Angola dá último adeus a Beto de Almeida

 

Nesta quinta-feira, o artista fez "raiar" pela última vez a sua luz, no Cemitério Alto das Cruzes. Mesmo sem poder expressar físicamente a sua voz, "atraiu" no dia do último adeus milhares de admiradores e familiares.

As demonstrações de carinho e solidariedade foram manifestadas por cidadãos de vários estratos sociais, sobretudo colegas de carreira, que marcaram massiva presença no funeral.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Instituições reconhecem feitos do autor

 

As primeiras palavras das exéquias foram do secretário de  Estado da Cultura, Cornélio Caley, que afirmou, num discurso carregado de emoção e compaixão, ter partido um "regador da alma angolana".

 

"Em nome do Ministério da Cultura e todos quantos fazem a cultura, nós perdemos um amigo, companheiro, fazedor de cultura. Estamos num momento triste, em que um  regador da alma angolana se perdeu. Nós aproveitamos esta oportunidade para solicitar a todos quantos ainda estão vivos que façam da música o instrumento que nos catapulta para a alegria e vitória", declarou.

 

Seguiu-se a mensagem da União dos Artistas e Compositores (UNAC), na pessoa do seu vice-presidente para a área de música, Massano Júnior, para quem a partida do artista foi uma perda inesperada.

 

"Todos lamentamos aquando do incidente na Huíla. Entretanto, esperançados, rezamos. Destroçados ficamos quando a fúnebre notícia chegou-nos. Beto parte, fica a obra. Lamentamos este prematuro desaparecimento físico, mas temos certeza de que a sua voz jamais entre nós desaparecerá", referiu.

 

Ao ler a biografia e o elogio fúnebre, Sila Mendes, da comissão das exéquias, lembrou que as primeiras aparições do artista, ao lado do irmão Moniz de Almeida, foram fruto do desejo de cantar as vicissitudes de um povo em guerra.

 

"Esta dupla tornou-se um fenómeno da música popular angolana, conseguindo diferenciar-se dos demais grupos, porque nunca renegou o seu passado, para cantar o futuro".

 

Referiu que a dupla soube ao longo dos anos fundir, nas suas canções, a emoção suburbana à mensagem urbana, voltada para a juventude e à conquista de amores, sobretudo nos temas "Guilhermina" e "Morainha", cantado em umbundo.   

 

"Ao longo dos anos de carreira, Beto manteve sempre activo o seu dom de cantar e encantar os seus admiradores, com lindas e dançantes melodias, ao som da sua incomparável voz.

 

Deixou a sua marca nas composições e produções que executou. Sempre predisposto a compartilhar com os seus colegas de arte, contribuiu para o sucesso de inúmeras obras musicais e inúmeros cantores nacionais e não só", expressou.

 

Música "Minha Viola" na descida da urna

 

Oriundo de uma família de raízes musicais, o intérprete e compositor de múltiplos recursos foi a enterrar ao som de uma das canções que mais o fizeram aproximar do estrelato e arrebatar corações "Levarei Minha Viola".

 

Foi ao som deste tema partilhado com o irmão Moniz de Almeida e cantado inúmeras vezes nas matas, por altura do conflito armado, que "Tchuma" desceu à terra, ante o incrédulo olhar de quem consigo partilhou momentos únicos.

 

As vozes de artistas e fãs ecoaram em alto som no Alto das Cruzes, num momento marcante que simbolizou o carinho de empresários, atletas, músicos, políticos, diplomatas e familiares pelo autor de "Yara" e "Vizinha Cara de Pau".

 

Antes deste momento, Beto de Almeida foi tributado com o tema "Descanse em paz Tchuma", gravado por um leque de 23 colegas de profissão, que exaltaram, ao vivo, as qualidade profissionais do artista, falecido domingo na Namíbia.

 

A interpretação dos dois temas, a que seguiram outros números dos artista, com destaque para "Vizinho Cara de Pau", elevou o clima de comoção entre os presentes, que deram o derradeiro adeus a Beto de Almeida, por entre choros e lamentações.

 

Biografia do artista

 

Roberto Tiago da Silva de Almeida nasceu aos 8 de Novembro de 1976, na província do Kuando Kubango, tendo feito grande parte da carreira ao lado do irmão Moniz de Almeida.

 

Filho de pais protestantes, "Tchuma" (irmão), como era carinhosamente tratado nas lides musicais, iniciou a carreira na década de 1980, mas despontou no mercado no princípio dos anos 90, depois de juntar-se ao irmão Moniz de Almeida.

 

Ao lado deste produziu canções de grande sucesso, entre as quais "Yara", "Cara de Pau", "Amor Melaço", "Bandido", "É Duro", "Ngapa", "Guilhermina" e "Levarei Minha Viola".

 

Beto de Almeida despontou num contexto difícil da história de Angola, em que emergia o ritmo kizomba, juntamente com outras vozes, como Isidora Campos, Maya Cool, Gabriel Tchiema e o produtor Beto Max. Com a canção "Minha Viola" andou pelo país, animando guerrilheiros nas frentes de combate e ajudou a devolver a esperança a um povo ainda tomado pela guerra.

 

Tudo começou em 1985, altura em que participou no primeiro Festival Regional da Canção no Namibe, tendo arrebatado o primeiro lugar.

 

Em 1986, participou no Festival Internacional da Canção Infantil, da Organização do Pioneiro Angolano, no Acampamento Pioneiro Augusto Ngangula, tendo se classificado em terceiro.

 

Três anos depois, transferiu-se para Luanda e juntou-se ao irmão mais velho Moniz de Almeida, dando início à dupla Irmãos Almeida.

 

Guiados pelo espírito de cantar as vicissitudes de um povo em guerra, decidiram actuar juntos numa primeira fase, passando o mais novo a participar nos espectáculos de Moniz.

 

Em pouco tempo, a dupla explodiu e estourou nas rádios, com temas como "Tio Zé", "Sofrimento", "Paciência", "Chefe é Chefe", cantando o dia-a-dia do seu povo.

 

A saída da música "Paciência" foi um dos momentos marcantes do começo da carreira do artista, abrindo espaço para uma nova aventura e permitindo a gravação do seu primeiro CD a solo "Cara de Pau", em 1991.

 

No mesmo ano, fruto do sucesso deste tema, foi convidado a participar no Festival da Música da África Austral, realizado em Harare, capital do Zimbabwe.

 

Mais tarde, os dois irmãos decidiram montar o primeiro espectáculo oficial conjunto, apresentando-se em Luanda São Tomé e Príncipe.

 

Em 1996, o duo gravou o primeiro CD, em Lisboa, Portugal, intitulado "Kimbanda". O semba foi a marca mais expressiva deste disco, cujos temas de maior referência são "Vigarista" e "Amor Melaço", muito apreciados em todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

 

Em 1999 lançaram no mercado o disco "Pico", do qual constam os temas "Ngapa", "Minha Viola" e "É Duro", produzidos na linha melódica do semba e lamento.

 

Em 2000 gravaram novamente em Portugal, agora o CD "Almeisi", do qual constam os temas "Guilhermina" e "Morainha", este último no estilo sungura, uma marca registada do duo.

 

A título individual, Beto de Almeida produziu e publicou várias canções suas e para outros músicos, tendo sido responsável pelo aparecimento e projecção de vários artistas mais jovens.

 

Constam deste leque os músicos Dog Murras, Nazarina Semedo, Isidora Campos, Jeff Brow, Kelly Silva, Yola Araújo, Esmeralda, Yeye, DJ Manya, Belinha, Maya Cool, Esmael, Fly, Euclides figueira, JP, entre outros.

 

A sua mais recente canção foi "Balumuka", produzida na linha melódica do afro house, um género novo na carreira do artista, que viria mostrar a sua versatilidade e capacidade de compor e interpretar de forma rápida qualquer género músical com que se deparasse.

 

O artista deixa viúva e quatro filhos.

 

Fonte: Angop

Rádio Jet7 Angola

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