Dalton Borralho: Ser actor é um trabalho colectivo

Um indivíduo nos 40 anos, proprietário de um hotel, detentor de uma riqueza que ninguém sabe de onde provém, com uma mulher bonita escolhida propositadamente para ajudar “a tocar para a frente o seu negócio” e que acaba por ser submetido às ordens da “mulher sargenta” que toma o poder no hotel e na gestão de toda a família. Esta descrição parece-lhe familiar? É verdade, estamos a falar do doutor Mauro Dias Branco dono do Makamba Hotel, onde os espectadores da TV Zimbo passam umas horas todos os fim-de-semana.


Jeito para fazer rir

Dalton Borralho é o actor que, com unhas e dentes, e restantes partes do corpo, defende este personagem.

 

“Iniciei-me no teatro em 1978 e sou actor desde 1987”, conta Dalton Borralho explicando o porquê da distinção nestas datas. “Quando comecei na escola pertencia ao escalão mais novo e fiz um curso direccionado à preparação de actores. Nessa altura não estava disposto a ser actor, contava anedotas, fazia rir as pessoas, era o mais falador onde quer que fosse. Mas ficava-me por aí”.

 

Depois, em 1987, ingressa no grupo de teatro Companhia Horizonte Njinga Mbandi, viveiro de muitos jovens actores e onde tudo começou a mudar para Dalton Borralho. “Aí senti pela primeira vez responsabilidade ao dizer ‘Eu quero ser actor’”, conta-nos.

 

Sobre esses tempos diz que “foi a escola mais importante que eu tive, sem bases não se vai a lado algum. Sem formação vai-se caminhando tacteando no escuro. Grande parte da minha formação prática foi realizada no grupo Horizonte”.

 

Encorajado pelos mestres a viajar para Portugal e conhecer o teatro europeu, Dalton Borralho parte para a Europa. “Em 1992, desperto para a carreira artística em Portugal ao assistir à qualidade de teatro no exterior”, diz.

Nesse período recorda o teatro que se fazia em Angola como “uma espécie de “teatro da boa vontade”, ao passo que lá já se tinha evoluído para um teatro de ciência, com técnicas, iluminação”. Para Portugal leva consigo muitas referências do teatro angolano como Elias Casanova, Mónica Cirilo, Tia Bina do grupo Óasis, Isabel André.


De volta a Angola

Em Lisboa frequenta duas escolas de teatro: a Act e a Open Space.

 

Mas os primeiros tempos foram duros e Dalton Borralho trabalha na construção civil, como ajudante de pintor. Mais tarde faz cinema, teatro e televisão. “Fiz muitos workshops. A minha carreira tem muito da minha vontade de aprender. Sempre pesquisei, li, perguntei aos colegas como se faz, como se constrói. Hoje tenho uma carreira onde fui levado nos braços da sorte”, diz agradecido.

 

Em Portugal constituíu família e é lá onde vivem actualmente os seus seis filhos entre os 8 e os 23 anos e a mulher. A residir agora em Angola, Dalton Borralho só pensa em trazer toda a família de volta para a banda. “Estou dividido entre os dois países, com a família em Portugal”.

 

A prole do actor esteve no país em 2006 e levou boas memórias da terra do Pai. “Fomos um dia inteiro passear à praia no Morro dos Veados. Aqui o tempo tem outro tempo, este é o país do Sol, aqui é que a terra do futuro. Creio que todos eles voltarão a Angola, por enquanto vão ficando até eu preparar as condições.”

 

Foi o programa de televisão Makamba Hotel que o trouxe para os ecrãs da televisão nacional. Gravada em Portugal, a série foi para o ar em Angola a primeira vez a 17 de Dezembro de 2008. Um elenco principal com 12 actores, acompanhado de um conjunto adicional gravaram já 139 episódios. Aquando da estreia em Angola, Dalton Borralho ainda vivia em Portugal. “Na hora do programa de televisão toda a gente seguia a TV Zimbo. Eu estava em Lisboa e as pessoas telefonavam-me, muitas com saudade, a chorar, outras a rir”, relembra.

O homem que dá corpo e vida ao doutor Mauro admite que “A televisão dá-nos visibilidade mas já somos actores há muito tempo”.


Críticas à Dicção

Escutando as reacções ao seu caminha na rua, Dalton Borralho diz que a reacção das pessoas é “superpositiva. As pessoas identificam-se por ser um programa de humor direccionado à família”. Ainda assim confessa que lhes foram feitos alguns reparos. “Ao princípio as pessoas estranhavam o nosso articular das palavras, o nosso linguajar. Isso é resultado de parte da influência que temos do português de Portugal. Temos muita aculturação na nossa forma de expressar e isso foi uma das primeiras barreiras que encontrámos. O público pensava que éramos todos moçambicanos e estavamos a forçar a maneira de falar para agradar ao povo angolano. Mas não. Somos todos filhos da terra, felizmente”, ressalva.


Temperamento morno

Para vestir a pele de Mauro Dias Branco, Dalton Borralho teve de redobrar os cuidados com a parte física do personagem. “O Mauro foi nascendo dia-a-dia, desde o primeiro dia de ensaios até ao primeiro dia de gravações. Fui percebendo assim como devia direccionar-lhe o caminho. Com os conselhos do realizador, Renato, fomos casando as nossas ideias. O Mauro tem muita comédia física, muita comunicação gestual”.

 

Nascido em Luanda, o actor assume-se como sendo um cidadão de Catete. “Acredito que a minha árvore genealógica não parte de Luanda e, por isso, refugio-me na proveniência do meu Pai, que vem do Gonçalo, então digo que sou do Bengo”, faz questão de esclarecer.

 

Dalton Borralho trabalha actualmente num projecto de formação de actores para crianças dos 7 aos 14 anos. O projecto foi criado com um grupo de amigos e já está em curso, devendo arrancar este mês de Novembro. “Este é um papel ingrato porque gosto é de ser dirigido, mas devido à formação que tenho também quero partilhar conhecimentos. Neste momento Angola está numa nova vida, num novo período, somos um país novo, e precisamos de todo o saber, de todo o contributo. É a hora dos disponíveis dar o seu contributo. Somos um grupo de pessoas que vai dar formação aos alunos sem nenhuma contrapartida financeira”.

 

Para além disso, prepara a sua participação no filme Rosa Brava de um realizador de origem guineense. As gravações começam em Portugal ainda este ano e o actor irá interpretar “um polícia guineense com péssima conduta”.

 

Dalton Borralho acredita há um conjunto de elementos que definem um bom actor: “uma atenção redobrada, saber ouvir e despir-se de si mesmo, um temperamento “morno” para reagir no tempo certo, ser uma pessoa disponível para aprender e humilde.

 

Como faz questão de frisar “Ser actor é saber respeitar, acima de tudo, o núcleo de trabalho. Há muitos bons actores arrogantes que destroem um bom espectáculo. Ser actor é um trabalho colectivo”.


Estreia emocionante


Makamba Hotel estreou na TV Zimbo no dia 17 de Dezembro de 2008, data em que o público angolano conheceu o “doutor Mauro”, o protagonista interpretado por Dalton Borralho. “Na hora do programa toda a gente seguia a TV Zimbo. Eu ainda estava a viver em Lisboa e as pessoas telefonavam-me, com saudade, umas a chorar e outras a rir”, relembra.

 

Pérfil

  • Nome: Sebastião Domingos Borralho
  • Data de Nascimento: 16 de Outubro de 1968
  • Naturalidade: Município do Cazenga
  • Estado Civil: Casado, com seis fillhos (23 aos 8 anos)
  • Música: Santa Geração, gospel
  • Actor: Denzel Washington
  • Filme: O Pianista, “vejo para chorar e para me alegrar”, A Paixão de Cristo
  • Prato: Mufete
  • Restaurante: São Jorge
  • Qualidade: Honestidade
  • Defeito: Mentira

 

Fonte: O País

Rádio Jet7 Angola

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