Conheça o percurso de Miguel Neto «Alto Nível»

 
Na rua todos o conhecem. Não é indiferente às pessoas. Faz rádio e televisão há 20 anos. Hoje tem os programas RC na LAC e o Alto Nível na TPA. Um caminho que só iniciou aos 28 anos de idade, quando a sua vida leva uma volta de 180 graus. Por acaso, como explica: “Tudo começou em 1988 com o programa Movimento Estudantil. O meu cunhado estava na produtora, conhecia-me e desafiou-me a ir fazer os testes. Na verdade achava que não tinha muito jeito para aquilo. Mas acabei por ficar. Comecei como todos, nervoso, com uma voz a tremer e só com o tempo é que se ganha à vontade”.

Acrescenta ainda com uma gargalhada: “Na verdade quando tinha 14/15 anos gostava muito de ouvir rádio. Lia em voz alta e tentava imitar o Francisco Simons que era o meu ídolo. Mas daí até ser um homem da comunicação era um longo caminho que pensava que não ia percorrer. Falar na rádio não estava seguramente nos meus planos”.


Técnico dos petróleos

 

"Desde sempre que faço comunicação desta maneira. É a única que consigo fazer. Não tenho jeito para pedir ou fazer bajulação.

 

O que poucos sabem é que Miguel Neto era técnico de perfuração e estava ligado á área dos petróleos. Na altura em que entra para a rádio, trabalhava também no campo do Soyo para a Sonangol e ELF. “Era técnico superior de lamas, ligado à perfuração. Quando entraram as multinacionais estive na ELF vários anos, sendo que depois entrei para a Total. Onde estou até hoje. Nesta altura estou no Departamento de Arquivos, sendo que isto da comunicação sempre foi a minha ocupação dos fins de semana”, ri-se, acrescentando, “também é justo dizer que sempre fui privilegiado nos petróleos. Nunca tive de fazer trabalhos muito físicos. Sempre acompanhei o chefe”.

 

Com esta revelação percebe-se melhor a postura do jornalista. “Por todas as rádios onde passei sempre fui auto-suficiente. Fiz os programas com os meus arquivos, as minhas músicas e os meus contactos. Mesmo no programa televisivo Alto Nível, o equipamento é meu. Habituei-me a trabalhar. Por isso posso dizer que nunca me aproveitei das empresas, pelo contrário, acrescentei algo em todos os lugares por onde passei”, sublinha.


Programas na LAC e TPA

 

O seu percurso começa na Rádio Nacional, passa pela Rádio Luanda e está agora na Luanda Antena Comercial. Em termos de televisão, a sua casa sempre foi a TPA. “Na verdade quando apareci o meu estilo não era muito bem aceite. Embora beneficiasse do facto de nessa altura as coisas ainda estarem a começar a abrir, não era muito fácil. Uns chamavam--me maluco, outros não gostavam desta minha linguagem sobre os Estados Unidos, mas com o andar dos tempos passaram também a respeitar-me”, afirma.


 
Um estilo diferente

 

"Sempre fui um apaixonado pelos Estados Unidos e pelos fenómenos daquele país. Lá o sonho ainda é possível."

 
Entre os programas que fez destaca-se o Movimento Estudantil, com o Hélder Barber, “fazia um pouco de tudo. Éramos novos e diferentes na abordagem. Alguns chamavam-nos sensacionalistas”, o Cocktail Musical, “um pouco ao género do que é hoje o RC. Com muita informação do estrangeiro. Sempre tive uma paixão pelos Estados Unidos. Na altura não havia Internet e eram os amigos que viviam no estrangeiro que nos mandavam os discos e as novidades do meio musical” e o Rotação Por Minuto, “era exactamente isso. Cada música passava apenas um minuto e não se repetiam canções. Tinha um grande dinamismo”, recorda.

 

Em 1991 saiu da Rádio Nacional, zangado, entra na TPA por essa altura, e ficou uns meses fora da circulação das rádios. Voltou depois à Rádio Luanda. Foi quando sentiu pela primeira vez que era uma figura pública. “Foi um conjunto de ouvintes que num inquérito pediram que eu regressasse. Percebi que tinha público. Que havia gente que gostava do meu trabalho. Isso é bom”.

 

Não é uma figura unânime. “É verdade que ainda existem pessoas que dizem mal do que eu faço. Mas estou aqui há muitos anos. Já tenho um legado. Quem gosta da minha maneira de estar apoia-me bastante, quem me critica, fá-lo normalmente usando métodos pouco frontais. Não temos que agradar a todos, mas é justo reconhecer quando alguém tem valor. Independentemente do gosto de cada um”, revela.

 

Dentro daquilo que faz, rádio e televisão, não tem dúvidas: “ A rádio vai mais longe. Faço bem as duas coisas, ao meu modo. Já fui elogiado por figuras nacionais e nomes internacionais, por isso quando surgem críticas mais ferozes, poucas felizmente, isso não me afecta. Por exemplo, na televisão a imagem é fundamental. Tenho feito algumas adaptações, embora exista uma que nunca farei, apesar de já me terem pedido, cortar o bigode”, diz.


 
Apoio aos jovens

 

Clique para ampliar a imagem
Fala de forma fácil e simples. Percebe-se que a posição que ocupa é resultado de trabalho, de estratégia e de muita inteligência. Apesar de reconhecer que a maior parte dos seus fãs está numa geração abaixo da sua. “A minha imagem também ajudou a valorizar os jovens do hip pop. Normalmente respeitam-nos pouco, mas acredito que existe muito valor nesta nova geração. Há bastante tempo que estou a fazer programas que tocam esta faixa etária, resultado das opções musicais que utilizo, das matérias que escolho para a televisão, da maneira como me coloco na sociedade”, diz, avisando no entanto de forma séria: “Também ponho um fato se é preciso. Já testei isso muitas vezes, para que as pessoas percebam que o Miguel Neto com esta forma de vestir ou com fato é a mesma pessoa. Acho que a sociedade angolana me respeita da forma como sou. E os meus fatos não devem nada aos dos que os usam todos os dias”.

 

 

Todos os domingos quando sai do seu programa de rádio tem inúmeros jovens que o esperam no jardim da LAC. Querem falar, mostrar os seus discos, ouvir conselhos ou pedir ajuda. Muitos que vêem nele um modelo e uma possibilidade de realizar os seus sonhos. Será que Miguel Neto, lida bem com esta responsabilidade? “Lido mal porque não os posso ajudar como quero. Não tenho capacidades financeiras para os ajudar com instrumentos, com a gravação dos seus discos, e isso deixa-me triste. O que posso fazer é dar-lhes espaço para mostrarem a sua arte. Muitos destes jovens sem uma oportunidade, acabam por se perder. Sempre dei esse apoio”.

 

Um dos projectos que Miguel Neto desenvolveu, o disco RC, contribui bastante para o aparecimento de novos músicos. Já foi lançado um CD e prepara agora o segundo. “Só aparecem no disco músicos não consagrados. De outra forma não conseguiriam apresentar a sua música. São jovens à procura do seu status e muitos deles com valor. Aponto sempre o caso dos Estados Unidos, onde os músicos mais consagrados ou as figuras do espectáculo apoiam os jovens que querem aparecer. Desde 1994 que apoio novos nomes da música. Naturalmente que gostava de fazer mais, mas não tenho condições financeiras para isso”.

 

SEGUNDO VOLUME AINDA ESTE ANO
 
O livro retrata múltiplos aspectos do quotidiano do povo angolano e é baseada em crónicas do autor. A obra, produzida pela Ls Produções e editada pelas edições de Angola, também vai ser apresentada noutras províncias do país. Na sessão de apresentação, no Parque da Independência, Miguel Neto acrescentou que prevê lançar um segundo volume no final deste ano.
 
Combate ao Plágio

 

O plágio foi uma batalha incómoda que o comunicador agarrou. O que não é fácil num país onde alguns ainda fazem discos de sucesso com misturas de músicas de outros sem autorização e o pagamento dos justos direito de autor. Onde constantemente se fazem plágios de artistas estrangeiros e quando descobertos, alguns ainda comentam “mas eu mudei a letra”. “A verdade é que para alguns que querem aparecer não há limites. Nem regras. Quando o país se começou a desenvolver e passaram a vir a Angola os melhores compositores mundiais, estes percebiam que aqui alguém utilizava as suas músicas sem qualquer referência ou autorização. Quando se quer ter sucesso rápido, escolhe-se o caminho mais fácil que é o do plágio. Tento explicar aos jovens que essa é uma prática errada. Não vale pegarem músicas já feitas e dizerem que são suas”, explica.

 

Esta sua cruzada fez com que alguns lhe virassem as costas. Zangados e ofendidos. Mas ele não facilita e sabe que no futuro, tal como acontece em outros países, o mercado será mais regulado e serão os mais capazes que vão ficar. “Esta pseudo-arte é a despromoção da música. As pessoas têm que estar atentas a este fenómeno. Hoje, com toda a informação que existe, o mundo é pequeno. Eu alertei as pessoas para isto há muito tempo. A música é uma grande coisa. É um dom. E quem faz bem deve ganhar o justo prémio por isso. A reprodução é uma prática que deve ser punida. Houve alguns que não gostaram, mas paciência. São estes valores que temos que passar aos mais novos. Se todos fizermos o melhor que sabemos dentro das nossas áreas, a sociedade angolana será muito melhor”.

 
NO FUNERAL DE JACKSON

 

Miguel Neto foi o único jornalista angolano — e dos únicos em termos mundiais — que esteve dentro do Staples Center na cerimónia fúnebre de Michael Jackson.

 

Uma história incrível que nos conta de forma entusiasmada: “Sempre fui um admirador de Michael Jackson. Quando ele morreu muitas pessoas perguntavam-se se não ia cobrir este acontecimento. Agora, eu, um jornalista angolano ia daqui para a América para participar? Não me parecia possível. Por isso quando os meus amigos falavam comigo, eu ia encolhendo os ombros e ria-me”. Mas um dia, a ideia pareceu-lhe possível. “Lembro-me que acordei e pensei porque não? Já tinha tido contactos com a Embaixada Americana quando lá estive em 2008.

 

Fui falar com a cônsul. Comecei a juntar apoios, consegui alguns, meti também o meu dinheiro e resolvi partir para Los Angeles. Na viagem, que é cerca de 20 horas, é que tive tempo para pensar. Agora chego a Los Angeles, mas vou fazer o quê? Como é consigo estar presente?”, lembra, acrescentando, “decido então que ia colher o sentimento das pessoas, estar perto de onde se realizavam as cerimónias fúnebres e, se possivel, ir até casa dele. Cobrir por fora aquilo que se estava a passar era a solução”.

 

No dia da cerimónia acordou por volta das cinco da manhã, “já era tarde, uma vez que quando lá cheguei já estava cheio de jornalistas. Lembro que não haviam bilhetes disponíveis, havia pessoas que estavam a vender ingressos a 50 mil dólares. No meio daquela confusão desatei a filmar tudo. Os jornalistas estavam concentrados na esquina de rua a 1,5 km do Staples Center. Eu fui com uma amiga que estava vestida a rigor de Michael Jackson, com aquela luva que o caracterizava. Quando lá chegámos, muitos jornalistas quiseram tirar imagens dela, sendo que se tornou no centro das atenções. E eu lá continuava a registar tudo”.

 

Foi então que Deus resolveu dar uma ajuda. “No meio daquela confusão vem uma pessoa da organização ter com essa minha amiga e pergunta-lhe se não quer assistir à cerimónia, uma vez que estava vestida exactamente como Michael Jackson. Ela diz que sim mas que estava com amigo angolano. De repente oiço chamar o meu nome e vejo-a com dois ingressos na mão. Foi Deus que resolveu dar uma ajuda, a um angolano que tinha saído da sua terra, feito milhares de quilómetros para estar perto. E foi assim que entrei no Staples Center”.


 
NO STAPLES CENTER

 

Lá dentro voltou a ter uma ajuda “divina”. “Entrei e sentei-me perto da zona onde iam decorrer as cerimónias. Veio um segurança e disse que o meu lugar era lá em cima. E eu lá fui para os anéis superiores. Quando lá cheguei estava um hispânico e comecei a falar com ele. Entendíamo-nos e fui-lhe contando a minha história. Foi ele que me disse para para ir para perto das câmaras de televisão cá em baixo e deu-me um acesso. Quando dei por mim estava na zona mais importante do pavilhão, com uma câmara virada para mim, mesmo no centro onde tudo ia acontecer.

 

Recebi uns mails de Angola a dizer que me tinham visto no Staples Center, mas eu não acreditei. Pensei que estavam a brincar. A verdade é que depois vi as imagens e lá estava. Fui uma emoção muito forte. Tinha saído de Luanda praticamente sem apoios, com o meu próprio equipamento e tinha conseguido lá chegar. É um momento alto da minha carreira que vou registar para sempre em DVD”, esclarece.

 

 

A sarrabulhada de Miguel Neto

 

Miguel Neto publicou recentemente um livro. Dá também o seu contributo pela escrita. “Houve uma altura da minha vida em que senti a necessidade de publicar textos que de alguma maneira reflectissem o que penso, mas que pudessem ser também pistas para os mais jovens. Queria mostrar a minha visão das coisas com honestidade. Numa primeira fase fui ao jornal Semanário Angolense, mas eles adiaram, disseram que iam pensar. A mim também sempre me custou bastante pedir favores. Mostrei uma vez um texto ao Américo Gonçalves que gostou. Perguntou-me se os textos iam ser assim, eu disse-lhe que sim e avançámos com a publicação do livro”, explica-nos

 

Por consequência, veio o livro A Sarrabulhada de Miguel Neto. “Pensei que valia a pena editar um livro com os textos publicados. Lá fui eu à procura de apoios, que é sempre o mais difícil. Não tenho jeito para pedir ou fazer bajulação. Mas quis publicar não pela vaidade, mas pela contribuição. Acho que quando fazemos algo que achamos bom devemos publicar. Está lá e pronto. Fica a contribuição”.


 
Jornalista assumido

 

Este é um trabalho jornalístico digno de registo, o que contraria alguns desta classe que tendem a minimizar o seu trabalho. “Não tenho problemas com a classe jornalística, mas com um jornalista. Obviamente que não fico satisfeito quando põe em causa o que faço. Mas eu tenho atrás de mim muitos anos de trabalho. Agora isso dos cargos, das carteiras profissionais, não me interessa. Não estou aqui pelos títulos, mas pela contribuição. Agora se uso chapéu, camisa larga, isso não tem nada a ver com o trabalho que faço. É apenas banga ou imagem”, diz.

 

“O que fiz em Los Angeles deixou-me orgulhoso. Eu estive lá , mas também o jornalismo angolano e o país através de mim. São essas coisas que eu chamo de contribuição. Eu fiz. E agora quero colocar isso em DVD para que todos possam ver o meu trabalho como jornalista”, ironiza Miguel Neto.

 

Desde sempre que faço comunicação desta maneira. É a única que consigo fazer. Não tenho jeito para pedir ou fazer bajulação.

 

Perfil:
 
  • Nome Miguel José Neto “Nível”
  • Naturalidade Luanda
  • Feito mais importante Cobertura do funeral de Michael Jackson
  • Ídolos Francisco Simons, Aguinaldo Caldeiras, Rui de Carvalho, Joaquim Gonçalves, Mateus Gonçalves, Arlindo Macedo
  • Erro profissional A luta contra o plágio (risos)
  • Hobby Fazer rádio e televisão (mais risos)
  • Futebol O Petro Atlético de Luanda
  • Dança Claro que danço muito. Sou de Luanda
 
Fonte: Opaís

Rádio Jet7 Angola

Vídeos Sugeridos

Procurar Vídeo