Paim tornou-se numa das maiores influências da mistura do zouk com o semba, tornando-se num dos criadores do género musical conhecido como kizomba. Em 1990, General Kambuengo chega ao auge no mercado português, com o disco “Luanda, Minha Banda”.

 

Ainda em Portugal marca o seu nome com a obra “Do Kayaya”.

 

O músico, nascido no Congo Brazaville aos 13 de Abril de 1964, experimentou o mundo cultural aos 11 anos de idade (1976), tocando viola no grupo musical escolar, na província de Cabinda.

 

Em 1982 fundou o grupo SOS, ao lado de Bruno Castro, Levy, Carlos Teixeira Casse, entre outros.

 

Antes, o músico foi também influenciado pelo agrupamento Bela Negra (Cabinda), onde recebeu aulas de viola, bem como inspirou-se no grupo Super Coba (Zaire) no estilo da música antilhana.

 

Discografia

 

Eduardo Paim é ainda autor de “Luanda, Minha Banda”, 1991, “Novembro” (1991), “Do Kayaya” (1992), “Kambuengo” (1993), “Kanela” (1994), “Ainda a Tempo” (1995), “Mujimbos” (1998) , “Maruvo na Taça” (2006) e "Etu mudietu" (2012).

 

Prémios

 

Eduardo Paim, que tem participações em vários discos de artistas nacionais, já conquistou discos de ouro e platina, pelos seus sucessos musicais.

 

Em 2012 foi-lhe o prémio nacional de cultura e artes, na categoria de música, pelo trabalho e empenho na divulgação, preservação e valorização da música angolana.

 

Fonte: Angop

Rádio Jet7 Angola

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