Anselmo Ralph vai lançar música em língua nacional com Bangão

Anselmo Ralph vai lançar música em língua nacional com Bangão

 

Luanda - O cantor e compositor Anselmo Ralph, considerado o revolucionário da música romântica em Angola, abordou, em entrevista exclusiva à Angop, o seu percurso artístico, das dificuldades no início da sua curta carreira, do reconhecimento a nível nacional e internacional.

 

Por: Tchinganeca Dias

 

Angop: Anselmo, como é conviver com esta mediatização, sendo o ídolo que toca os corações de uma legião de fãs?

 

Anselmo Ralp (AR): Como tenho sabido conviver com este sucesso, com esta fama? O meu modo de vida acaba por me proteger um bocadinho. O facto de ser uma pessoa que não sai muito, de passar muito tempo em casa, o facto de não ser muito de “noites” e discotecas acaba por ser benéfico para mim.

 

Devo, no entanto, reconhecer que no princípio da carreira, da fama foi um pouco difícil, mas hoje as fãs já me conhecem melhor, já sabem a minha forma de ser, a maneira de pensar, da forma que eu quero que as pessoas me vejam, respeitar as minhas fãs, e luto para satisfazer isto, e o mesmo espero deles.

 

Costumo dizer que o assédio depende muitas vezes de como lidas com os teus admiradores, a forma como te mostras, como os tratas é muito importante, porque vai definir como os fãs te vão tratar, então faço questão de colocar uma barreira, mesmo que meio invisível entre nós.

 

Trato-os todos com muito carinho, gratidão, porque sem eles não seria o que sou, mas deixo bem claro qual é o tipo de relação que pode existir entre eu os meus admiradores.

 

Angop: Sei que troca de números de telefone por causa do assédio dos fãs. Esta atitude não o faz perder oportunidades de negócios?

 

AR: (…) hoje já não troco, fiz isto durante uma fase, mas agora não o faço. O Calado Show disse que “pobre não pode trocar de número”, isto para dizer que, quem trata dos meus contratos não sou eu, quem faz é o meu agente, mas perdia muitos e bons contactos por causa disso. Perdi, sim.

 

Angop: Que balanço faz da sua curta carreira?

 

AR: É um balanço muito positivo. É uma carreira surreal, tem momentos que nunca pensei passar. Dou-me por um artista abençoado, e alias, acredito que Deus é o mentor deste sucesso, desde 2006 até agora, directa ou indirectamente tenho sido um dos nomes sonantes do music hall angolano, e só tenho que agradecer a Deus, a família e aos fãs, admiradores, as pessoas que consomem o meu trabalho por esse sucesso.

 

Angop: Já pisou vários palcos no país e no estrangeiro, que espectáculo mais marcou a sua carreira artística?

 

AR: É difícil dizer qual o espectáculo que mais marcou. Existem vários espectáculos que marcaram, fica difícil mencionar um em especial, não tem um que eu possa escolher, por estar sempre a realizar actuações em palcos diferentes, em curto espaço de tempo. Não existe um que esteja na liderança desde 2006 a 2014. Claro que me sinto orgulhoso por poder estar a passar pelas coisas que estou a viver, mas sempre acreditando que poderemos fazer sempre melhor.

 

Angop: Então, considera-se um perfeccionista por natureza?

 

AR: Sim, sou ou procuro ser um perfeccionista, mas graças a Deus procuro contentar-me com aquilo que o senhor me tem dado, acima de tudo. Deus procura dar o melhor para nós, por mais imperfeito que parece, mas é sempre a nossa vitória.

 

Angop: Veio revolucionar a forma de fazer música romântica no mercado nacional. Que sensação tem quando olha que foi bem-sucedido num mercado que era dominado por brasileiros e americanos?

 

AR: (…) risos, olha esta não era a minha intenção, acredito que as coisas quando têm que acontecer vão acontecer, independentemente da tua posição, da tua determinação. Sempre fui alguém muito determinado, mas nunca tive em mente uma determinação exacerbada, que acreditava em ser o maior a qualquer custo, não.

 

Sempre fui determinado em fazer o estilo de música que melhor sei fazer e que gosto de fazer, independentemente de dar certo ou errado, mas nunca fui de pensar que seria o maior romântico de Angola. Sempre queria ser reconhecido um dia, ser ouvido, fazendo aquilo que melhor sei fazer.

 

Angop: Depois do último trabalho “A dor do cupido”, lançado em 2013, como está a preparar o próximo produto para satisfazer a enorme legião de fãs que tem pelo país e no estrangeiro?

 

AR: Olha, estamos a preparar dois trabalhos, a projectar o dvd, que vai ser gravado aqui em Luanda, por isso estamos a trabalhar no mercado nacional, a fazer a tournée nas províncias. Estou engajado em duas tournée, uma que é a 10 milhões de clientes da Unitel e a outra com a Coca-Cola, mais no geral vamos passar pelas 18 províncias.

 

A última província vai ser Luanda, onde vamos gravar o dvd, o local ainda não foi definido, entre a Baía de Luanda e o Estádio dos Coqueiros, e vamos contar com muitos outros nomes para participar no espectáculo, nomes de artistas consagrados nacionais e estrangeiros.

 

Vamos lançar o dvd com muitas surpresas. Também estou a acabar o disco para o mercado internacional, em inglês e espanhol, que vai ser lançado no princípio de 2015, a par do dvd, porque o show da gravação vai ser no princípio de Novembro. No final de Junho e princípio de Julho vamos fazer uma pausa nos trabalhos, para depois avançarmos com muita força. Em Agosto vamos realizar alguns espectáculos na Europa, em Moçambique, Cabo Verde, depois regressamos em Angola, continuar a tournée e fechamos em Luanda.

 

O dvd só sairá dia 14 de Fevereiro do próximo ano e o álbum internacional deve sair, em princípio, no primeiro trimestre de 2015.

 

Aqui, vou lançar através dos telefones, não vou revelar tudo, mas que vai ter uma aplicação Anselmo Ralph, como a que foi lançada o ano passado pela Samsung, mas que não era uma coisa completa, tinha três, quatro fotos, algumas músicas e aí ficou. Agora estes telefones são mais contínuos, existe uma relação entre o Anselmo Ralph e o cliente mais próximo, através de uma aplicação, assim que sair uma música nova ou outra novidade minha o cliente também já tem acesso imediato. Por exemplo, estou em estúdio, em gravações, em filmagem e o usuário do telefone já sabe: como poderá saber em primeira mão que estive a dar uma entrevista para a Angop onde falei sobre estas e outras novidades através do telefone.

 

Angop: Já pensou cantar uma música romântica 100 porcento em uma língua nacional como o kimbundu, umbundu, fiote ou outra.

 

AR: Este desafio já foi lançado e estava para ser executado no último álbum. O falecido Beto de Almeida tinha ligado, quando estava na Suíça, e tínhamos combinados para ele me ajudar a compor uma música em umbundu. Mas os fãs vão ouvir um trabalho, muito em breve, neste género de língua, pois já conversei com o Bangão para fazer uma música em língua nacional, mas no meu estilo.

 

Angop: Que avaliação faz da música angolana feita hoje?

 

AR: São gerações muito diferentes. São gerações com diferentes focos. Ontem tínhamos uma geração mais preocupada com a libertação do país, uma geração de jovens mais preocupada com a emancipação de Angola, e desta forma tínhamos música mais de intervenção. Hoje temos músicas de intervenção, mas com tendência mais comercial. Pelo que oiço dos mais velhos, as músicas que se dançavam nas festas eram as de intervenção. Era definitivamente uma geração diferente, de uma Angola totalmente diferente. Actualmente temos uma Angola em paz, livre, em alto desenvolvimento, onde não se fala de música de intervenção em massa.

 

A música de ontem serviu para um propósito, ainda pode e continuará a servir de exemplo, faz parte da história, pode mostrar como a música pode ser servida num país.

 

Acredito que estamos de parabéns e foi graças a paz que demos passos significativos, destacando-se o surgimento do Kú-duro, música feita por gente jovem, algo diferente, feita por angolanos, com novas formas de dançar, novos ritmos, entre outros.

 

Angop: Para quando um semba ou kú-duro nos seus discos?

 

AR: Não digo que um dia faça um semba totalmente Anselmo. Tem-se dito que “cada macaco no seu galho”, então o semba não é a minha especialidade e se tiver que fazer vou ter que convidar alguém que sabe fazer melhor, convido o Paulo Flores, o Bonga, o Yuri da Cunha, as pessoas que melhor sabem fazer para poderem ser os meus padrinhos no trabalho. Agora sozinho, não acredito fazé-lo. Como também não aconselho um sembista a fazer um R&B, porque para fazer “assim, assim”, é melhor não fazer algo que não tem a ver contigo.

 

Angop: O mercado romântico no país.

 

AR: Acho que virou moda entrar por este campo. Sempre consumimos música romântica, só que era um estilo um pouco mais rítmico, no estilo hip-hop, rap. Vês os sucessos dos SSP, por exemplo, agora no estilo balada ou R&B como eu faço acaba sempre por ser um risco.

 

Angop: Já conquistou diversos prémios, foi distinguido várias vezes, o que falta na sua galeria de troféus?

 

AR: Bem, troféu é sempre um troféu, já conquistei graças a Deus diversos prémios. O prémio é a cereja no topo do bolo, mas só é importante a cereja se estiver aí o bolo.

 

Não vejo qual é o prémio que falta conquistar, mas sim ver que tipo de trabalho vou fazer, o que terei que fazer com todo o profissionalismo. O que posso dar mais para o público, o prémio é o resultado do trabalho, então viro sempre para o trabalho, de forma à procurar agradar o público.

 

Angop: Sente-se um cantor realizado?

 

AR. Não. Não me sinto, ainda falta muito, ainda tenho muito que percorrer, e se Deus quiser tenho um pouco mais para dar para o nosso país.

 

Angop: O que mais o motiva para compor os seus temas? Onde vai buscar a inspiração?

 

AR: Os Tunezas uma vez disseram que sou um fofoqueiro moderno, que acabo por contar a vida das pessoas de forma romântica. Para resumir, canto o dia-a-dia das pessoas, aquilo que vivencio, o que vivo, em resumo.

 

Angop: Ainda se lembra da primeira música que compôs?

 

AR: Não, não me lembro da música, mas lembro-me do título, era “Catorzinha”, tinha gravado um instrumental num rádio, que tinha uma abertura que dizia microfone e com uma cassete fiz uma equalização.

 

Angop: O que muitos não sabem é que o Anselmo teve um disco, o seu primeiro trabalho, que bateu na rocha, como se diz quando não fez o sucesso esperado. Pode falar um pouco desta fase?

 

AR: (…) risos. O disco não bateu na rocha. Este trabalho foi feito, mas na altura da gravação do álbum um integrante decidiu abandonar, então eu e o Camilo Travassos, o meu agente, gravamos com o Nelo Paím, no estúdio EP Estúdio, do Eduardo Paím. Foi o primeiro disco a ser editado naquele estúdio. Foram editadas 500 cópias, só que quando o álbum foi editado eu já estava nos Estados Unidos da América (EUA) e não chegamos a trabalhar no disco, na sua promoção. As 500 cópias andam por aí, até tenho procurado quem me dá uma cópia. Não foi bem bater na rocha.

 

Angop: Como é cantar o romantismo?

 

AR: Acima de tudo tem que vir do coração, porque quando é falso tarde ou cedo acaba por aparecer, e eu canto e vivo o romantismo. É sempre bom espalhar o romantismo e depois de 30 anos de guerra, é sempre bom de falar de amor, em Angola e no mundo inteiro.

 

Angop: O que significa para si a música?

 

AR: Tenho dito que Cristo é a minha vida e a música é a minha segunda vida.

 

Angop: Tem mais cantores na família?

 

AR: Na família tenho. Tenho um primo que também canta, o Laton, dos Kalibrados.

 

Angop: Sempre teve o apoio da família quando decidiu enveredar pela carreira artística?

 

AR: Recebi dos amigos, mas da família não, disseram primeiro “vai lá estudar, qual música”. A família pensou que fosse um hobby, mas quando decidi parar tudo para enveredar pela carreira musical, foi um pouco difícil para os meus pais, mas hoje já aceitam.

 

Angop: Foi anunciado, em 2013, que o Anselmo iria abandonar os palcos, mas depois de um tempo retornou, o que se passou de concreto?

 

AR: Foi um erro na mensagem que passou na altura. Ia retirar-me dos palcos por seis meses apenas. Quando fui fazer o DVD, em Portugal, e apostar no mercado estrangeiro tinha muito trabalho, estava saturado de tanta publicidade, estava mesmo saturado, e decidi dar um descanso de seis meses, fazer mais lá fora. A minha produtora, na altura a LS Republicano, foi infeliz ao dizer que abandonaria os palcos, só que vim a público dizer que não era bem assim.

 

A produtora fez um trabalho de marketing, que até na altura resultou, mas não gosto de passar por mentiroso, já que aquilo foi “um jajão”.

 

Angop: Se não fosse cantor, o que estaria a fazer hoje?

 

AR: Se não fosse cantor seria cartoonista, esse foi o meu primeiro talento, o desenho. Acredito que sempre havia de trabalhar no entretenimento ou moda.

 

Angop: Quem é o Anselmo dentro e fora dos palcos?

 

AR: É um pai, um marido, filho, acima de tudo é um cristão que respeita e gosta de ser respeitado. Procuro ser a pessoa mais simples, tentando não levar o Anselmo Ralph dos palcos para casa.

 

Angop: Foi o segundo cantor mais ouvido em Portugal, em 2013, que sensação é fazer sucesso em um mercado bastante exigente, onde pontificam artistas norte-americanos?

 

AR: Nunca me preocupei com o resultado. O que sempre quis era ser reconhecido, pela composição, já que acho que dos meus pontos fortes a composição era uma delas, então sempre quis que as pessoas gostassem das minhas composições. Nunca me preocupei em ser famoso, conhecido, isto deve-se a educação religiosa que tive durante um tempo nos EUA. Isto deu-me umas ferramentas para moldar os meus pensamentos noutra direcção, em como ver as coisas, de como pensar e agir.

 

Angop: Qual é o segredo para este sucesso?

 

AR: Qual é o segredo? As vezes me perguntam qual é o segredo, só respondo que é muita dedicação, profissionalismo e trabalho, acima de tudo. Agora se for outro, eu cortava em fatias, montava uma bancada e começava a vender os segredos aos montes. Agora acredito que o responsável do sucesso deve ser Deus.

 

Fonte: Angop

Rádio Jet7 Angola

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